O amor alemão

zzarletty

Não foi com passos de traição à pátria que Francis Coppola e George Lucas entraram no átrio do Hotel Lancaster, em Paris. Mas punham os pés no mesmo chão que Arletty pisara a caminho da prisão. Coppola aceitara uma entrevista comigo, e Lucas apareceu como bónus, cada bolso dele a valer um milhão de dólares, frisou Francis.

Soube agora que, nesse átrio, em 1944, a Resistência prendeu Arletty, actriz de Hôtel du Nord e de Les Enfants du Paradis. Por traição à França. A Resistência não lhe encontrou, nem Coppola lhe descobriria, um milhão de dólares nos inexistentes bolsos. Digo isto e já me aflijo a pensar se não estarei para aqui a cantar a traição dessa Arletty sem bolsos!

Tinha as pernas de Marlene Dietrich e transbordava vida. Arletty descalçou o pessimismo do realismo poético, estética sombria do cinema francês de então. Se não lhe tirou as calcinhas, mostrou-lhe ao menos a combinação transparente e negra que usava em Hôtel du Nord e que provocou ao actor Bernard Blier tal erecção, que ele se recusou a sair da cama onde estava, pondo em fúria Marcel Carné, o realizador.

Era impossível Arletty não ser traidora. Tinha um amante e logo descobria outro. Uma nua curiosidade. Amava um homem e logo uma mulher. Os juízes quiseram saber do affaire dela com a duquesa de Harcourt, membro da Resistência. Respondeu: “Da minha boca nem um ai, sou um gentleman.”

Na ocupação nazi o cinema francês continuou. Arletty também. Mas apaixonou-se por um capitão alemão, de orelhas pontiagudas e poliglota. Amou-o em casa e na rua, engravidou e abortou. Nunca escondeu nada. Tinha uma língua de dois metros e disse à Resistência que a julgou: “O meu coração é francês, mas mais abaixo sou internacional.” Não sei se ajudou.

Cruzei-me, tinha eu 5 anos, com esse capitão, cônsul alemão, em Luanda. Com a paixão dessa Arletty, que ele pediu em casamento, comeram-no, em 1960, os jacarés do rio Congo, já era ele embaixador na recém-inaugurada República do Congo. Sobrou um flutuante chapéu.

Arletty foi condenada por causa da cama alemã. Sabe-se que não denunciou ninguém e salvou até o dramaturgo Tristan Bernard do campo de concentração. Acusada de colaboração horizontal, protestou só a culpa de muito amar: “Se não queriam que dormisse com o alemão, não os tivessem deixado entrar.”

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia. 

A nudez de Arletty na foto é de 1938, de Hôtel du Nord, antes que os alemães chegassem.  

 

2 Comentários para “O amor alemão”

  1. “Se não queriam que dormisse com o alemão, não os tivessem deixado entrar.” Foi a melhor crítica que já li sobre a pusilanimidade da França diante dos alemães! MH

  2. A história registra que somente Charles de Gaulle e sua obsoleta 4a. companhia de tanques ofereceu resistência verdadeira à invasão alemã, Maria Helena. Comandou ataques bem sucedidos, mas solitários e quase suicidas, contra os modernos tanques nazistas. Enquanto os demais generais franceses se rendiam com pouca luta, ele continuou atacando o flanco alemão e convocando os civis franceses a participarem da resistência.

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