Crônica da eleição do horror (6)

Dia 6 – Sábado, 13 de outubro

  Distantes da realidade

Duas faces da mesma moeda. O lulo-petismo e o bolsonarismo são iguais na adoração das ditaduras – o primeiro pelas de Cuba, Venezuela, Coréia do Norte, e dos regimes totalitários, quase abertamente ditatoriais de Nicarágua, Bolívia, o segundo pela do Brasil de 1964-1985.

E mostram-se cada vez mais duas faces da mesma moeda diante das questões da economia. Na estréia do programa eleitoral de rádio e TV do segundo turno, na sexta-feira, 12/10, fugiram de definições a respeito dos seriíssimos, gravíssimos problemas econômicos do país como o diabo da cruz. Preferiam atacar um ao outro. Bem, argumentos contra cada um dos lados, isso há de sobra – mas Jair Bolsonaro e Fernando Haddad se atacarem na TV e no rádio não ajuda em nada o pobre eleitor a saber o que, afinal de contas, cada um pretende fazer em relação à economia.

E, quando revelam alguma coisa, mostram-se bastante parecidos: são estatizantes, são a favor das corporações do funcionalismo – e portanto de seus privilégios – e não demonstram nenhuma simpatia pelo controle de gastos públicos e pela responsabilidade fiscal.

Essa falta de informações, e esse distanciamento das duas campanhas da realidade do país, foram tema dos editoriais de O Globo e O Estado de S. Paulo do sábado, 13/10, e de um ótimo artigo de Adriana Fernandes no Caderno de Economia do Estadão.

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O Estadão vai no ponto exato: “Na economia, nota-se cada vez mais que Bolsonaro e o PT têm muito mais semelhanças do que os incautos jamais imaginavam. Vai ficando claro que a grande derrotada desta eleição, infelizmente, é a razão.”

E o artigo de Adriana Fernandes vai no mesmo diapasão: “Bastou menos de uma semana de campanha, no segundo turno das eleições, para ficar claro que os acenos reformistas dos dois candidatos ao Palácio do Planalto – Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) – não são firmes. Ao contrário.”

(As íntegras do editorial e do artigo seguem abaixo).

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“Esta eleição tem sido marcada por grande desinformação sobre o que esperar dos candidatos”, diz o editorial de O Globo. E mais adiante:

“Há vários pontos cegos que precisam ser iluminados. Por exemplo, a melhor interpretação do que significa ‘fazer a roda girar’, repetido na propaganda eleitoral. O programa indica ser o mesmo erro cometido por Dilma, no ativismo estatal de usar recursos públicos para reativar a economia, o que eleva a dívida pública — já bastante alta e em ascensão — sem que retorne o crescimento sustentado. Mesmo porque este ativismo degrada as expectativas quanto à já abalada saúde fiscal, e os investimentos se retraem mais ainda.

“Existem também sombras sobre a reforma da Previdência, essencial para colocar a economia nos trilhos. Os dois discordam da proposta encaminhada por Temer ao Congresso, mas o que insinuam colocar no lugar não fica em pé: regime de capitalização, só alterar o regime dos servidores, reduzir a idade mínima de 65 anos para homem e 62 para mulher etc.

“Na ponta do lápis, sem que se saiba ao certo quais as fontes do dinheiro adicional que seria necessário para essas mudanças e outras benesses, tudo até piora.”

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Um ultraje, uma ofensa à fé

À procura dos votos do eleitorado católico, Fernando Haddad foi a uma igreja na Zona Sul de São Paulo, no dia de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, e levou fotógrafo para registrar sua presença lá.

E comungou!

A comunhão é um dos sacramentos da Igreja Católica. O nome já indica: é algo sagrado. Só têm o direito à comunhão os fiéis que se confessaram recentemente.

O gesto eleitoreiro de Fernando Haddad na verdade é um tapa na cara dos católicos.

Eu havia decidido me afastar um tempo do Facebook, mas, diante da foto de Haddad com a hóstia na boca, não consegui resistir, e fiz um post irado, profundamente irado. A reação não foi pequena; o post teve 128 curtidas e 56 compartilhamentos até o meio da tarde deste sábado.

Que nojo dessa pessoa – e, de resto, desse partido como um todo.

