Marina à la Woody Allen

Outro dia mesmo Marina, 7 anos e 5 meses, demonstrou que domina a narrativa que apresenta dois eventos simultaneamente. Ontem usou o recurso do flashback. E hoje transportou a gente – ela, a vovó, o vovô – para dentro da televisão, e, ali dentro, para o mundo das Winx, o Magix, o Mundo da Magia.

Esta quarta foi daqueles dias em que ela sabia perfeitamente de que a gente ia brincar, na telenetada número 91: – “Hoje nós não vamos brincar de Winx”, avisou, de cara, bem firme. Demorei um pouco para entender que hoje, ao contrário do que acontece tantas vezes, ela não seria a Flora, a vovó não seria a Bloom, eu não seria o Sky.

– “Hoje nós vamos ser nós mesmos, Marina, vovô, vovó. E vamos entrar na televisão, e vamos fazer um episódio das Winx.”

Aaaaah, meu…

Teve mais.

Um pouco adiante, ela nos contou que a Flora (a personagem de que ela mais gosta no desenho, a personagem que ela vem incorporando em muitas das nossas brincadeiras das últimas várias semanas), a reconheceu. A Flora usou seus poderes mágicos para ver as pessoas que a vêem na TV, e reconheceu a Marina, uma menina que vê demais as histórias das Winx!

E a Flora foi falar com ela, quando nós entramos no Magix!

Aaaaah, meu…

Sim, nós já vimos esse filme!

Tom Baxter, um arqueólogo que procura a rosa púrpura do Cairo, interpretado pelo ator Gil Shepard, por sua vez interpretado por Jeff Daniels, um belo dia olha para aquela moça que vem sempre ao cinema ver o filme em que ele convive com um grupo de ricaços – e de repente ele sai da tela, e vem conversar com a moça, Cecilia, interpretada por Mia Farrow.

Sim, nós já vimos esse filme, essa situação extraordinária que a imaginação genial de Woody Allen criou – o personagem do filme que sai da tela e vai conversar com a espectadora que não se cansa de ver a fita.

Marina, 7 anos e 5 meses, ainda não viu A Rosa Púrpura do Cairo, uma das mais inventivas, fantásticas histórias criadas para o cinema – mas bolou para nós essa história tão parecida com a da pobre Cecilia e o arqueólogo do filme dentro do filme de Woody Allen.

Com a diferença básica, fundamental, de que Marina, ao contrário de Cecilia-Mia Farrow, é a alegria em pessoa.

No filme, o personagem toma a iniciativa de sair da tela e entrar no mundo real para conversar com a espectadora triste. Na história da Marina, a espectadora alegre toma a iniciativa de entrar na tela, e no mundo das personagens mágicas, carregando junto o vovô e a vovó – mas a personagem do mundo mágico já havia reparado nela, sabia quem ela era!

Aaaaah, meu…

***

Outro dia mesmo escrevi aqui que Marina demonstrou saber contar ações simultâneas, paralelas, essa novidade que o cinema trouxe, em especial pelas mãos de D.W. Griffith.

Ontem mesmo ela botou flashback na história que contava para nós, e então ficou parecendo com F.W. Murnau. E hoje criou na cabecinha dela uma história semelhante a uma das mais belas que o gênio de Woody Allen já pariu.

Aaaaah, meu…

***

E Marina prosseguiu na sua história, na boa, na maior.

Estávamos os três – ela, a vovó e o vovô – andando por Magix. Ela viu o prédio de Alfea, a escola das Winx, e nos mostrou. Um prédio lindíssimo, coisa de mundo da magia, de mundo das fadas.

A Flora conversou com ela, e disse que ela e a vovó poderiam ser novas fadas, novas Winx. Seriam admitidas como estudantes em Alfea. Já eu, como sou homem, iria para Fonterrubra, a escola dos Especialistas.

E como se chamariam, na história, a Marina e a vovó? – perguntamos.

Ora – respondeu –, nós éramos nós mesmos. Marina e Vovó, novas Winx. Vovô, novo Especialista.

No caso delas duas, elas poderiam (Marina nos explicou, depois de conversar com Flora) escolher os poderes mágicos de algumas das Winx existentes. Marina escolheu ter os mesmos poderes da Flora, que é a fada da natureza. A Vovó escolheu os poderes da Bloom.

As duas novas Winx, Marina e Vovó, foram conhecer o quarto que dividiriam em Alfea. Experimentaram as camas, Marina, no sofá da sala dela, lá do outro lado da Sumaré, e a vovó aqui no sofá da nossa casa – com a necessária trabalheira de mover os iPads respectivos para que nós a víssemos experimentando a cama do quarto delas em Alfea e ela visse a Vovó experimentando a dela.

Quando a mamãe chamou para o almoço, já era o dia seguinte; as duas haviam dormido sua primeira noite em Alfea, tomado café da manhã – Marina ao lado da Flora, a Vovó ao lado da Stella – e tido uma aula exclusiva com a diretora Faragonda.

***

Essa coisa de, à la Rosa Púrpura, entrarmos na fantasia, no mundo que existe na tela, na história fictícia que passa na tela, é absolutamente extraordinária – mas, diacho, a coisa do flashback também é boa demais.

Rolou da forma mais tranquila, mais suave possível, ontem, terça-feira. – “Vamos brincar de Barbie!”, anunciou – e prosseguiu na brincadeira que vinha rolando já havia alguns dias, em que a Rainha Branca era a rainha do Mundo Barbie. E, como a terça continuava a brincadeira da segunda, a Rainha Branca estava doente.

Tinha ficado doente quando a filhinha dela com o Rei Ken, a princesa Helena, estava com 7 anos.

E então, quando estavam rolando uns 10 minutos da netada número 90, Marina anunciou que…

Voltou no tempo!

Estávamos novamente na época em que Helena estava com apenas um mês!

E, para demonstrar que de fato tinha havido o flashback, Marina nos colocou diante da princesa Helena… que falava com vozinha de bebê!

Aaaaah, meu…

***

Depois que teve a Helena, a Rainha Branca ficou um mês se recuperando na enfermaria do castelo. E, depois de um mês de descanso, só deitada e sentada na cama, teve dificuldades para caminhar. Precisou da ajuda de uma personal trainer.

E por aí ela foi, e por aí fomos, e por aí vamos.

Que coisa maravilhosa é a imaginação das crianças, a capacidade das crianças de saírem deste nosso mundo e entrarem em universos mais belos, mais felizes…

Aaaah, meu…

22 e 23/7/2020

A foto abaixo é um flashforward: foi feita – por Fê Bêla – na sexta, 24/7, depois que o texto acima já havia sido publicado. Pelo rodizio organizado pelo condomínio para evitar aglomerações, Marina tem horários para brincar no parquinho às terças e sextas. Levou com ela a Pri e o Carlos. 

3 Comentários para “Marina à la Woody Allen”

  1. Que maravilha a imaginação das crianças, etc., etc., mas estou pasma de ver o que a Marina apronta. Não é qualquer criança que tem essa capacidade. Quando Marynha me disse que vocês conversam e brincam com Marina todos os dias, pensei que fosse aquele blá-blá-blá comum: como você está?, o que fez hoje? Mas não!!! o negócio é sério: fazem filmes! Meu Deus!!! Genial!!!

  2. Hê hê… Dona Lúcia, a gente brinca mesmo… Não é uma conversa rápida: dura sempre por volta de uma e hora e meia. Marina brinca conosco e faz a gente brincar com ela!
    Figurinha deliciosa…

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