Um site de filmes com mais buracos que queijo suíço

Nas últimas semanas, recebi uma meia dúzia de e-mails que me cobravam pelas omissões do meu site 50 Anos de Filmes.

Transcrevo alguns:

“Procurei Ligações Perigosas e Valdez… Não encontrei… Abandonei o site. Parabéns pela tentativa…”

Tentativa? Que tentativa?

Outro, este muito educado, gentil:

“Seu blog é muito bom. Não encontrei em westerns o filme Pistoleiros do Entardecer (1962) de Sam Peckinpah, que acredito estar entre os 10 maiores westerns de todos os tempos, junto com Rastros de Ódio, The Big Country e High Noon. Parabéns pelo site.”

Já estão no site Rastros de Ódio, The Big Country e High Noon, mas Pistoleiros do Entardecer não está. Tenho adoração pelo filme, mas nunca mais o revi, desde que era adolescente em Belo Horizonte; sempre o procurei nas locadoras, mas não encontrei. E agora que as locadoras acabaram fica mais difícil.

Outro e-mail, também muito gentil:

“Sérgio, acho ótimo seu blog. Claro que tenho algumas opiniões diferentes das suas, mas acho um blog muito bom. Gostaria de saber se você não vai escrever sobre Ludwig e Morte em Veneza de Visconti e A Noite do Iguana, A Bíblia e Roy Bean, o Homem da Lei de John Huston. Parabéns.”

Tenho lá dois Visconti e seis Huston, mas não são os que esse educado, gentil leitor quer.

Um outro leitor mandou algumas sugestões: Nimitz volta ao inferno, Um século em 43 minutos, A máquina do tempo (1960), O buraco da agulha, O dossiê de Odessa, A hora da zona morta, De volta ao inferno, A voz do silêncio, Sem saída (1987) e Caçado pelos cães de guerra.

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Simples assim: segundo esses gentis leitores que me escreveram nas últimas semanas, no 50 Anos de Filmes estão faltando, em ordem alfabética, incluindo os artigos

A Bíblia

A hora da zona morta

A máquina do tempo

A Noite do Iguana

A voz do silêncio

Caçado pelos cães de guerra

De volta ao inferno

Ligações Perigosas

Ludwig

Morte em Veneza

Nimitz volta ao inferno

O buraco da agulha

O dossiê de Odessa

Pistoleiros do Entardecer

Roy Bean, o Homem da Lei

Sem saída

Um século em 43 minutos

Valdez

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Meu sobrinho Beto faz anos reclama que falta Blade Runner.

Meu amigo Fred Navarro ainda não reparou, mas falta O Assassinato de Trotsky, que ele me emprestou faz tempo.

Meu amigo Elói não se conforma com a ausência de comentário sobre a refilmagem de Bravura Indômita, que ele me deu de presente.

Meu irmão Floriano às vezes me cobra pela ausência de texto sobre o recentíssimo filme francês que vai estrear na semana seguinte.

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Eu mesmo me cobro, e já faz alguns anos, pela ausência de textos sobre (transcrevo a lista que fiz):

Um Eisenstein, pelo menos, pelamordeDeus!

Um Griffith, pelo menos, pelamordeDeus!

Mais uns três Bergmans, pelamordeDeus!

Mais pelo menos uns quatro Fellini!

Rocco, O Leopardo! Mais Visconti!

A Noviça Rebelde

Shakespeare apaixonado

O Reencontro

Mas como – ainda não tem West Side Story?

E Lugares Comuns?

E O Regate do soldado Ryan?

E O Bebê de Rosemary?

Acossado. Pelo menos Acossado – roteiro de Truffaut, meu!

***

Mas não tem sequer Era uma Vez no Oeste! Não tem sequer Era uma Vez na América!

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Só essas listas citadas aí acima relacionam quase 40 filmes.

Se eu conseguisse fazer uma lista séria de grandes ou importantes filmes sobre os quais ainda não escrevi, chegaria com imensa facilidade a uns mil títulos.

Ainda não tenho sequer 2.500 títulos no site. Hoje, estão lá 2.420 posts.

Meu objetivo nunca foi fazer nada parecido com um guia de filmes.

Vejam: a última edição do Movie Guide de Leonard Maltin, a editada com data de 2015, traz verbetes sobre 16 mil títulos. Maltin trabalhava com uma equipe de 12 colaboradores.

O monumental Guide des Films de Jean Tulard, edição de 2005, em três volumes, cerca de 3.600 páginas, comenta 15 mil filmes. Mestre Tulard contou com cerca de 20 colaboradores.

Cada texto do Movie Guide de Leonard Maltin ou do Guide des Films de Jean Tulard tem no máximo umas 20 linhas.

Meus textos curtos têm 150 linhas. Alguns têm 300 – ou mais.

E a besta aqui – para citar minha amiga Tonica Chagas – escreve tudo sozinho. Mary, minha colaboradora fiel, minha mulher frère camarade complice, vê boa parte dos filmes comigo, dá palpites, lê alguns dos meus textos e me impede de falar grossas asneiras, mas escrever, não escreve uma linhazinha para o pobre site.

Tudo sai aqui destes pobres dez dedinhos, que respondem a uma única pobre cabecinha.

***

Quando botei o 50 Anos de Filmes no ar, escrevi, na página de Apresentação:

“Não é, e de forma alguma pretende ser, um site enciclopédico, vasto, abrangente; não estão aqui todos os filmes importantes, nem sequer todos os filmes importantes que eu vi – estão aqui os filmes sobre os quais, por um motivo ou outro, eu escrevi, em alguma época da vida. É uma escolha arbitrária, pessoal – e, portanto, necessariamente cheia de lacunas.”

Sabe quando o 50 Anos vai ter textos sobre todos aqueles filmes citados aí acima, aqueles meros, parcos, ridículos 40 filmes?

Nunquinha.

***

Às vezes me pego pensando que, se conseguisse botar lá textos sobre todos os filmes do Truffaut e todos os filmes de Woody Allen, os dois cineastas que me fazem mais feliz ao ver filmes, eu já consideraria que fiz uma obra redonda, plena.

Pelas minhas contas, faltam uns 12 Woody Allen, e uns 6 Truffaut.

Conseguirá nosso herói algum dia?

Sei lá.

O que sei, e me pego pensando muitas, muitas vezes, é que foi uma belíssima idéia da Mary de criar esse site – com a fundamental ajuda do multitalentoso Carlos Bêla.

Ao fazer as anotações para botar no 50 Anos de Filmes, mato dois coelhos com uma cajadada só. Escrevo, escrevo, escrevo – que é o instrumento que sei tocar, e como é bom poder tocar um instrumento, em especial depois de passar uns 37 anos ganhando a vida não exatamente por escrever, mas por trabalhar os textos que os outros escreveram.

Então, por causa do 50 Anos, escrevo, escrevo, escrevo.

E vejo filmes, vejo filmes, vejo filmes.

Melhor que isso, só a mulher, a filha e a neta.

Setembro de 2013

2 Comentários para “Um site de filmes com mais buracos que queijo suíço”

  1. Sérgio, parabéns. As reclamações indicam que você é lido por um público interessado e exigente – e que quer mais. Quase 2.500 títulos não são de se jogar fora…

  2. Sérgio, parabéns pelo site!

    Apesar de não comentar muito, sou visitante frequente!

    Assim como dos 50 anos de textos!

    Abraço,

    Rafael Noronha

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