Acabou a Guerra Fria, começou a acabar a ditadura

zzzzobama

Podem achar que sou um babaca, um idiota, mas vou dizer: o discurso de Barack Obama sobre Cuba me comoveu profundamente. Profundamente. Que coisa louca, fascinante, ver a História acontecendo diante de você.

Discurso de estadista. Que maravilha citar José Marti – e que beleza elogiar o Papa Francisco!

Viva Cuba libre!

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Postei isso aí acima no Facebook pouco depois das 4 da tarde deste histórico dia 17 de dezembro de 2014, assim que terminei de ver a íntegra dos 14 minutos e tanto do discurso com que Obama anunciou aos americanos e ao mundo a decisão de reatar as relações diplomáticas com Cuba, após 53 anos, e encaminhar para o Congresso o pedido para derrubar o embargo econômico. (Como o embargo é previsto em lei, só outra lei, do próprio Congresso, pode derrubá-lo.)

Emoção, comoção. De fato, ao ouvir o presidente Obama falar, fiquei arrepiado de emoção, com a garganta travada. Só não chorei porque não choro nunca – infelizmente.

É de fato emocionante demais, e por carradas de motivos. Porque é a coisa certa a se fazer, é o que tinha mesmo que ser feito. Porque é Barack Obama que tomou a dianteira do processo; tenho grande admiração por ele, e acho que esse é um gesto, uma decisão que ele merecia ter em sua biografia.

Porque é emocionante ver a História acontecer diante de seus olhos, de seus ouvidos.

Esse acontecimento de hoje é daquelas coisas que fazem a gente ficar achando que, afinal de contas, talvez a humanidade não seja uma invenção que deu errado.

Para nós, brasileiros, há tanto tempo sem termos motivos de sentir orgulho – muito antes ao contrário –, é algo de lavar a alma.

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Semanas atrás a Alemanha comemorou os 25 anos da queda do Muro de Berlim, e aquilo me emocionou também. Até publiquei na própria data um texto que tinha feito sobre O Inocente, o livro de Ian McEwan que fala da divisão de Berlim, da Guerra Fria, do Muro, e fiz um textinho chamando para os filmes que falam sobre o Muro. Quis gravar aqui no meu site minha emoção com a data histórica.

Não fiz História, não sou historiador, sou apenas um jornalista bem mixo, e posso estar absolutamente errado, redondamente enganado, mas fiquei aqui pensando que a Guerra Fria começou a acabar no dia 8 de novembro de 1989.

Hoje, com o anúncio feito simultaneamente nos Estados Unidos e em Cuba, por Barack Obama e Raúl Castro, do iminente reatamento das relações diplomáticas entre os dois países, a Guerra Fria finalmente acabou de acabar.

Com a ajuda do Papa Francisco e do governo do Canadá, que deram as condições para que delegados dos dois países tivessem as conversações.

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De fato, foi profundamente feliz o redator do discurso de Obama. A citação a José Martí foi de uma grande felicidade – e o agradecimento a esse papa fantástico, surpreendente, foi extremamente bem-vindo.

– “José Martí disse certa vez: ‘A liberdade é o direito que cada homem tem de ser honesto’”, afirmou Barack Obama. “Hoje estou sendo honesto com vocês. Nunca poderemos apagar a história passada entre nós, mas acreditamos que vocês devem ter o poder de viver com dignidade e autodeterminação.”

Que maravilha!

Vou ter o orgulho transcrever a íntegra do discurso de Obama ao final desta anotação. Este meu sitezinho ganha muito com a oportunidade de repetir esse discurso histórico. (Copiei do site bemparana.com.br; imagino que toda a imprensa tenha recebido da embaixada americana a tradução.)

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No Facebook, uma amiga virtual, Cláudia Costa, indicou que eu estava sendo ingênuo. Ela já havia lido a declaração de Yoani Sánchez: ”O castrismo venceu, ainda que Alan Gross tenha saído vivo de uma prisão que poderia se tornar o seu túmulo. No jogo da política, os totalitarismos sempre conseguem se impor sobre as democracias”.

