No Trump

Não se vislumbra nos Estados Unidos surpresa eleitoral semelhante ao Brexit britânico, que, contrariando as pesquisas, consagrou o divórcio com a União Européia. Ao contrário, todos os indicativos vão na direção de uma vitória de Hillary Clinton, a ser confirmada no próximo dia 8.

A candidata democrata avança nos Estados-pêndulos (indecisos), como Flórida e Nevada. Mesmo no Texas, reduto tradicionalmente republicano, Hillary está encostada em Donald Trump, nos primeiros números da votação antecipada que acontece em vários Estados.

O maior desafio de Hillary não é vencer uma eleição de desfecho previsível. É superar, se eleita, as divisões alimentadas por uma disputa “sangrenta”; bem como o descrédito de boa parte dos americanos em suas instituições.

A maior democracia do mundo ocidental sai da refrega eleitoral com seus pilares abalados. Fortalecê-los é vital para que a América continue a ser uma sociedade pujante economicamente, multirracial e pautada nos valores da liberdade, dos direitos individuais, das oportunidades e da diversidade.

A coesão interna é pré-condição para que, sob o provável comando de Hillary, reafirme seu status de líder mundial e contribua para a solução dos chamados problemas emergentes, do planeta: o terrorismo, a fome, a nova onda de racismo, as desordenadas imigrações em massa, o aquecimento global.

A atual disputa eleitoral não se deu em condições normais de temperatura e pressão como as de outros pleitos. Daí por que não pode ser resumida apenas ao confronto democratas versus republicanos, que sempre foi absorvido pelo sistema, com a alternância do poder.

Aliás, essa sempre foi uma virtude da democracia americana. Seus eleitores, na maioria das vezes, optaram por outro partido, após determinado período. Os Estados Unidos tiveram excelentes presidentes republicanos – Abraham Lincoln, Dwight D. Eisenhower, Ronald Reagan – e presidentes “democratas” tão estadistas quanto – Franklin Roosevelt, John Kennedy e Barak Obama-, para citar alguns.

O vigor de sua democracia consistiu nisso: todos confiavam no sistema e o vencedor era o presidente de todos os americanos.

O peculiar da presente conjuntura é que a disputa está se dando em um quadro de esgotamento da globalização e de uma crise econômica que se arrasta desde 2008; gerando, assim, insatisfações de colorações diversas.

Bernie Sanders foi a expressão, pela esquerda, de parcelas da juventude e da sociedade não absorvidas pelo establishment e incomodadas com a desconexão “entre os que têm muito e os que não tem nada”, para usar as palavras da jornalista Penny Lee, conselheira política dos democratas. Talvez para evitar o mal maior, tais segmentos estejam com Hillary, mas estão longe de se entusiasmarem com a candidata.

No extremo oposto, a candidatura Trump galvanizou parcelas que se sentiram excluídas ou prejudicadas com a globalização ou que consideram o discurso do “politicamente correto” um fator de atraso às suas vidas. Os chamados “americaners”, normalmente homens brancos, pais de famílias e de média e baixa renda, identificaram-se com o seu discurso anti-sistema, com sua pregação xenófoba e racista.

Mas Donald Trump exacerbou seu discurso, exagerou na dose. De tão radicais e estapafúrdias, suas propostas espantaram parte do seu eleitorado. Possivelmente o americano médio também tem medo do seu radicalismo e deseje não uma ruptura, mas uma reforma do sistema.

O histrionismo de Trump, seus preconceitos e sua pauta bomba mudaram o caráter da eleição americana. Deixou de ser uma disputa entre republicanos e democratas para ser um plebiscito pró ou contra Trump.

O ímpar dessa eleição é que se fala pouco das qualidades de Hillary Clinton. E ela as tem. Não há dúvidas de que está preparada para conduzir a maior e mais forte nação do mundo e não há como deixar de reconhecer o avanço que será os Estados Unidos ter como presidente uma mulher.

Eis aí o que seria o maior não dos norte-americanos: à misoginia de Trump.

Mas Donald Trump é tão ruim, tão ruim, que seus defeitos ofuscam qualquer brilho de Hillary.

A conferir se a luz da provável futura presidente será forte a ponto de unir os americanos e resgatar os valores dos “Pais Fundadores da América”: George Washington, John Adams, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, entre outros.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 27/10/2016. 

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