Já está melhorando (2)

O desemprego está altíssimo. No último trimestre de 2016, 12% da força de trabalho estava sem emprego – o equivalente a 12,3 brasileiros. A taxa média de desemprego no ano ficou em 11,5%, contra os 8,5% registrados em 2015. Só nos últimos dois anos, a recessão deixou 5 milhões de brasileiros desempregados.

E não há expectativa de que esses números apavorantes comecem a cair nos próximos meses.

É sempre assim nas recessões – e a recessão em que os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff enfiaram o país é a mais grave de toda a História. Como bem sintetizou O Globo em pequeno texto de Opinião nesta quinta-feira, 2/2: “Na recuperação da economia, os empresários primeiro ocupam a capacidade de produção que ficou ociosa, sem admissões; depois, começam a contratar, mas de forma lenta e cuidadosa.”

Apesar da tragédia do desemprego, que persiste e ainda vai persistir por mais algum tempo, o fato é que a economia brasileira já começou a dar mostras de recuperação, apenas 9 meses após o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da República.

É uma recuperação necessariamente lenta, vagarosa, tímida, porque o buraco era profundo demais – mas a recuperação já não é mais uma possibilidade futura. Ela já começou. Apenas duas semanas atrás, em meados de janeiro, juntei aqui seis fatos que já demonstravam que a recuperação está começando.

Nos últimos poucos dias, houve ao menos cinco fatos que demonstram isso, que ajudam a compor o cenário de que a economia brasileira começa a sair do buraco, do pântano, do brejo em que foi colocada pela incompetência e pela soberba dos governos lulo-petistas, mais doses cavalares de corrupção:

1 ) As contas do governo central fecharam 2016 com um resultado um pouco melhor que o prometido.

Como resumiu o Estadão em editorial na quarta, 1º/2, “pelo compromisso, o governo central deveria encerrar o ano com um déficit primário de até R$ 170,5 bilhões. O balanço final mostrou até uma pequena folga, nada espetacular, mas politicamente importante. Um tropeço nesta altura poderia prejudicar seriamente a imagem da equipe econômica e impor um grave problema ao presidente da República.”

E o editorial acrescentou: “Tendo vencido essa etapa, ele (o governo central) acumula três ganhos concretos na área fiscal. Conseguiu a aprovação de um teto para o gasto público, usou esse critério para montar o Orçamento de 2017 e respeitou a meta fixada para 2016. Além disso, pôs em marcha a reforma da Previdência, um empreendimento essencial, embora politicamente complicado e de resultado incerto.”

2 ) A produção industrial reagiu em dezembro. O bom sinal levou os analistas a preverem um 2017 melhor para a indústria, com provável recuperação no segundo semestre.

No resultado total de 2016, houve uma queda de 6,6% – foi o terceiro ano seguindo de retratação da indústria. Em dezembro, no entanto, a indústria recuou apenas 0,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior; foi a 34ª taxa mensal negativa em seguida – mas foi a menos intensa de toda a sequência.

Agora, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) já projeta que o PIB do setor deve crescer 1,3% este ano.

3 ) Mais de R$ 6 bilhões de recursos estrangeiros entraram na Bolsas de Valores de São Paulo em janeiro, impulsionada, como escreveu Míriam Leitão no Globo de quinta, 2/2, “pela alta dos preços das commodities e pela expectativa de que a recessão esteja próxima do fim”.

4 ) O Índice da Bolsa, o Ibovespa, subiu 7,37% só no mês de janeiro.

5) Diminui a inadimplência das famílias.

Em janeiro, foi registrado o menor patamar de famílias com algum tipo de dívida desde junho de 2010, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Foram 55,6% das famílias – número ainda alto, sem dúvida, mas bem menor do que vinha sendo nos últimos meses.

***

Não se trata mais de fatos que indicam que as coisas vão melhorar – como eu compilei aqui durante 21 semanas depois do afastamento de Dilma Rousseff no dia 12 de maio de 2016. São fatos que mostram que as coisas já começam a melhorar.

Não é à toa que a capa da revista Exame de 1º/2 tem a manchete “O pior já passou”, chamando para uma reportagem que mostra “a inflação controlada e a queda dos juros num ritmo mais acelerado aumentam a percepção de que, sim, o pior momento da crise já passou”.

Abaixo, o editorial do Estadão e o artigo de Miriam Leitão.

