Além de bacalhau e vinho

Então ficamos assim: a presidente come o que quiser, no restaurante que quiser, porque ela paga a conta. E pronto.

A comitiva dela pode sair da Suíça e ir para Cuba com uma ligeira paradinha em Lisboa porque o avião não tem autonomia de vôo e precisava abastecer.

Enquanto o avião abastece, a comitiva presidencial tem todo direito de alugar as suítes que quiser, no hotel que quiser, pagar as diárias que quiser.

Enfim, a comitiva presidencial tem o direito de fazer o que quiser, inclusive o de mentir e de dizer que a escala foi improvisada, embora o governo português jure que tinha sido informado dois dias antes.

A oposição, como não podia deixar de ser, fez praça de mais essa vistosa aventura governamental, e encaminhou um pedido à Procuradoria Geral da República para que a escala fosse investigada.

A Comissão de Ética Pública da Presidência da República não se sente habilitada a investigar essa tal de escala secreta – tão secreta que até as fotos do chef do restaurante lisboeta com a presidente foram publicadas em todos os jornais – e daqui a alguns dias ninguém lembra mais de nada.

No Brasil há uma extraordinária vocação para magnificar a banalidade ao mesmo tempo em que se banaliza aquilo que talvez devesse se magnificar.

Enquanto se discute se a escala foi secreta ou não, se a presidente pagou ou não pagou a conta do restaurante, se as diárias do hotel foram ou não abusivas, a presidente chegou tranquilamente a Cuba, entregou o porto novo financiado com dinheiro brasileiro, e posou para fotos carinhosas com o vovô ditador aposentado mais longevo do planeta.

Já que se trata, aparentemente, de exigir um pouco mais de transparência, talvez fosse mais útil, em vez de pedir à PGR que investigue a escala do avião, o menu do restaurante, as diárias do hotel e quem pagou a conta, que a oposição conseguisse explicações claras sobre as condições de financiamento do porto de Mariel, sobre o projeto da Zona Especial de Comércio que o governo cubano pretende implantar lá, e quais vantagens o Brasil pretende tirar disso.

O governo poderia aproveitar também para deixar claro por que o dinheiro que está sendo gasto lá não é o mesmo que faz falta na melhoria da nossa infra-estrutura portuária, rodoviária e aeroviária. Se não é falta de dinheiro, é falta do que? De vontade? De competência?

E já que se trata de deixar as coisas claras, por que não aproveitar para pedir explicações também sobre os detalhes do contrato de prestação de serviços que o Brasil assinou com Cuba para a importação da mão de obra de médicos, e se as leis trabalhistas do País estão ou não sendo desrespeitadas por ele?

Enfim, saber que Dilma paga as suas próprias contas no restaurante pode ser muito tranquilizador, mas as preocupações da oposição e do País deveriam ir muito além da conta do bacalhau e do vinho.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 31/1/2014.

3 Comentários para “Além de bacalhau e vinho”

  1. O artigo do Sandro Vai repleto de amargor oposicionista. Como é duro ser oposição lúcida com os coleguinhas da PIG querendo a CPI do bacalhau. Primeiro de janeiro de 2015 está cada vez mais prócimo. Será que mais médicos, bolsa famíl;ia,pibinho, rolexinho conseguirão deter +Dilma?

  2. Sandro, tenho uma pergunta (im)pertinente: será que não estão superfaturando as obras do porto nas barbas do Comandante?

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