Outros dissidentes cubanos deram declarações no mesmo tom desse de Yoani. Guillermo Fariñas disse o seguinte: “Se o restabelecimento das relações diplomáticas entre Havana e Washington é para se obter o levantamento do embargo econômico, financeiro e comercial deflagrado para se obter a democracia em Cuba, isso é uma traição ao povo de Cuba e a todos os que caíram, estão presos e lutam pela democracia na ilha. Porque o importante é pressionar o governo cubano, que está em um estado praticamente de colapso, para que se caminhe na direção de um estado de direito.”

Outro dissidente, Elizardo Sánchez, foi mais realista, me parece: ”Temos que ver que atitudes o governo de Raúl Castro vai tomar dentro da ilha daqui por diante”.

Não vou perder tempo com declarações imbecis, idiotas, como as de Nicolás Maduro – “É uma vitória de Fidel e do povo cubano. A libertação dos presos que estavam nos EUA é uma vitória da ética, de Fidel e dos cubanos”.

Acho compreensível que os dissidentes cubanos estejam com o pé atrás, aguardando para ver o que de fato vai acontecer.

Além disso, aquela declaração de Yoani Sánchez foi feita logo após as primeiras notícias, como bem me alertou Sandro Vaia, o primeiro jornalista brasileiro a entrevistar a blogueira – em 2009, quando ela ainda era totalmente desconhecida no Brasil, Sandro publicou pela editora Barcarola, de Lu Fernandes, o livro A Ilha Roubada. (O texto da orelha do livro foi encomendado a este escriba aqui.) Já à noite, Yoani publicou um texto longo em seu blog, em que diz: “Aún así, a pesar de la ausencia de compromisos públicos de la parte cubana, lo de hoy fue una derrota política. Bajo el mandato de Fidel Castro nunca se hubiera llegado siquiera a perfilar un acuerdo de esta naturaleza. Porque el sistema cubano se apoya – como un de sus principales pilares – en la existencia de un contrincante permanente. David no puede vivir sin Goliat y el aparato ideológico ha descansado demasiado tiempo en ese diferendo.”

Yaoni vê a realidade com muitissíssimo mais propriedade do que eu, é óbvio. Estou aqui distante da realidade em que ela está mergulhada. Mas me parece que não há muitas opções daqui para a frente. É igual ao Muro – abriu um dia, começou a cair, foi derrubado fisicamente em dois tempos – e o resto foi caindo que nem castelo de cartas.

É água morro abaixo, fogo morro acima: ninguém segura.

Vai entrar dinheiro na ilha. Vai entrar informação. Vai entrar oxigênio. O uso da internet vai se massificar. Os pequenos empreendedores terão espaço para crescer.

Posso, mais uma vez, estar absolutamente errado, redondamente enganado, mas eu acho que hoje, 17 de dezembro de 2014, não só acabou de acabar a Guerra Fria, como começou a acabar a ditadura dos Castros.

Vou fazer um brinde a José Martí, Bola de Nieve, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Compay Segundo, Tomás Gutiérrez Alea, Juan Carlos Tabío,  Mirta Ibarra, Jorge Perugorría, Pablo Milanés, Silvio Rodriguez, à Yoani, é claro, e tantos e tantos e tantos e tantos outros grandes cubanos.

Um P.S., às 2 horas da manhã do dia seguinte, 18/12: Tanto o New York Times quanto o Washington Post em seus títulos na internet destacam a coisa da Guerra Fria. Manchetona do NY Times diz: “U.S. to Restore Full Relations With Cuba, Erasing a Last Trace of Cold War Hostility”. Manchetona do Washington Post é: “U.S., Cuba make historic move to ease Cold War stance”.

zzzzwhite

17/12/2014

A foto acima, distribuída pela própria Casa Branca, foi feita num momento em que Obama conversava ao telefone com Raúl Castro. Yoani Sánchez a usou no blog dela; roubei de lá. 

Eis a íntegra do discurso de Barack Obama:

“Boa tarde. Hoje os Estados Unidos da América estão mudando seu relacionamento com o povo de Cuba e promovendo as mudanças mais importantes em mais de 50 anos em nossa política. Vamos pôr fim a uma abordagem superada que há décadas vem fracassando em promover nossos interesses. Em vez disso, vamos começar a normalizar as relações entre nossos dois países. Por meio dessas mudanças, pretendemos criar mais oportunidades para o povo americano e o povo cubano e abrir um novo capítulo entre as nações das Américas.

