A nova Mae West

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Tenho amigos poetas, romancistas, pintores, espíritos inquietos e brilhantes. Ouço-lhes o uivo nocturno. É um uivo que faria corar Allen Ginsberg, o morto e enterrado poeta beatnik.

Os meus amigos, algumas amigas, gemem pelas altas horas da madrugada dentro – saibam os mais novos que boa parte da vida intelectual é feita de gemidos brandos. Amigos e amigas querem saber onde está o Proust contemporâneo, em quem reincarnará Picasso, se virá do Botsuana ou do Azerbaijão o novo Godard.

Ora, eu só quero saber quem me faz o favor de ser a nova Mae West. Um dia, ela viu um moço, que podia ser um destes que vão ao bronze nos Jogos Olímpicos. Ficou impressionada. Miss West tinha uma perscrutante forma de se deixar impressionar: “Oh, que alto! Quanto é que medes, meu anjo?” E o moço, vaidoso e ignorante do sistema métrico, diz-lhe: “Minha senhora, tenho uns bons seis pés e sete polegadas.” “Lindo menino – responde a West –, esqueçamos os seis pés e vamos lá falar das sete polegadas.”

Os meus amigos, mesmo as minha amigas, reconhecem haver neste tipo de humor um salto de fé de que talvez só se encontrem ecos nos “Four Quartets” de Eliot, porventura no atiçado cadáver de Buster Keaton que jaz em certas passagens do “Murphy” de Samuel Beckett.

Já andava a Mae West a garrafas de oxigénio quando a levaram, nos anos 70, à televisão. Podia ter sido entrevistada pelo Rodrigo da SIC ou pelo Zé Alberto da TVI, mesmo pelo José da RTP, que conheço menos bem. Dizem os três: “Ah, Miss West, o que nós já ouvimos dizer de si!” E logo a agridoce Mae: “Filhinhos, podem ter ouvido tudo, mas não há uma só coisa que possam provar!”

E agora penso, não há ninguém que tenha menos sentido de orientação do que o intelectual: andamos a procurar no quarto a West que perdemos na cozinha. Não é no cinema, nem no próximo livro de Houellebecq, que encontraremos a nova Mae West. É na televisão, e Rodrigo, Carvalho e Rodrigues sabem-no melhor do que eu. A televisão enche-se de epigramas de Mae West e a famosa resposta dela até pode saltar da boca de Sócrates para a de Lula ou Dilma. Em vez de falarem dos seis pés, Costa ou Passos querem é falar das vaidosas sete polegadas e o sistema métrico que se lixe. Ninguém consegue é provar nada! Na televisão é que se vê o que a vida anda a roubar ao cinema.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

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