Quem não quer a união contra Bolsonaro

A esquerda brasileira, em especial a lulo-petista, é sectária, intolerante, intransigente. Política é necessariamente conversa, troca, aceitação, mas o lulo-petismo não conversa, não troca, não aceita. Só admite dar ordens, convocar, exigir obediência.

Não é por acaso, não é à toa que o lulo-petismo endeuse tanto a Venezuela de Chávez e Maduro, a Cuba dos Castro: há um especial apreço pela ditadura no DNA do PT, pela ordem unida, o “centralismo democrático” do velho Partidão na época stalinista. O chefe decidiu, que todos cumpram. Roma locuta, causa finita – sendo Roma, aí, não a Santa Madre, mas o poderoso chefão, o líder máximo, Lula I e Único.

Nada disso é novidade, de forma alguma. Qualquer pessoa bem informada que não sofra de cegueira ideológica sabe disso tudo.

A novidade é que agora uma pesquisa demonstra tudo isso em números. A rigor, duas pesquisas – e a comparação entre elas.

Foram realizadas entre as pessoas que participaram das duas últimas manifestações contra Bolsonaro na Avenida Paulista – a do dia 12 de setembro, inicialmente convocada por organizações de direita ou centro-direita, como o MBL e o Vem Pra Rua, mas depois encampada por partidos políticos de centro e mesmo centro-esquerda, como o PDT de Ciro Gomes, e a do sábado passado, 2 de outubro, convocada basicamente por organizações sociais, sindicatos e partidos de esquerda, mas que teve também a adesão de partidos de centro e centro-direita.

Foram entrevistadas 841 pessoas na manifestação de 12 de setembro e 662 na de 2 de outubro. A margem de erro é de 4 pontos percentuais.

As pesquisas foram feitas pelo grupo Monitor do Debate Político no Meio Digital, órgão ligado à USP. A coordenação é dos professores Pablo Ortellado e Márcio Moreto.

A reportagem do jornal O Globo que apresenta os números da pesquisa, assinada por Bernardo Mello e publicada nesta segunda-feira, dia 4/10, usa as informações para demonstrar que há dificuldades para se montar uma frente ampla contra Bolsonaro. Esquerda e direita, diz a reportagem, resistem a se juntar contra o presidente da República. Isso é bem verdade. Mas o que os números mostram clarissimamente – e eles estão nas artes publicadas no Globo – é que a resistência à união contra Bolsonaro é muito, mas muito maior entre os que se declaram de esquerda.

Chamo a atenção para alguns números especialmente interessantes. Entre as pessoas que foram à manifestação de 12 de setembro – “a manifestação da direita”, segundo a esquerda –, não havia maioria ampla de uma única corrente. Diziam-se de esquerda 24%¨; de centro-esquerda, 13%. de centro-direita, 14%; de direita, 19%. E 21% responderam que não eram de “nada disso”.

Ou seja: na “manifestação da direita”, havia de tudo.

Já no ato de 2 de outubro, nada menos de 86% se declararam de esquerda; 8% se disseram de centro-esquerda, e 1% de centro-direita.

À afirmação “Para o impeachment de Bolsonaro é necessária uma ampla aliança que vai da direita à esquerda”, 86% dos entrevistados em 12 de setembro concordaram. Já entre os entrevistados em 2 de outubro, cai para 66% o número dos que concordam.

Entre cada 10 manifestantes de esquerda, 4 se recusam a entender que é necessária uma ampla aliança para conseguir o impeachment de Bolsonaro.

38% dos manifestantes de 12 de setembro se recusariam a ir a um ato com o PT – e isso é lamentável, como também foi lamentável que naquela vez uma das organizações tenha levado um pixuleco de Lula com Bolsonaro. Ora, diabos, era pra ser uma manifestação de todos contra Bolsonaro.

Pois é. Mas nada menos que 71% dos manifestantes de 2 de outubro se recusariam a ir a um ato com o MBL.

A diferença, aqui, é absurda: 38% de intransigentes em setembro – e 71% de intransigentes agora em outubro!

Sim, foi lamentável haver pixuleco de Lula com Bolsonaro em setembro – assim como foi igualmente lamentável haver tanta bandeira e coro de Lula-lá em outubro.

Ciro Gomes, o pré-candidato do PDT à Presidência, que esteve nas duas manifestações, ”a da direita” em setembro e “a da esquerda” em outubro, pôde falar normalmente na outra; nesta última aqui, foi vaiado, e seu carro foi atacado a pauladas.

Tentar uma frente ampla contra o mal maior, Bolsonaro e o bolsonarismo, é difícil, e há intransigência dos dois lados – mas os números mostram onde a intransigência se concentra.

Aqui está a arte publicada pelo Globo com os principais números. Quem se interesse pode acessr a íntegra das duas pesquisas no site do Monitor  do Debate Político no Meio Digital.

4/10/2021

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