Existe uma história complicada entre Estados Unidos e Cuba. Eu nasci em 1961, pouco mais de dois anos depois de Fidel Castro assumir o poder em Cuba e apenas alguns meses após a invasão da Baía dos Porcos, que tentou derrubar seu regime. Nas décadas seguintes, o relacionamento entre nossos países se deu contra o pano de fundo da Guerra Fria e da oposição firme e constante dos EUA ao comunismo. Apenas 145 quilômetros nos separam. Ano após ano, porém, endureceu-se a barreira ideológica e econômica entre nossos dois países. Enquanto isso, a comunidade cubana exilada nos Estados Unidos fazia enormes contribuições ao nosso país, na política, nos negócios, na cultura e nos esportes. Como outros imigrantes anteriores, os cubanos ajudaram a recriar a América, ao mesmo tempo em que sentiam saudades dolorosas da terra e das famílias que tinham deixado para trás. Tudo isso interligava a América e Cuba num relacionamento singular, ao mesmo tempo de família e de inimigos.

Orgulhosamente, os Estados Unidos apoiaram a democracia e os direitos humanos em Cuba ao longo destas cinco décadas. Nós o temos feito principalmente por meio de políticas que visam isolar a ilha, impedindo as viagens e o comércio mais básicos que os americanos podem fazer com qualquer outro lugar. E, embora essa política tenha tido suas origens nas melhores das intenções, nenhum outro país se soma a nós na imposição dessas sanções, e a política tem tido pouco efeito além de proporcionar ao governo cubano uma justificativa para a imposição de restrições a seu povo.

Hoje Cuba ainda é governada pelos Castro e pelo Partido Comunista que chegou ao poder meio século atrás. Nem o povo americano, nem o cubano são beneficiados por uma política rígida que tem suas raízes em fatos que aconteceram antes de a maioria de nós termos nascido. Considere-se que há mais de 35 anos temos relações com a China, país muito maior e também governado por um partido comunista. Quase duas décadas atrás restabelecemos as relações com o Vietnã, onde travamos uma guerra que fez mais baixas americanas que qualquer confronto da Guerra Fria.

Foi por isso que, quando cheguei ao poder, prometi reestudar nossa política em relação a Cuba. Para começar, suspendemos as restrições às viagens de cubano-americanos e ao envio de remessas por eles a seus familiares em Cuba. Essas mudanças, antes polêmicas, hoje parecem óbvias. Cubano-americanos puderam reencontrar suas famílias e constituem os melhores embaixadores possíveis de nossos valores. E, através desses intercâmbios, uma geração de cubano-americanos mais jovens vem questionando cada vez mais uma abordagem que faz mais para manter Cuba isolada de um mundo interconectado.

Embora eu estivesse disposto a dar passos adicionais havia algum tempo, um obstáculo importante ainda se erguia em nosso caminho: o encarceramento injusto em Cuba, havia cinco anos, do cidadão americano Alan Gross, prestador de serviços à Usaid. Ao longo de muitos meses, minha administração vem mantendo discussões com o governo cubano sobre o caso de Alan e outros aspectos de nosso relacionamento. Sua Santidade, o papa Francisco, lançou um apelo pessoal a mim e ao presidente de Cuba, Raúl Castro, exortando-nos a resolver o caso de Alan e a atender aos interesses de Cuba na libertação de três agentes cubanos que estão encarcerados nos Estados Unidos há mais de 15 anos. Hoje Alan voltou para casa, finalmente reunido com sua família. Alan foi libertado pelo governo cubano por razões humanitárias.

Em separado, em troca dos três agentes cubanos, Cuba libertou hoje um dos mais importantes agentes de inteligência que os Estados Unidos jamais teve em Cuba, que estava na prisão havia quase duas décadas. Esse homem, cujo sacrifício era do conhecimento de apenas poucas pessoas, forneceu aos Estados Unidos as informações que nos permitiram prender a rede de agentes cubanos que incluía os homens transferidos para Cuba hoje, além de outros espiões nos Estados Unidos. Esse homem já se encontra em segurança em nosso solo.

