Mas que il faut voyager que nada, meu!

Por melhor que seja uma viagem, a melhor coisa dela é chegar de volta em casa.

Acabo de vivenciar essa verdade dos fatos agora, ao chegar de volta depois de cinco dias fora.

Faz um tempão que acho isso. Lá atrás, bem atrás, ainda nos anos 80, me lembro que costumava brincar, quando voltava de alguma viagem, que gostaria de fazer como o Papa João Paulo II, e beijar o chão. (Lembram-se que o Papa mais viajador dos últimos séculos costumava beijar o chão a cada vez que pisava no solo de um novo país, uma nova cidade?)

Pois é, eu costumava brincar que gostaria de beijar o chão. Não qualquer um, mas o chão da cidade que escolhi para viver, o chão da cidade em que fica a minha casa.

Já escrevi algumas vezes sobre as duas canções antípodas, opostas, ambas de um Jorge, coincidência irônica para mostrar como tudo é uma pândega, ou uma tragédia, dependendo do nosso olhar. Uma canção de George Harrison, outra de Georges Moustaki.

O Jorge inglês diz, em “The Inner Light”, que sem sair da porta de casa dá para conhecer todas as coisas na Terra. Que sem olhar para fora da janela dá para saber os caminhos do Paraíso. E conclui com uma afirmação definitiva, arrasadora: quanto mais você viaja menos você sabe. (A íntegra das duas letras está ao final do texto.)

O Jorge greco-egípcio-judeu-francês diz, numa canção que já faz a afirmação definitiva no próprio título, que il faut voyager. Tem que viajar, é preciso viajar. Falar uma outra língua, ouvir outros ruídos, sentir o gosto de outras frutas, viver outras lendas, procurar outros amigos, caminhar em outras ruas, dormir em outras camas em braços desconhecidos.

***

Moustaki é foda, meu. Foi por causa dele que carreguei minha bola de ferro presa à canela até Paris, pela primeira e única vez na vida.

Já contei muito essa história, mas não canso de repetir. Mary, a que tem asinhas nos pés, ficava torrando minha paciência dizendo que eu tinha que conhecer Paris. Aí, num dia em que estava deliciosamente bêbado, ouvindo Moustaki na sala, sem olhar pra fora da janela, brinquei: – “Se for pra ver um show do Moustaki, eu vou”.

A danada da mulher foi à luta e ao Google, descobriu que daí a váriss semanas Moustaki daria um show no Olympia, o lendário, fundamental, básico Olympia, o lugar em que todos, absolutamente todos os grandes cantores e compositores franceses se apresentavam, de Jacques Brel a Barbara, de Edith Piaf a Gilbert Bécaud, de Yves Montand a Françoise Hardy – e que tinha lugar na quinta fila. (Quinta ou sexta, não tenho a certeza.)

Tive que ir.

A primeira coisa que fiz na cidade extraordinária foi correr para o primeiro banheiro que encontrei no Charles DeGaulle. (Não tenho medo de avião, de forma alguma, não é isso. Só não gosto de ficar longe do meu banheiro.)

Claro que adorei os dias que passamos em Paris. Escrevi trocentas linhas sobre a experiência.

***

Na verdade, sempre que me obrigam a fazer alguma viagem, adoro a experiência – e escrevo trocentas linhas sobre ela.

Recentemente, meu amigo Valdir Sanches descobriu essa verdade antiga de que não sou nada chegado a uma viagem, e então escreveu aqui mesmo, neste meu site, uma gozação à minha pessoa:

“Em dado momento percebi tudo. O que acontece com Sérgio Vaz é que ele não é um turista, um viajante, um itinerante – ele é um enviado especial. Vai a trabalho.”

OK, este site não é apenas meu, como está escrito lá em cima: é de Sérgio Vaz e Amigos, e nele Valdir pode escrever (e escreve) o que bem entender. Mas ele não entendeu direito as coisas com relação às viagens e à minha pessoa.

Não é que eu não goste de viajar porque depois de viajar tenha que escrever muito. São duas coisas distintas. Uma: não gosto de viajar; prefiro ficar em casa. Outra: gosto de escrever.

