Sorte de fotógrafo amador

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Há quem diga que sou um bom fotógrafo. Outro dia alguém disse isso. Acho que foi o Bado. Até perguntou se eu tenho uma puta máquina.

Não, não tenho uma puta máquina. É uma máquina muito boa, na verdade, uma Lumix ZS1, da Panasonic, que ganhei de presente do Carlos Bêla, o pai de Marina, que tenho a honra de considerar meu amigo. Me presenteou com ela quando de repente pifou a minha anterior, uma Canon 10 Megapixels que Mary e eu compramos em Santiago do Chile, no dia em que a anterior, uma Sony, havia sido roubada por um trombadão quando eu, turista imbecil e otário, tentava fazer uma foto com a máquina muito longe do meu rosto, em cima de uma ponte sobre o Rio Mapocho, perto do mercado municipal.

Essa Sony que o trombadão chileno me roubou (felizmente no primeiro dia de nossa viagem – perdi apenas umas poucas fotos), acho que foi a primeira máquina digital que tive. Acho, não tenho certeza.

Antes dessa, usava uma Olympus OM1, que tem a idade da minha filha. Quando Fernanda nasceu, em 1975, investi um dinheiro na Olympus OM1, que acabava de ser lançada. Colegas meus, fotógrafos profissionais do Jornal da Tarde, falaram bem dela, e então comprei.

Não era uma máquina extraordinária, mas era acima das máquinas amadoras da época. Não chegava a ser máquina de profissional, mas era bem boa.

1977 - Bosque do Morumbi - 00420017Com essa Olympus OM1 documentei todo o crescimento de Fernanda. Desde os primeiros dias dela no apartamento da João Moura até a maturidade. Comecei, como Truffaut, Bergman, Visconti, Fellini, Antonioni, De Sica (não estou, pelamordedeus, querendo me comparar a eles, tá? só estou dizendo que foi como eles), no preto-e-branco, só chegando às cores bem mais tarde.

***

Antes ainda da Olympus OM1 que tem a idade de Fernanda e a acompanhou na maior parte de sua vida, tive uma Leica. Não me lembro qual era o modelo, mas era uma Leica. A Ferrari das máquinas fotográficas do século passado. Comprei, usada, é claro, da Mamãe Fotóptica, o apelido carinhoso e irônico que dávamos ao editor de fotografia do velho Jornal da Tarde.

Não me lembro do ano exato em que comprei a velha Leica da Mamãe Fotóptica, mas posso dizer com certeza que foi antes de 1973, porque, quando Suely e eu nos casamos, e tínhamos cá pra nós que tínhamos o Grande Amor, e fomos em lua de mel para o Rio de Janeiro e São Salvador Bahia, em dezembro daquele ano, já tinha a maravilha.

1973 - No Rio, lua de mel - 00060007Com a velha Leica, fiz belíssimas fotos de Suely. Algumas delas parecem coisa de Giuseppe Rotunno, Henri Decae, Sven Nykvist. Repito: não estou querendo me comparar com eles. Fazer belíssimas fotos de Suely era fácil: era só acertar o foco e clicar. A beleza dela fazia com que as fotos ficassem maravilhosas.

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A velha Leica se perdeu quando o casamento com Suely se perdeu.

Durante umas três décadas, a Olympus OM1 testemunhou, além de cada passo no crescimento de Fernanda, minha paixão por Regina, e, depois, a descoberta do amor em paz com Mary. Fiz com ela montanhas de fotos de Mary – inclusive a que ela usa na sua página do Facebook, uma foto especialmente feliz, a luz do sol baiano se pondo do outro lado da Baía de Todo os Santos.

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Mas então, voltando ao início e ao que interessa, depois desse viajandão pelas minhas máquinas fotográficas: há quem diga que sou um bom fotógrafo.

2000 - Salvador - 02210021Não sou, não: sou um fotógrafo amador, e todo fotógrafo amador tem momentos de sorte.

Os fotógrafos profissionais (e convivi com eles ao longo de décadas, e os conheço bem, e os admiro) sabem o que estão fotografando.

Quando o fotógrafo profissional faz uma bela foto, ele sabe disso perfeitamente, no instante em que fez o clic.