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Desconectados da realidade

O Estado de S. Paulo, editorial, 13/10/2018

Os candidatos que disputam o segundo turno da eleição presidencial, Jair Bolsonaro (PSL) e Lula da Silva, este representado na cédula pelo preposto Fernando Haddad (PT), parecem totalmente divorciados da dura realidade nacional. É compreensível que, em uma campanha eleitoral, temas espinhosos sejam evitados ou tratados de maneira superficial, para que não assustem o arisco eleitor. No entanto, o que se tem visto na reta final da disputa é uma preocupante alienação, como se a prioridade do País não fosse o saneamento das estranguladas contas públicas, sem o qual nenhuma das promessas de palanque, mesmo as mais modestas, poderá ser cumprida.

Do PT, é claro, nem se poderia esperar outra coisa. O programa de Lula da Silva, que interposta pessoa apresenta por aí com ares professorais, é um mal ajambrado repeteco da desastrosa política que culminou em dois anos de recessão, alta do desemprego, disparada da inflação e dos juros e retrocesso em quase todos os setores da economia.

A despeito de ter se comprometido a mudar no programa o que for necessário para angariar apoio fora dos tradicionais domínios petistas – sindicatos, movimentos sociais e todos os demais setores estatólatras –, não se pode imaginar que o PT de uma hora para outra tenha se convertido ao credo liberal. É preciso muito mais do que suprimir o vermelho na propaganda eleitoral para que se acredite na suposta disposição de Haddad de tirar dos planos oficiais petistas, por exemplo, a proposta de “reconfigurar” o “setor produtivo estatal” para “fortalecer setores industriais estratégicos”, ou então a ideia de fazer com que os bancos públicos assumam “papel importante no padrão de financiamento da reindustrialização”.

Mais prudente é acreditar nas promessas do programa que se coadunam com o conhecido ideário do PT, tais como “revogar a PEC do Teto dos Gastos”, para poder voltar a aumentar os gastos públicos irresponsavelmente – uma especialidade petista –, e promover a “reversão das reformas do golpista Temer”, em referência às medidas que o governo de Michel Temer aprovou para tentar interromper a brutal crise que o PT nos legou. Sobre a urgente reforma da Previdência, são dedicadas apenas reticentes intenções de acabar com “privilégios”.

Já o candidato Jair Bolsonaro, que passou quase a campanha inteira a fugir de perguntas mais específicas sobre seus planos para a economia, atribuindo ao economista Paulo Guedes, seu assessor na área, a responsabilidade de respondê-las, finalmente começou a dizer o que pensa a respeito de questões muito importantes para o futuro imediato. E o que se ouviu foi preocupante.

Sobre a Previdência, por exemplo, o líder nas pesquisas de intenção de voto e hoje favorito na eleição disse ao Jornal da Band que a reforma terá de ser feita “vagarosamente” – embora esteja claro para todos, a esta altura, que a mudança das aposentadorias já tardou demais.

Além disso, Bolsonaro recuou explicitamente de sua intenção de promover amplo programa de privatização, ao dizer que a Eletrobrás e o “miolo da Petrobrás” não serão vendidos. Sobre a Eletrobrás, o candidato recorreu a uma analogia avícola, dizendo que o dono de um galinheiro não pode vendê-lo porque, senão, ficará sem seu ovo cozido no café da manhã. Já em relação à Petrobrás, Bolsonaro indicou que considera absurda a margem de lucro da empresa na venda de combustíveis, o que indica disposição de interferir na política de preços – receita certa para o desastre, como aconteceu durante os governos lulopetistas.

Por fim, Bolsonaro disse que mandou seu assessor Paulo Guedes pensar em maneiras de “negociar com o mercado” os juros da dívida interna – o que, em outras palavras, significa calote. Não à toa, o mercado desabou depois dessas declarações, pois havia a expectativa de que Bolsonaro estivesse realmente convertido ao ideário liberal.

Ao contrário: na economia, nota-se cada vez mais que Bolsonaro e o PT têm muito mais semelhanças do que os incautos jamais imaginavam. Vai ficando claro que a grande derrotada desta eleição, infelizmente, é a razão.

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Não deixem o Brasil quebrar

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo, 13/10/2018

Bastou menos de uma semana de campanha, no segundo turno das eleições, para ficar claro que os acenos reformistas dos dois candidatos ao Palácio do Planalto – Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) – não são firmes. Ao contrário.

Quem esperava ações na direção da reforma da Previdência imediatamente após o resultado das urnas pode ir revendo o seu ponto de vista. É plausível afirmar que em alguns pontos do debate da proposta de reforma da Previdência houve até mesmo um retrocesso.