“Tudo pra você agora vira texto, paiê”, observou minha filha, ajuizadissimamente, depois que me aposentei do jornalismo, a profissão em que eu praticamente não pude escrever, por estar ocupado em melhorar ou reescrever os textos dos outros.

A questão é esta: gosto de escrever – e, depois que me aposentei, e não precisei mais ficar mexendo nos textos dos outros pra ganhar a vida, me vinguei dos 37 anos em que não pude escrever… escrevendo sem parar.

***

Depois que Mary me levou à força para Paris, minha bola de ferro desenvolveu novas defesas contra essa coisa de que il faut voyager. Me fez ver que, na verdade, without going out of my door I can know all things on Earth.

Aos seguidos convites de Mary para ir com ela para a Irlanda ver um show de Leonard Cohen, a Armsterdam para ver um show de Mark Knopler, a Montréal para ver um show dos Cowboy Junkies, minha bola de ferro e eu dissemos firmes nãos.

Ela foi a todos eles. A cada um deles.

For the record, é preciso dizer que fui eu que a apresentei aos Cowboy Junkies, e fui eu que aumentei a admiração dela por Leonard Cohen.

Houve também, em 2016, o Desert Trip – o Woodstok dos velhinhos, o festival no meio de um deserto da Califórnia que reuniu Bob Dylan, Paul McCartney, Neil Young, Rolling Stones, The Who e Roger Waters. A esse convite, apesar de ali estarem três dos maiores ídolos meus, nem precisei da ajuda da bola de ferro. Recusei de pronto. O quê? Uma viagem gigantesca, longa, e depois um longo passeio pela Highway One, aquela coisa extasiante toda, mas de motor home? Sem o conforto de um bom banheiro? Mas nem f…

Ela foi.

Sequer senti inveja, vontade de ter estado lá. Os movimentos que a cabeça da gente tem para se proteger, mesmo que a gente não saiba de nada o que está acontecendo, são fantásticos. Minha bola de ferro foi lá em algum lugar que Freud explica – e neutralizou qualquer tipo de inveja, vontade de ter estado lá. Neutralizou, sublimou, sei lá. Não entendo nada disso. Regina – com quem viajei muito, para o litoral e o interior de Sâo Paulo, para a Bahia, a abençoada Bahia, muitas vezes, o Rio de Janeiro dela, o Paraná que de alguma forma foi meu, e até mesmo para o Piauí e o Maranhão – dizia que eu sou um sujeito pré-freudiano e não tem jeito.

***

Bem, na quinta passada fui para Curitiba com Mary. Tá certo que para ver gente mais importante que os nomões citados aí acima que Mary viu e eu não vi. Fomos porque nossa sobrinha Rejane se formava na residência médica – e aí aproveitaríamos para ver meu irmão Geraldo e minha cunhada Eneida, e ainda minha cunhada Mílcia e, at last but not at least, Dona Lúcia, essa maravilha.

No mesmo fim de semana, havia a formatura na Medicina da PUC-PR de um sobrinho da Eneida, o Felipe – e então haveria oportunidade de revermos os irmãos da Eneida, Elza e César, e também as filhas da Elza, Suyan e Mayra, e ainda meu sobrinho André e a Patrícia, agora esperando o meu vigésimo sei lá quanto sobrinho-neto, mas que tenho a certeza de que será o mais bonito de todos, tal a beleza dos pais.

E foram encontros deliciosos com eles, e foram dias deliciosos.

Ainda teve, aos 44 do segundo tempo, o primeiro encontro ao vivo com nossa já velha amiga Márcia Motta Velloso, e mais sua filha Verônica.

E teve, meu Deus do céu e da terra, um fascinante reencontro (mais um, é verdade), com “Curitiba, a Fria, onde Jânio Quadros comia moscas”, a cidade em que passei dois anos da vida, no auge da adolescência, os anos dos 16 e 17, não por opção minha, mas por decisão dos irmãos mais velhos. A cidade em que – como disse muitas vezes – cumpri meu exílio, obrigado a deixar Belo Horizonte e antes de ir para a cidade em que queria viver, a que escolhi para viver, a que amo de paixão cada vez mais, esta São Paulo que não tem fim, não tem mais fim, como já dizia Caetano numa canção do exato ano em que aqui cheguei – embora, diferentemente do que ele dizia em outra canção da época, eu não carregasse nenhuma mala que fedia, cheirava mal.