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Mais que ajuste, moralização

Editorial, Estadão, 1º/2/2017

O governo superou mais um teste, essencial para sua credibilidade, ao fechar as contas do ano passado com um resultado pouco melhor que o prometido. Pelo compromisso, o governo central deveria encerrar o ano com um déficit primário de até R$ 170,5 bilhões. O balanço final mostrou até uma pequena folga, nada espetacular, mas politicamente importante. Um tropeço nesta altura poderia prejudicar seriamente a imagem da equipe econômica e impor um grave problema ao presidente da República.

Tendo vencido essa etapa, ele acumula três ganhos concretos na área fiscal. Conseguiu a aprovação de um teto para o gasto público, usou esse critério para montar o Orçamento de 2017 e respeitou a meta fixada para 2016. Além disso, pôs em marcha a reforma da Previdência, um empreendimento essencial, embora politicamente complicado e de resultado incerto.

O balanço do governo central passou no teste por qualquer dos critérios oficiais. Segundo o padrão usado pelos técnicos do Tesouro, o buraco ficou em R$ 154,25 bilhões. De acordo com os cálculos do Banco Central (BC), o rombo chegou a R$ 159,47 bilhões. São métodos diferentes. No primeiro caso, apura-se a diferença entre receitas e despesas primárias, isto é, sem juros. No segundo, o saldo positivo ou negativo é determinado pela necessidade de financiamento.

Pelo critério do BC, o resultado geral do setor público foi um déficit primário de R$ 155,79 bilhões. O resultado do governo central, formado por Tesouro, Previdência e BC, foi parcialmente compensado pelo superávit dos governos estaduais (R$ 6,79 bilhões). O total ainda inclui saldos negativos de prefeituras e de empresas estatais.

Examinado sem outra consideração, o balanço de 2016 está longe de ser animador: o buraco nas contas primárias foi o maior da série registrada. Além disso, o resultado teria sido mais feio sem os R$ 46,8 bilhões de impostos e multas obtidos com a regularização de recursos mantidos no exterior. Um ajuste efetivo deve ser independente de receitas extraordinárias. Mas é preciso levar em conta outros detalhes.

A meta de R$ 170,5 bilhões para o déficit primário foi fixada com realismo, num avanço em relação à política anterior. Essa meta foi alcançada com alguma folga num ano de funda recessão, com forte queda de receitas tributárias.

Além do mais, houve redução real de 1% (considerando-se a inflação) de gastos com salários e encargos do governo central e de 11,6% em outras despesas obrigatórias. Esses pormenores indicam um esforço considerável, depois de anos de gastança irresponsável.

A esses dados é preciso acrescentar o esforço de regularização de compromissos. A acumulação de restos a pagar, ano após ano, foi uma característica da administração petista. Em 2016 o governo liquidou R$ 37,5 bilhões, um quinto do valor inscrito para o exercício (R$ 185,7 bilhões). Também isso foi uma importante mudança de política.

O saneamento incluiu a eliminação de dívidas menores, mas humilhantes, como pagamentos em atraso a organizações internacionais e contas de embaixadas e consulados. Em alguns lugares, despesas vinham sendo pagas por funcionários.

Muito mais que um acerto aritmético, o programa do governo é um esforço de moralização e de recuperação das condições mínimas de operação do setor público. Controlar o endividamento é um dos objetivos. Depois de ter chegado a 70,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em novembro, a dívida bruta do governo geral foi reduzida para 69,5% no fim do ano, ainda muito acima dos padrões dos emergentes.

Isso foi em parte possibilitado pela devolução ao Tesouro de R$ 100 bilhões pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Durante anos o Tesouro se endividou para abastecer os bancos federais com recursos subsidiados. Grande parcela desse dinheiro beneficiou grupos eleitos como favoritos da corte, sem vantagem para a economia nacional e com enormes custos para o setor público. O grande ajuste inclui também a reparação dos efeitos desastrosos dessa política.

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Trégua e riscos

Por Míriam Leitão, O Globo, 2/2/2017

A crise brasileira ganhou uma pequena trégua neste início de ano. Os indicadores de confiança subiram, a bolsa se recuperou, e economistas que tinham uma visão mais cautelosa para o ano estão um pouco mais otimistas. Mais de R$ 6 bilhões de recursos estrangeiros entraram na Bovespa em janeiro, impulsionada pela alta dos preços das commodities e pela expectativa de que a recessão esteja próxima do fim.

