O maior espetáculo da Terra

O circo está chegando, com suas feras, seus leões, seus trapezistas, seus mágicos e seus palhaços.

Sem Cecil B. DeMille para dirigir o espetáculo, mas com a mesma pompa do lendário diretor, Joseph Blatter já moveu céus e terras para levar para casa, a sede da Fifa na Suíça, segundo se noticia, US$ 10 bilhões, isenta que foi pelo governo brasileiro de pagar US$ 1 bilhão em impostos.

De quatro em quatro anos, o mundo – pelo menos a grande parte do mundo que se afeiçoou ao soccer – suspende a respiração por um mês para acompanhar as proezas dos maiores jogadores do mundo.

No filme, que levou o Oscar de 1953, o dono de um circo, Brad Braden (Charlton Heston), defensor da filosofia dos lucros crescentes e da máxima que diz que “o espetáculo não pode parar”, contrata um lendário trapezista, Grande Sebastian (Cornel Wilde), que faz peripécias incríveis no ar, e leva com ele sua namorada (Betty Hutton), que acaba dividindo seu coração com outro trapezistas, rival de Sebastian.

Essa é a trama principal do filme, que tem naturalmente suas subtramas, e que usa como cenário cenas verdadeiras de dois dos maiores circos do mundo da época, o Ringling Bros. (que ainda existe e onde se feriram três acrobatas brasileiras que despencaram do alto de um trapézio no começo de maio num espetáculo em Rhode Island) e o Barnum & Bailey Circus.

O que deveria ser uma grande festa para eletrizar o país do futebol, que ainda tem tatuada na alma aquela tarde de 1950 que ficou conhecida como Maracanazo, se transformou num motivo de mal estar político, provocado por manifestações de rua de movimentos organizados e desorganizados, reclamando dos gastos excessivos e da corrupção com a construção de estádios exigidos pela Fifa em contraposição às carências vitais do país em setores fundamentais como educação, saúde e infra-estrutura.

Há os que acham, em resumo, que o excesso de circo tem relação direta com a escassez de pão.

Em países bem resolvidos, cada coisa tem seu lugar. O espetáculo do futebol só é um negócio rentável porque o esporte é apaixonante, plástico, emocionante e desperta as pulsões normais (em alguns casos as anormais também) do ser humano. Uma Copa do Mundo é uma catarse coletiva, um show ininterrupto de televisão de 30 dias e um espetáculo planetário.

Ao longo dos anos se transformou num business altamente rentável por possuir todos os ingredientes do espetáculo perfeito, por ser competitivo, imprevisível, disputado sob bandeiras antagônicas, como se fosse um moderno duelo de cavalaria.

O futebol é lindo, a Copa é o maior espetáculo da Terra, e melhor seria ainda se continuasse sendo apenas futebol e não se tornasse instrumento de políticos de poucos escrúpulos que o usam como os romanos usavam o Coliseu para beber o sangue dos gladiadores na arena.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 30/5/2014.

3 Comentários para “O maior espetáculo da Terra”

  1. A FIFA,os políticos,empresários, vaticinam que o espetáculo não pode parar. O espetáculo agora é restrito, é das zelites, é da TV Globo. O povo sabiamente, ou melhor alternativamente, bate sua bola na periferia e assiste de graça, de pé, nos barrancos, sob sol e chuva os clássicos entre Mavilis x Pavunense ou Combate Barreirinha x Vila Fany nos campos padrão Brasil. Joga-se futebol, não se cantam hinos, apenas louvores aos craques como Metralha, artilheiro do aterro Flamengo nos jogos dos garçons nas madrugadas do Rio de Janeiro.
    Querem subverter o futebol,mas não conseguirão.No máximo podem elitizá-lo como instrumento de manobra mas nunca farão a bola parar. Neste momento ela rola nos campinhos de terra ou grama para a alegria do povo eternizada no Garrincha de Pau Grande,cidade vizinha de Curralinho na raiz da serra longe do Maracanã.

  2. Há muito tempo que a Copa do mundo deixou de ser uma competição esportiva. Hoje e uma competição comercial, uma relação de interesses escusos entre a FIFA e os dirigentes de um pais como os do Brasil, e muito sofrimento para pessoas que necessitam de pão e não de circo luxuoso.

  3. Então a Fifa foi isenta de pagar 10 bi de impostos? É isso, circo de gente fina tem palhaço e mágico (faz dinheiro sumir) mas quem enfrenta o leão é o público. O que são 10 bi? Não dá nem para o empréstimo (11,2 bi) que nós, contorcionistas, vamos fazer às distribuidoras de energia.

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