O descentrado centro

Lideranças populistas, partidos sem qualquer identidade, desigualdades extremas, educação precária são algumas das explicações para a rasura em que o debate político nacional se desenvolve. Os que se dizem de direita demonizam os de esquerda que satanizam os de direita. Os extremos sovam-se com braveza e baixarias para fermentar seus mitos, não raro sem saber o significado histórico-politico da direita e da esquerda no mundo e no Brasil. Ao centro cabe a impopular tarefa de arrumação.

O primeiro ano do governo Bolsonaro está aí para provar. Se andou um pouco foi por mérito do Congresso – em especial das forças de centro -, que colocou em pé a nova Previdência, expurgando dela coisas catastróficas como o sistema de capitalização defendido pelo ministro Paulo Guedes. Impôs limites à loucura pró-armas e à desregulamentação sem precedentes nas leis de trânsito. Não topou o excludente de ilicitude e muito menos permitirá taxação do seguro-desemprego. E o centrismo da sociedade impediu a ressuscitação da CPMF.

O centro desembaraça novelos, arranja alternativas, faz. Mas não sabe mostrar o que faz, portanto, não é reconhecido. Muito menos consegue encarnar os feitos em um líder eleitoralmente viável.

Diluídos em vários partidos e com espectro amplo à direita e à esquerda, os centristas têm enormes dificuldades de se enxergarem juntos. À direita, nem passa pela cabeça do governador paulista João Doria sentar à mesa com Rodrigo Maia do DEM ou com o também tucano Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul. O que dirá de abrir mão da candidatura presidencial para fora de seu partido, considerando alternativas como a de Luciano Huck. Viúvos do PT e sem chances nas disputas à esquerda, PSB e PDT nem consideram a hipótese de caminhar ao lado do PSDB, do DEM ou do Novo de João Amoedo. Arrepiam-se com Huck.

No Brasil de hoje se dizer de direita é fácil. É só seguir, ser ativo e brigão nas redes, dar um like e compartilhar as lives e os twitters do presidente Jair Bolsonaro, aclamar o guru Olavo de Carvalho, reproduzir e não criar encrenca com os filhos do chefe. Ser de esquerda, mais simples ainda: basta louvar Lula todos os dias.

Profetas do atraso, os dois líderes, interessados apenas em se manter à frente um do outro, inibem as conexões dos neurônios de seus adeptos. Tudo gira em torno deles.

Já no centro, a encrenca começa na falta de estofo de muitos de se assumirem como tal. Temem ser confundidos com o Centrão, que carrega a pecha da política do toma lá dá cá e de negociações espúrias. Envergonhada, a maioria se diz de centro-esquerda ou centro-direita. Até se unem em votações parlamentares, mas tratam de expor diferenças irreconciliáveis sempre que o papo é eleição.

Na sexta-feira, em reunião da Roda Democrática, grupo de discussão suprapartidário que busca saídas para essas armadilhas, o ex-deputado Roberto Freire, presidente nacional do Cidadania, apontou o exemplo de vitórias centristas em ambientes considerados pouco afetos a elas. Na Europa, que vive o drama da dissidência do Reino Unido, a união continental está sendo mantida pelas forças de centro contra o euroceticismo dos extremos de direita e esquerda.

No Brasil, embora sem reconhecimento da patente, o centro tem cumprido o papel de avalista da democracia. No Congresso e fora dele.

É o campo que dignifica as instituições, rejeitando, por exemplo, o perigosíssimo fora STF, que já esteve na boca do petismo e, agora, no pós Lula-livre, ocupa os bolsonaristas. Que defende a imprensa livre, igualmente rechaçada por ambos com agressividade e sordidez. Que repudia os abusos de Bolsonaro, mas também não tolera os de Lula.

Se as pontas podem arregimentar até o teto de 30%, sejam elas a de Bolsonaro ou do preposto lulista – Lula está impedido de ser candidatar pela lei da Ficha Limpa -, o potencial do centro seria, matematicamente, de 40%.

Mas política passa longe de ser ciência exata.

No ano que vem, os extremos tentarão nacionalizar as eleições de natureza local. Farão de tudo para que o embate ideológico encubra o debate sobre transporte, saneamento, buracos de rua, coleta de lixo, educação e saúde básicas. A preocupação continuará sendo a de manter Bolsonaro e Lula no topo da onda, pouco se lixando para as questões municipais.

Ainda que faltem três anos para a disputa presidencial e isso possa parecer uma eternidade, convém aos centristas se coçarem. Do contrário serão novamente tragados pelos mesmos erros.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, na Veja, em 15/12/2019. 

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