A produção industrial divulgada ontem mostrou uma forte alta em dezembro, de 2,3%. Em meados do ano passado, houve cinco meses seguidos de crescimento da indústria e depois ela voltou a cair. Não é uma tendência, portanto, e já há previsões de queda nos dados de janeiro. Mas nas estimativas para o ano os economistas estão com dados positivos. O Bradesco, por exemplo, projeta um crescimento de 1% da produção industrial em 2017. No final do ano passado, vários indicadores vieram pior do que o esperado. Temeu-se que a recessão estivesse novamente se aprofundando, mas agora esse temor está passando.

O mercado financeiro tenta antecipar os ciclos econômicos, e a recuperação do Ibovespa é um sinal de maior confiança no futuro. A queda da Selic provoca um movimento de realocação nos investimentos, com saída da renda fixa para a renda variável. Deixar o dinheiro parado em títulos do Tesouro vai render menos, e a perspectiva de aceleração da atividade vai aumentar o lucro das empresas, explica o economista Álvaro Bandeira, do Home Broker Modalmais.

— A crise fiscal ainda é forte, mas já está mais claro que o país conseguiu se ajustar em várias áreas. Caiu a inflação, os juros estão em queda, o risco-país também diminuiu, assim como o dólar. O setor externo reduziu bastante o déficit em conta-corrente. A inadimplência está mais baixa, apesar do desemprego, e isso favorece o setor financeiro e facilita o destravamento do crédito — explicou Bandeira.

A economista Silvia Matos, do Ibre/FGV, admite que está um pouco mais aliviada, depois do susto com os números ruins da economia no final do ano passado. Pelas estimativas do Ibre, o país pode voltar ao azul já neste primeiro trimestre, em relação ao quarto, mas com um crescimento mínimo, de apenas 0,1%, e sustentado pela agropecuária. Silvia prefere olhar para o segundo trimestre, quando espera números positivos espalhados por vários setores: indústria, serviços, consumo e investimentos.

— Eu estava preocupada com o risco de uma nova recessão este ano, mas isso diminuiu bastante. A gente mantém a estimativa de alta de 0,3% para o PIB de 2017, mas com viés de alta. O ano começa fraco, mas vai acelerando, para chegar no quarto trimestre em um ritmo mais forte — afirmou.

O Ibovespa deu um salto de 7,37% em janeiro. As ações de alguns bancos subiram. A Vale saltou 30%, por causa da forte recuperação dos preços do minério de ferro. Álvaro Bandeira explica que isso puxou os papéis do setor siderúrgico e da área de mineração. A China anunciou o fechamento de siderúrgicas mais poluentes, e isso deve resultar numa produção menor de aço para competir com a produção local, no caso, a brasileira.

O índice americano Dow Jones chegou a bater recorde histórico, mas o cenário externo está incerto com toda a crise provocada pelas primeiras decisões do presidente Donald Trump.

— Duas coisas me preocupam este ano. A primeira é o cenário externo com o governo Trump, que vai provocar volatilidade. A segunda é a classe política brasileira se acomodar a partir do momento em que a economia voltar para o azul. É preciso manter o esforço contínuo de reformas. A Previdência precisa ser aprovada — disse Silvia Matos.

Os indicadores mostram que este ano é de pequena melhora, depois da grande hecatombe que foram os últimos dois anos. Há dois pontos de aguda incerteza. Aqui dentro, a crise política pode se agravar muito com todas as revelações da Lava-Jato. No exterior, os Estados Unidos viraram o grande ponto de interrogação com as decisões radicais do novo presidente. Será preciso ir retomando lentamente o ritmo de atividade econômica, apesar desses dois pontos de instabilidade.

(Com Alvaro Gribel, de São Paulo)

2/2/2017

Um comentário para “Já está melhorando (2)”

  1. VAI MELHORAR(?)

    A Diferença entre Dilma e Temer:
    Dilma criou um ministro (Lula) para lhe dar foro privilegiado.
    Temer criou um Ministério para outorgar o mesmo benefício a Moreira Franco.
    Em ambos os casos o cinismo e a pouca-vergonha são os mesmos. O modus procedendi dos donos corruptos do poder se assemelham. Todos querem o tríplice gozo típico das elites dominantes: roubar, desfrutar o roubado e não ser castigado. A cidadania vigilante não pode permitir a esbórnia na República.

    A mídia agora não está fazendo o estardalhaço que fez em relação a Dilma-Lula. Mas o ato indecoroso é o mesmo.

    Golpe monstruoso das telefonias fixas: Cármen Lúcia (presidente do STF), em 12/1/17, no MS 34.562 (impetrado por vários senadores), deixou claro (sem conceder expressa liminar nesse sentido) que a nova lei das telecomunicações (que é uma tramoia contra os contribuintes e um benefício escandaloso para as telefonias fixas de quase R$ 100 bilhões) não poderia ser levada a sanção do Presidente antes da discussão dos recursos internos apresentados por vários senadores.