Tendo recuperado esses dois homens que se sacrificaram por nosso país, estou agora dando passos para colocar os interesses dos povos dos dois países ao cerne de nossa política. Para começar, instruí o secretário Kerry a dar início imediato a discussões com Cuba para o restabelecimento de relações diplomáticas, cortadas desde janeiro de 1961. Mais adiante, os Estados Unidos vão abrir uma embaixada em Havana, e funcionários de alto escalão irão a Cuba em visita. Onde pudermos promover interesses compartilhados, nós o faremos, sobre questões como saúde, migração, contraterrorismo, tráfico de drogas e respostas a desastres.

De fato, já vimos os benefícios da cooperação entre nossos países antes. Foi um cubano, Carlos Findlay, quem descobriu que mosquitos são vetores da febre amarela; seu trabalho ajudou Walter Reid a combater a doença. Cuba enviou centenas de profissionais de saúde à África para combater o ebola, e acredito que profissionais de saúde americanos e cubanos deveriam trabalhar lado a lado para impedir a disseminação dessa doença letal. Agora, nos pontos em que discordamos, vamos levantar essas divergências diretamente, como vamos continuar a fazer em questões ligadas à democracia e aos direitos humanos em Cuba.

Mas acredito que podemos fazer mais para apoiar o povo cubano e promover nossos valores através do engajamento. Afinal, estes 50 anos mostraram que o isolamento não funcionou. É hora de adotar uma abordagem nova. Em segundo lugar, instruí o secretário Kerry a rever a designação de Cuba como país que promove o terrorismo. Essa revisão será pautada pelos fatos e pela lei. O terrorismo mudou nas últimas décadas. Num momento em que temos nossa atenção voltada a ameaças que vão desde a Al Qaeda até o EI, um país que satisfaz nossas condições e renuncia ao uso do terrorismo não deve enfrentar essa sanção. Em terceiro lugar, estamos tomando medidas para aumentar as viagens, o comércio e o fluxo de informações para e de Cuba.

Isto diz respeito fundamentalmente à liberdade e abertura e também expressa minha fé no poder do engajamento de pessoas com pessoas. Com as mudanças que estou anunciando hoje, será mais fácil para americanos viajarem a Cuba, e os americanos poderão usar cartões de crédito e de débito americanos na ilha. Ninguém representa os valores da América melhor que o povo americano. E acredito que, em última análise, esse contato terá efeito maior de empoderar o povo cubano. Também acredito que mais recursos deveriam poder chegar ao povo cubano.

Assim, estamos aumentando significativamente o montante de dinheiro que pode ser enviado a Cuba e removendo os limites às remessas que apoiam projetos humanitários, o povo cubano e o emergente setor privado de Cuba. Acredito que as empresas americanas não devem ser postas em desvantagem e que a intensificação do comércio será boa para os americanos e para os cubanos. Assim vamos facilitar as transações autorizadas entre os Estados Unidos e Cuba. Instituições financeiras dos EUA poderão abrir contas em instituições financeiras cubanas. E ficará mais fácil para exportadores dos EUA venderem bens em Cuba.

Acredito no livre fluxo de informações. Infelizmente, nossas sanções contra Cuba negaram aos cubanos o acesso à tecnologia que empoderou indivíduos em todo o planeta. Por isso, autorizei o aumento das conexões por telecomunicações entre os Estados Unidos e Cuba. As empresas vão poder vender bens que possibilitem aos cubanos comunicar-se com os Estados Unidos e outros países. Estas são as medidas que eu, como presidente, posso tomar para mudar esta política.

O embargo que vem sendo imposto há décadas hoje está codificado na legislação. À medida que estas mudanças se concretizam, espero engajar o Congresso numa discussão franca e séria sobre a suspensão do embargo. Ontem conversei com Raúl Castro para finalizar a libertação de Alan e a troca de prisioneiros e para descrever como vamos avançar. Deixei clara minha opinião inequívoca de que a sociedade cubana é constrita pelas restrições impostas a seus cidadãos.

Além do retorno de Alan Gross e da libertação de nosso agente de inteligência, saudamos a decisão de Cuba de libertar um número substancial de prisioneiros cujos casos foram levantados diretamente com o governo cubano por minha equipe. Saudamos a decisão de Cuba de prover seus cidadãos de mais acesso à internet e de continuar a aumentar o engajamento com instituições internacionais como as nações Unidas e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que promovem valores universais.