Antes das eleições no primeiro turno, o time econômico de Bolsonaro, sob a batuta de Paulo Guedes, emitia sinais de que já na transição trabalharia pela reforma, inclusive aproveitando algumas partes da proposta do governo Michel Temer. Investidores, analistas e operadores do mercado passaram a acreditar que as contas públicas estariam “salva” e a confiança retornaria.

No campo adversário, Haddad emitia sinais também de que faria uma reforma mais ampla – além daquela prevista no programa do PT, que cita mudanças no regime próprio da Previdência dos servidores públicos. Em debate, chegou a falar na fixação de uma idade mínima para o acesso à aposentadoria no País.

Só que não.

Nada disso foi reforçado nos últimos dias. Bolsonaro falou em uma reforma tocada vagarosamente. “Não é como muitos querem. Não adianta querer botar remendo novo em calça velha”, disse. Na quarta-feira, falou em “botar” uma idade de 61 anos. Na quinta, o candidato do PSL disse não ter fechado questão em torno da idade mínima. “Pode mudar. No primeiro ano, a gente pode fazer um plano 62-57 anos”, afirmou.

Haddad, por outro lado, voltou a focar na aposentadoria dos servidores, deixando claro que mudanças nas regras do INSS não estão em pauta, contrariando grupo de economistas do PT que defendem a urgência de uma reforma ampla já no início de um eventual governo.

Os dois candidatos resolveram focar em mudanças da reforma, no futuro, na direção do modelo capitalização, regime incompatível com o quadro de déficits crônico das contas públicas, pois exigiria um custo gigantesco para bancar o benefício dos que já se aposentaram ou vão se aposentar. Um custo crescente, que em 2040 chegaria a R$ 310 bilhões. Está claro que os planos para capitalização servem de subterfúgio para não fazer a reforma logo, já exigiria mais estudos.

Ainda na terça-feira, o Estadão/Broadcast alertava que as resistências à reforma seriam grandes nas duas candidaturas. Um dia depois, o ministro da Casa Civil em um eventual governo de Bolsonaro, o deputado Onyx Lorenzoni, descartou trabalhar para aprovar o texto do governo Temer e jogou para frente um possível debate sobre a ideia da capitalização para a Previdência.

O mercado reclamou do pessimismo em torno da proposta e prometeu relevar as declarações de Onyx. A resistência não durou muito. A ficha começou a cair dias depois com as próprias declarações do candidato. O mau humor se instalou.

A polarização a que chegamos já mostrou que não dá para pensar no futuro com um olhar do passado. O eleito não terá vida fácil. Os apoiadores de hoje serão os críticos de amanhã.

Não é porque o mercado financeiro apoiou o programa bolsonarista que a reforma vai sair logo. Tem de combinar com a “política”. Sempre ela.

A “renovação” do Congresso não é garantia de que as reformas vão avançar. A ordem do dia da nova legislatura deve ser dominada pelas pautas que elegeram os novos congressistas, sobretudo a segurança.

O que pode acontecer? Uma deterioração rápida da crise fiscal. Assim, a reforma da Previdência virá a fórceps, com maior custo para todos, como ocorreu em outros países.

É por isso que as novas projeções da dívida pública brasileira caminham – assustadoramente – para a marca de 100% do PIB. Já se prevê que a dívida pública poderá chegar a 98% em 2023. Detalhe: no primeiro ano do sucessor do presidente que será eleito no próximo dia 28.

Se o futuro presidente (Bolsonaro ou Haddad) não fizer um ajuste rápido, chega-se fácil aos 90% do PIB. As consequências serão ainda mais dramáticas do que as que vivemos hoje.

Aos dois candidatados, o que se pode pedir no momento é: não deixem o Brasil quebrar.

13/10/2018

Dia 5 – O PT se dizer bastião da democracia agride a verdade e a inteligência.

3 Comentários para “Crônica da eleição do horror (6)”

  1. Coreia do Sul ser considerada uma ditadura parece-me errado. Poderá não ser uma das mais avançadas do mundo, até aí ainda vou.
    Quanto ao resto não tenho nada a dizer, são assuntos que desconheço.

  2. Olá, José Luis!

    Foi um grosseiro erro meu. Claro que eu queria me referir à Coréia do Norte!

    Vou consertar o texto. Obrigado por me alertar!

    Um abraço.
    Sérgio

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