***

Vixe, acho que viajei um tanto nesse último parágrafo… É necessário esclarecer alguns pontos.

Exatamente enquanto eu vivia em Curitiba, em 1966 e 1967, o Livro de Cabeceira do Homen, que de uma certa maneira substituiu a Revista da Civilização Brasileira, da editora de mesmo nome, do incansável batalhador Enio Silveira, publicou um texto que tinha o título de “Curitiba, a Fria”, e o subtítulo “Onde Jãnio Quadros comia moscas”.

O texto – de Fernando Pessoa Ferreira – é arrasador. Não deixa pedra sobre pedra. Reduz Curitiba à titica da poeira do cocô do cavalo do bandido.

A Curitiba que revi na rápida viagem agora é uma cidade – como escrevi num post no Facebook chamando para um álbum de fotos que fiz lá – que impressiona, surpreende, espanta. Pior: dá inveja.

Uma beleza de cidade.

Mereceria um longo texto na seção Turista Acidental deste site, onde há longos relatos meus sobre Porto Alegre, Santiago, Montevidéu, Tiradentes, Blumenau, o Bairro Peixoto, o Rio de Janeiro, a Praia do Rosa, Maceió, Congonhas do Campo, Paris – e até São Paulo.

(O cara da bola de ferro viaja mais que aeromoça, meu!)

Então. Meu reencontro 2020 com Curitiba foi – como tantos outros reencontros desde que saí de lá para começar a vida em São Paulo – uma delícia.

A viagem foi ótima. Revi pessoas queridíssimas, conheci um pouco mais algumas pessoas interessantes. Foi gostoso, foi alegre. Foi tudo ótimo, deu tudo muito certo.

Maravilha.

Ao chegar em casa de volta, depois de 5 longos dias, fui tomado por uma imensa, envolvente, forte alegria: não preciso pensar em viagem alguma pelos próximos meses. E que sejam muitos, muitos os meses sem viagem.

Por melhor que seja uma viagem, a melhor coisa dela é chegar de volta em casa.

18 e 21/2/2020

The Inner Light

George Harrison

Without going out of my door

I can know all things on earth

Without looking out of my window

I can know the ways of heaven

 

The farther one travels

The less one knows

The less one really knows

 

Without going out of your door

You can know all things on earth

With out looking out of your window

You can know the ways of heaven

 

The farther one travels

The less one knows

The less one really knows

 

Arrive without travelling

See all without looking

Do all without doing

Il Faut Voyager

Georges Moustaki-Christian Chevallier 

Il faut voyager

Il faut s’en aller

Là où l’on est personne

Là où l’on ne sait rien

 

Parler une autre langue

Entendre d’autres bruits

Goûter à d’autres fruits

Vivre d’autres légendes

 

Il faut voyager

Il faut s’en aller

Se perdre au bout du monde

Et se retrouver seul

 

Chercher d’autres amis

Marcher dans d’autres rues

Dormir dans d’autres lits

Dans des bras inconnus

 

Il faut voyager

Il faut s’en aller

Sur les chemins de terre

Les routes de la mer

 

Changer d’heure et de jour

Sentir d’autres parfums

S’enivrer d’autres vins

Aimer d’autres amours

 

Il faut voyager

Il faut s’en aller

Dire adieu à soi même

A celui qu’on était

 

Et revenir peut-être

Epuisé enrichi

Pour mourir ou renaître

Là d’où on est parti

 

Il faut voyager

Il faut s’en aller

Là où l’on est personne

Là où l’on ne sait rien

 

Parler une autre langue

Entendre d’autres bruits

Goûter à d’autres fruits

Vivre d’autres légendes

 

Il faut voyager

Il faut s’en aller

Se perdre au bout du monde

Et se retrouver seul

 

Chercher d’autres amis

Marcher dans d’autres rues

Dormir dans d’autres lits

Dans des bras inconnus

 

Il faut voyager

Il faut s’en aller

Dire adieu à soi-même

A celui qu’on était

 

Et revenir peut-être

Epuisé enrichi

Pour mourir ou renaître

Là d’où on est parti, parti, parti

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