O dilmês

Durante sua campanha para presidente em 2010 estranhei um pouco o modo de dona Dilma falar. Alguém me disse que eu estava estranhando o sotaque e o linguajar gaúcho da candidata, o que de pronto descartei. Tenho amigos gaúchos desde minha adolescência, acho um charme seu sotaque, amo e até adotei muitas de suas expressões.

Mas quando ela assumiu a presidência, ficou definido que ela falava em dilmês, ou seja, num modo todo seu de se expressar.

Gosto muito do estudo de línguas, tenho facilidade em aprendê-las, não é à toa que gosto de lecionar e traduzir. Também acho interessantes os dialetos e sempre que posso me dedico a decifrar seu código. O veneto, que era a linguagem de meus avós paternos com os filhos e os dois netos mais velhos, foi o primeiro que quis aprender. Foi difícil… mas consegui.

Já o dilmês… quase jogo a toalha. Mas como ela é a presidente da República, continuo insistindo.

Uma das coisas mais típicas do dilmês é o sumiço quase geral do verbo no infinitivo, como neste exemplo: “Atitude de humildade é que você só pode abrir diálogo com quem quer diálogo. Porque quem não quer abrir diálogo com você, você não tem como abrir diálogo” O que aconteceu com o verbo dialogar?

Ou a conclusão estranha de um pensamento: “Farei de tudo para o Brasil estar no ritmo de crescimento. Conto com todo mundo para que isso aconteça, conto com governadores, prefeitos conto com os investidores, empresários e com a imprensa, com o Congresso, óbvio, e com o Judiciário, porque não tem como um país crescer sem todos nós pegando junto“. Tudo bem, dona Dilma, queremos colaborar, mas a senhora se refere a pegar junto exatamente o quê?

Outra curiosidade do dilmês é a palavra presidenta. Existe, não foi inventada por dona Dilma. Mas passou a ser usada diariamente depois que ela exigiu o seu uso. É engraçado ver adultos que até 2010 não tinham esse hábito – porque ninguém tinha – só falarem presidenta. Fica tão artificial, beira o grotesco, porque sentimos o esforço que fizeram para se adaptar ao gosto da primeira mandatária.

Ontem, na extemporânea entrevista do vice-presidente Michel Temer (apresentada por Roberto D’Ávila na GloboNews) ficou muito evidente o esforço. Temer é um homem educado e culto e durante todo o primeiro bloco da entrevista só falou presidenta. Já do meio para o fim, ou relaxou ou distraiu-se, voltou ao natural, ou seja, referiu-se à dona Dilma como “a presidente”.

Sei que esse assunto, o dilmês, no meio de tantos e tão agudos problemas, não tem muita importância. Mas além de ser, em minha opinião, um dos motivos a afastar a compreensão do povo das reais convicções de dona Dilma, hoje é dia de festa neste querido Blog do Noblat. É seu 11º aniversário e resolvi fugir dos temas que machucam.

Pelo menos o dilmês nos faz sorrir…

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 20/3/2015. 

4 Comentários para “O dilmês”

  1. Só não concordei com o finalzinho. Tanto o dilmês, quanto a prática do dilmismo, estão mais para de me fazer chorar do que rir.

  2. Acho exatamente o mesmo que o Luiz Carlos, Maria Helena!
    Um grande abraço.
    Sérgio

  3. É hora de convocar povo a fazer a Reforma Política. Antes que polarização estridente, porém sem conteúdo, radicalize o que política e sociedade brasileiras têm de pior.

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