Nós, os fotógrafos amadores, às vezes temos sorte.

A gente clica, e clica, e clica.

Antes, nos tempos dos filmes, a gente até que clicava bem menos, porque os filmes eram caros, e a revelação e a ampliação eram muito mais caras ainda.

Com as máquinas digitais, ficamos livres do peso do dinheiro: clicar é só clicar. E a gente clica, e clica, e clica.

É parte inerente do ser fotógrafo amador ter sorte.

O fotógrafo amador não sabe o que vai fotografar. Ele clica. E às vezes acontece de ele ter sorte.

Outro dia mesmo tive sorte: estava sentado diante de Fernanda e Marina, no bar da Mamusca, e clicava, e clicava. De repente, cliquei no split second em que Fernanda olhava para um lado, e Marina olhava para o lado oposto.

2014-01 - Marina dia 18 - MamuscaNão planejei a foto. Estava lá clicando, clicando – e dei a puta sorte.

Hoje aconteceu de novo.

Fiz exatas 51 fotos de Marina durante minha visita a ela hoje.

Aconteceu que tive a sorte de pegar o momento exato em que Marina beijava a bochecha da mãe, e a mãe estava de olhos fechados. A expressão do rosto vem basicamente dos olhos, estes espelhos da alma. Fernanda estava de olhos fechados – aqueles olhões imensos, belíssimos, que ela herdou da mãe e passou para a filha. Mas, apesar de estar com os olhos fechados, ela transmitia naquele split second uma sensação de imensa paz, de imensa felicidade.

Estava sendo beijada pela filha, diante da avó e do pai, e, apesar de não estar com os olhos lindos abertos, minha filha estava num momento de profunda paz, de profundo amor pela vida – e sua expressão mostrava isso.

***

Não sou um bom fotógrafo, não. Sou apenas um fotógrafo amador, e fotógrafo amador às vezes tem sorte.

Acho que essa foto que está aí no alto foi uma das mais belas que já tive a sorte de fazer na vida.

Agora, a sorte de ter tido Fernanda e Marina, a sorte de ter tido Suely, Regina, Mary…

Ah, vai ter sorte assim na…

30 de janeiro de 2014 

3 Comentários para “Sorte de fotógrafo amador”

  1. Escreva mais Sérgio, fotografe mais Sérgio. Mais 50 anos…nos esperam,já escutamos Dylan e Baez, trabalhamos, amamos, criamos filhos e agora as netas representam a esperança de um mundo novo. MarinaS neles.

  2. Isso mesmo Sérgio! Escreva, fotografe, registre, lembre. E viva a Marina!
    Beijo
    Vivina

  3. Então está explicado pq suas fotos antigas que às vezes aparecem aqui no site têm uma qualidade tão boa. Além do seu talento, a câmera ajudava. Teve uma época em que tivemos uma Olympus parecida com a que você tinha (tem?), talvez um pouco mais simples. Como eu gostava dela! Infelizmente, acabou estragando, e parece que não havia conserto; não sei que fim levou.

    Sempre gostei de fotografar (comecei quando criança com aquelas máquinas Love, descartáveis, não sei se você chegou a ter contato com elas), mas desde que a fotografia digital pegou força, me deu um pouco de preguiça. Por incrível que pareça, tenho preguiça de enviar as fotos para o computador; sem falar no medo de perder as imagens, fato que já ocorreu algumas vezes. E com essa coisa dos cliques infinitos, haja saco para selecionar as melhores. Preciso tomar vergonha e passar a imprimir algumas fotos.

    Modéstia às favas, me considero uma boa fotógrafa amadora. O ruim de fotografar bem, é não encontrar alguém que fotografe tão bem quanto. haha (Sério, é péssimo tirar boas fotos, mas quando é você quem vai sair nelas, ter que constatar que ficaram uma bela porcaria).
    Gente que não tem o menor talento para fotografar, ou a menor boa vontade de pelo menos firmar a mão, olhar o quadro inteiro, é o que mais existe.

    A foto em que Fernanda está olhando para um lado, e Marina para outro, ficou mesmo muito legal.
    Que pena que você perdeu sua Leica, uma relíquia hoje em dia.

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