    A matéria só poderia voltar a ser discutida depois do recesso parlamentar.

    O cacique-mor Renan, que manda e desmanda na República e nem sequer atende oficial de Justiça, no seu último dia como presidente do Senado (31/1/17), de forma ilegal e vergonhosa, ignorou por completo Cármen Lúcia, atropelou tudo e mandou o projeto para sanção.

    Isso constitui fraude contra a jurisdição. Que seguramente vai ficar impune (porque a Justiça frequentemente se curva aos mandachuvas do poder – veja a indecorosa decisão do STF no dia 7/12/16 que manteve Renan na presidência do Senado).

    O clube da cleptocracia corrupta se julga acima de todos e de tudo (sobretudo, acima das leis e do STF). Não nutrem o mínimo respeito pelo império da lei.

    O golpe das telefonias fixas já estava sendo consumado na Casa Civil (que já preparava a sanção da lei) quando, no dia 4/2/17, o ministro Luís Barroso concedeu liminar para que o projeto volte para o Senado, para apreciação dos recursos internos dos senadores (que querem que o projeto seja discutido em todas as comissões pertinentes assim como no Plenário).

    Recordem: a matéria foi aprovada na Câmara dia 30/11/16 e, no Senado, em caráter terminativo, numa única Comissão Especial, no dia 6/12/16. Só essa “urgência” já diz tudo. O projeto foi referendado na surdina, de acordo com o método vapt vupt, sem discussão (nem interna, nem popular).

    O projeto em discussão “doa” os bens (reversíveis) da União para as empresas de telefonia fixa. Também perdoa suas multas (aplicadas pela Anatel). Uma rapinagem de quase R$ 100 bilhões (que o povo não pode tolerar).

    No começo de 2016 o lobby dos parasitas do dinheiro público levou vários deputados e senadores para Barcelona, num Congresso sobre comunicações (ver Veja), pagando tudo para eles (inclusive uma diária, que é propina de corrupção, evidentemente).

    Depois do pedido de recuperação judicial da Oi (com dívida declarada de R$ 65 bilhões), o projeto ganhou a velocidade da luz assim como a escuridão das trevas.

    O mais chocante: a tramoia da “doação” prevista no projeto, na verdade, está apenas acobertando outra monstruosa maracutaia (ver Carta Capital, 16/1/17): com a conivência da Anatel, várias empresas de telefonia fixa (particularmente a Oi) foram vendendo e dilapidando os bens da União (imóveis, veículos, antenas, fibra ótica etc.), restando pouca coisa daquilo que elas receberam quando esses serviços foram privatizados (no governo FHC).

    Ou seja: elas não têm como devolver tais bens na sua totalidade (daí a necessidade de “doação” deles). Querem, assim, regularizar (legalizar) uma gatunagem já consumada.

    Aqui estamos diante de uma bandidagem organizada (dirigida pela Andrade Gutierrez, Carlos Jereissati e algumas instituições oficiais) de alta periculosidade para os interesses da nação.

    Numa ação civil pública da Proteste (15ª Vara Cível federal de Brasília) tudo isso está comprovado. Ver ainda vários relatórios do TCU (como o 0074/2009/ERO2FS ou o 050/2010/ERO2FS0).

    A aprovação do projeto se deu sob transparência zero (que denota o quanto de arcaicos são ainda os nossos governantes). Quando a opinião pública acordou, tudo já estava consumado. A mídia, claro, quando não interessa, não informa nada para a população.

    Aqui na nossa rede já tínhamos abordado o assunto duas vezes. Se nós não estivermos atentos, o clube da rapinagem roubará todo o patrimônio público, nos fazendo de idiotas e de tolos.

    Vigilância contínua. Os velhacos da Nova República ainda não entenderam o espírito da Lava Jato, que está promovendo o império da lei. Será mais brilhante ainda a operação quando atingir todos os gângsters do crime organizado político-empresarial. “Erga omnes” (esse é o nosso “partido”).

    Para que o Brasil não continue sendo tratado como uma República Bananeira pelos donos cleptocratas do poder, o povo, pelas ruas e pelas redes, tem que mostrar a sua indignação.

    Para que o deboche e o escárnio, no governo Temer, não superem o cinismo, a hipocrisia e a promiscuidade corrupta do governo anterior, nós temos de agir.

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