Tristes feudos

A política provoca sentimentos antagônicos: acirramento de ânimos e desalento, conformismo e ativismo desenfreado, desinteresse de muitos, indignação de alguns. Seja como for, sem ela não há saída. A equação é cristalina: quanto maiores a participação e a pluralidade na representação política, maiores serão as exigências e as chances de desenvolvimento de uma cidade, região ou país.

Os estados do Maranhão e de Alagoas que o digam. Piores entre os piores, há anos eles travam uma luta árdua pelo último lugar no ranking de Desenvolvimento Humano (IDH), com Alagoas na rabeira e o Maranhão na 26º posição.

São estruturas de poder diferentes, mas de práticas quase idênticas: o Maranhão tem um só dono há mais de cinco décadas, o clã Sarney, e Alagoas alguns, Collor de Mello, Renan Calheiros, Teotônio Vilela. Terras que apostam suas fichas na ignorância — 22,5% dos alagoanos e 19,3% dos maranhenses são analfabetos. Terras em que a ideologia e o partido são a família, que o Estado é a sala íntima do governante da vez.

Por mais graves que sejam a explosão de violência no presídio de Pedrinhas e o reflexo dela nas ruas de São Luís, com queima de ônibus e morte de uma criança de 6 anos ordenada por facções criminosas, elas são apenas parte do subdesenvolvimento imposto ao povo maranhense.

Reportagem do jornalista Demétrio Weber, publicada em O Globo informa que o Maranhão tem o maior percentual de miseráveis do país, 12,9%, tendo sido, na última década, o que menos conseguiu combater a pobreza extrema.

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E daí? “O Maranhão está indo muito bem, talvez seja o único estado do Brasil que vai ter todas as suas cidades interligadas por asfalto”, diz a governadora Roseana, não deixando dúvidas quanto às escolhas de seu governo: prefere os empreiteiros e as obras visíveis. Isso explica por que dos 1,6 milhões de domicílios maranhenses só 7,6% têm acesso à coleta e tratamento de esgoto; apenas 184 mil residências têm banheiro, coleta e ligação à rede, 570 mil têm fossas rudimentares e 228 mil nem mesmo banheiro e vaso sanitário.

Nesse item, Alagoas está melhor na corrida entre os péssimos: as estruturas de saneamento chegam a 9,6% dos domicílios. Não alcançam 300 mil dos 3,3 milhões de habitantes do estado de Collor, Renan e Teotônio, ainda que este último tenha a seu favor a redução da miséria absoluta de 19% para 7,8% nos últimos 10 anos, sete dos quais sob sua tutela. Um pouquinho melhor, mas anos-luz de distância do que deveria ser.

Não é nada fácil mudar estruturas de poder enraizadas há décadas. Só o voto tem o dom de fazê-lo. Do contrário, continua-se pagando as lagostas de Roseana e a cabeleira de Renan.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 12/1/2014. 

Um comentário para “Tristes feudos”

  1. Quem votou botou no poder, tem obrigação de de tirar pelo voto.

    Roseana assumiu o governo do estado em março de 2009 depois que o Tribunal Superior Eleitoral cassou o mandato de Jackson Lago, acusado de abuso de poder econômico e político nas eleições de 2006.

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