Mas não nutro ilusão quanto às barreiras à liberdade que ainda permanecem para os cubanos comuns. Os Estados Unidos creem que nenhum cubano deveria enfrentar assédio, prisão ou espancamento simplesmente por estar exercendo o direito universal de se fazer ouvir. E vamos continuar a apoiar a sociedade civil de Cuba. Enquanto Cuba vem adotando reformas para abrir sua economia paulatinamente, continuamos a considerar que os trabalhadores cubanos deveriam ter a liberdade de formar sindicatos, assim como os cidadãos deveriam ser livres para participar dos processos políticos. Ademais, em vista da história de Cuba, prevejo que o país vai continuar a seguir uma política externa que por vezes vai conflitar nitidamente com os interesses americanos.

Não prevejo que as mudanças que estou anunciando hoje promovam uma transformação da sociedade cubana da noite para o dia. Mas estou convencido que, por meio de uma política de engajamento, poderemos defender nossos valores de modo mais efetivo e ajudar os cubanos a se ajudarem, à medida que vão ingressando no século 21. Àqueles que se opõem aos passos que estou anunciando hoje, permita-me dizer que respeito sua paixão e compartilho seu compromisso com a liberdade e a democracia. A questão é como defendemos esse compromisso.

Não creio que possamos continuar a fazer a mesma coisa por mais de cinco décadas e esperar um resultado diferente. Ademais, tentar empurrar Cuba em direção ao colapso não beneficiaria os interesses da América ou os do povo cubano. Mesmo que funcionasse -e não funciona há 50 anos–, sabemos, pela experiência conquistada a duras penas, que os países têm mais chances de passar por transformações duradouras se suas populações não são submetidas ao caos. Conclamamos Cuba a libertar o potencial de 11 milhões de cubanos, pondo fim às restrições desnecessárias às suas atividades políticas, sociais e econômicas. Nesse espírito, não devemos permitir que sanções dos EUA se somem à carga carregada pelos cidadãos cubanos que queremos ajudar. Ao povo cubano, a América estende uma mão em amizade. Alguns de vocês já nos viram como fonte de esperança, e vamos continuar a fazer brilhar a luz da liberdade. Outros nos enxergaram como ex-colonizador, interessado em controlar seu futuro.

José Martí disse certa vez: “A liberdade é o direito que cada homem tem de ser honesto”. Hoje estou sendo honesto com vocês. Nunca poderemos apagar a história passada entre nós, mas acreditamos que vocês devem ter o poder de viver com dignidade e autodeterminação. Os cubanos têm um ditado em relação à vida diária: “No es fácil”. Não é fácil. Hoje os Estados Unidos querem ser parceiros para tornar a vida dos cubanos comuns um pouco mais fácil, mais livre, mais próspera. Àqueles que deram apoio a estas medidas, eu os agradeço por serem parceiros em nossos esforços.

Quero agradecer em especial a Sua Santidade, o papa Francisco, cujo exemplo moral nos mostra a importância de buscar fazer do mundo aquilo que ele deveria ser, e não simplesmente aceitar o mundo tal como ele é. O governo do Canadá, que abrigou nossas discussões com o governo cubano, e um grupo bipartidário de parlamentares que trabalhou incansavelmente pela libertação de Alan Gross e por uma nova abordagem para a promoção de nossos interesses e valores em Cuba. Finalmente, a mudança de nossa política em relação a Cuba se dá em um momento de liderança renovada nas Américas.

Estamos preparados para que Cuba se una aos outros países do hemisfério na Cúpula das Américas, em abril. Mas vamos insistir que a sociedade civil se una a nós, para que sejam cidadãos, e não apenas líderes, que moldem nosso futuro. E conclamo meus colegas líderes a conferirem sentido ao compromisso com a democracia e os direitos humanos que está ao cerne da carta interamericana. Deixemos para trás o legado tanto da colonização quanto do comunismo, a tirania dos cartéis das drogas, dos ditadores e das eleições de fachada. Um futuro de mais paz, segurança e desenvolvimento democrático é possível, se trabalharmos juntos, não para conservar o poder, não para proteger grupos de interesses, mas, em vez disso, para promover a realização dos sonhos de nossos cidadãos.

