A lenda do ódio aos pobres

Os ricos odeiam o PT porque ele faz um governo voltado para os pobres, disse o antigo ministro tucano Bresser Pereira, e provocou frenesi nas redes sociais.

Fiz a respeito um inocente comentário, dizendo que os pobres amam o autor do Plano Bresser, que congelou salários e achatou poupanças. Fui admoestado pela minha rasa crítica, e o conceituado jornalista Luiz Fernando Emediato, dono da editora Geração, disse que esperava mais, e pedia que usasse argumentos para contestar a entrevista de Bresser.

Peço licença para registrar o que argumentei:

Ele acha que os ricos odeiam o PT. Ele argumentou o que sobre isso? É o que ele acha. Não é o que eu acho. Eu acho que o PT está se fazendo odiar e não é só pelos ricos, pelos remediados, pela classe média, pelos pobres ou por qualquer pessoa que tenha alguma coisa dentro do cérebro.

E por quê? Por que está fazendo uma gestão economicamente desastrosa por causa do voluntarismo da presidente da República que tem a crença arraigada e inextirpável de que o mercado é ela. Tão desastrosa que temos o pior crescimento da história depois de Floriano Peixoto e Collor.

E temos um desastre tão grande nas contas públicas que foi preciso chamar um Chicago Boy para consertá-las, apesar do nariz torcido da chefe.

E também porque cometeu um estelionato eleitoral sobre o qual não vou me estender demais, mas até os paralelepípedos da rua sabem que Dilma aplicou o velho truque de atribuir ao adversário todas as coisas que começou a fazer depois de empossada.

E também porque o partido tem no seu DNA o vírus totalitário, claramente confessado em seu desejo de hegemonia, expresso numa resolução de seu diretório nacional, e também em sua indomável vontade de controlar o direito de livre expressão através da metáfora da “regulação econômica”.

Peça ao Bresser Pereira para entrar num supermercado, que não precisa ser do Abílio Diniz, de quem ele foi braço direito durante muitos anos, e veja quantos ricos estão na fila de mercadorias expressando a sua satisfação com o governo do PT. Pergunte a um por um qual é a fortuna deles. Quantos iates tem. Quantas casas em Miami.

Se há ódio no ar, entre no YouTube e colecione os últimos 10 anos de discursos de Lula em cima de palanques e tente achar uma palavra de concórdia, de união nacional, de entendimento, um só gesto de grandeza – ou pelo menos que não seja de incentivo à divisão dos brasileiros entre “nós” e “eles”.

O cacoete de neo pobre do Bresser Pereira é o cacoete de outro velho quatrocentão como Cláudio Lembo, que chegam a esta altura da vida achando que têm contas a ajustar com o Divino e se põem a atacar demagogicamente “a elite branca” como se eles tivessem uma impecável história de vida na vanguarda do proletariado.

É sobre esse tipo de “mea culpa” que eu me manifestei. Não me manifestei sobre as opiniões econômicas de Bresser Pereira porque na cabeça de cada economista germina um país diferente. Só sei dizer que quando ele teve a régua e o compasso na mão, foi um desastre, e é isso que a História registra.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 6/3/2015. 

 

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