Meus compatriotas americanos, a cidade de Miami fica a apenas 320 quilômetros, mais ou menos, de Havana. Incontáveis milhares de cubanos já vieram a Miami em aviões e jangadas improvisadas, alguns deles com pouco mais que as roupas que levavam no corpo e a esperança que levavam nos corações. Hoje Miami muitas vezes é descrita como a capital da América Latina. Mas ela é também uma cidade profundamente americana, um lugar que nos recorda que os ideais são mais importantes que a cor de nossa pele ou as circunstâncias em que nascemos, uma demonstração do que o povo cubano pode realizar e da abertura dos Estados Unidos em relação a nossa família do sul. Somos todos americanos. Efetuar transformações é difícil em nossas próprias vidas e nas vidas de nações. É ainda mais difícil quando carregamos nos ombros a carga pesada da história. Mas hoje estamos efetuando essas mudanças porque é a coisa certa a fazer. Hoje a América escolhe cortar os grilhões do passado para buscar um futuro melhor para o povo cubano, para o povo americano, para nosso hemisfério inteiro e para o mundo. Obrigado. Deus os abençoe e Deus abençoe os Estados Unidos da América.”

7 Comentários para “Acabou a Guerra Fria, começou a acabar a ditadura”

  1. Sergio Vaz,o tom emocional do seu texto sublinha a esperança que há por trás do anúncio da aproximaçao diplomática entre os dois países: a de que a liberdade finalmente triunfe em Cuba depois de mais de 50 anos de obscurantismo,

  2. Servaz, compartilho de suas emoções e de repente me dá uma sensação de tristeza. Por que, pensando bem, tantos anos de cerceamento aos cubanos, depois do fim da URSS e do comunismo? Fidel (posso estar errado, vou de franco atirador) era um tigre de papel. Por que demorou tanto?
    Alguém destacou que há um ano e oito dias,dez de dezembro passado, Obama apertou a mão de Raúl durante as homenagens ao Mandela?

  3. SEM EMOÇÕES,LÁGRIMAS À PARTE!

    O sentimental texto não traz uma palavra sobre o porto de Mariel sempre duramente criticado.

    Ao transformar Cuba em parceira importante, o Brasil amplia sua área de influência nas Américas em um ponto no qual os Estados Unidos não têm entrada. A administração Barack Obama foi favorável ao fim do embargo, como deixou claro o presidente dos EUA em novembro passado, quando pediu uma “atualização” no relacionamento com Cuba. Ocorre que a Casa Branca não tem como derrubar o embargo atualmente diante da intensa pressão exercida no Congresso pela bancada latina, em sua maioria linha-dura. No vácuo dos EUA, cresceu a influência brasileira.

    Grande parte das críticas ao relacionamento entre Brasília e Cuba ataca o governo brasileiro por se relacionar com uma ditadura que não respeita direitos humanos.O fato de manter boas relações com Cuba é uma prática do Estado brasileiro, não do governo atual. As relações Brasília-Havana foram reatadas em 1985 e têm melhorado desde então. A prática, como a Folha de S.Paulo mostrou em 2011, continuou no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), sob o qual o Brasil também fechou parcerias e intercâmbios com Cuba.

    Sentimentalismos à parte a luta dos dissidentes continua, merece respeito e expectativa.Pode-se, e deve-se, criticar o fato de o Planalto sob o PT não condenar publicamente as violações de direitos humanos da ditadura castrista, mas não se pode condenar o investimento no porto de Mariel. Neste caso, prevaleceu o interesse nacional brasileiro.
    Obama entendeu o recado do mercado, 53 anos depois.

  4. Também fiquei muito satisfeito com a posição de Obama que é um homem que eu aprecio e respeito. Veremos agora o que acontece a seguir. Contudo parece que o primeiro e essencial passo está dado. Gostei muito de ler o seu texto caro Sérgio.

  5. De novo, o espírito da Guerra Fria dominou, “eles” e “nós”, seja lá quem sejam eles e quem sejamos nós.
    Jornalismo tem de ser crítico, mas jornalismo, e não propaganda.

  6. O Sr. Vaia e o jornalismo do tipo veja atacando de novo:

    “(…) 50 anos de obscurantismo”

    Se falam de Cuba, são QUINHENTOS anos de obscurantismo. A frase do Vaia é um açoite.

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