Meus discos: Earth Song, Ocean Song

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O primeiro LP de Mary Hopkin que tive se chamava Cancion de la Tierra, Cancion del Mar. Claro que tenho o disco original até hoje, embora tenha gravado o LP para CD. É uma bela edição, de capa dupla. Na capa, sob o título Cancion de la Tierra, aparece a foto em preto-e-branco de uma Mary Hopkin magrinha, embaixo de uma árvore. A contracapa traz, sob o título Cancion del mar, uma foto em preto-e-branco de uma árvore, o mar atrás.

Quando se abre a capa dupla, vê-se a mesma foto da capa, mas agora em cores: uma garotinha muito jovem de cabelos louros, calça comprida marrom e uma camisa de malha de meia manga de um cinza amarronzado.

À esquerda da foto – que toma todo o lado esquerdo mais metade do lado direito do álbum aberto –, há a relação das músicas. Como é um LP, tem a Faz A e a Faz B.

zzearth-lado bOs nomes das canções aparecem em espanhol, com o título original inglês entre parênteses. Assim, por exemplo, a faixa 2 do lado A, ou Faz A, é “Tiene que haber más…”, com, entre parênteses, o título original, “There’s got to be more”. A faixa 3, no original “Silver birch and weeping willow”, aparece como “Abedul plateado e sauce lloron”.

Abaixo da relação das canções, há informações sobre os artistas que tocam no disco. “Las guitarras clásicas en el tema ‘Internacional’ son ejecutadas por Kevin Peek y Brian Daly”.

Há o ano de produção do disco: 1971. Perto dele há a minha letra: “Sérgio 2/73”. (Desde que comprei meu primeiro disco, em 1966, sempre fiz isso: em algum lugar da contracapa, escrevia meu nome, e o mês e o ano da compra.)

Acho isso o maior barato: meu primeiro LP de Mary Hopkin foi um legítimo produto da indústria argentina!

Earth Song, Ocean Song foi lançado em todo o mundo pela EMI. Era a gravadora que prensava e distribuía os discos do selo Apple, criado pelos Beatles em 1967, 1968. Não me lembro mais, mas acho que naquela época no Brasil a gravadora EMI ainda se chamava Odeon – a mesmo Odeon que havia lançado os três primeiros discos de João Gilberto, e que lançaria os discos de Milton Nascimento, Clara Nunes. Mais tarde ela mudaria de nome para EMI-Odeon.

Os idiotas que dirigiam a Odeon no Brasil não lançaram aqui os LPs de Mary Hopkin. Acho até que jamais foi lançado no Brasil um LP de Mary Hopkin.

zzmaryhopkinAssim, em fevereiro de 1973, comprei Earth Song, Ocean Song em Buenos Aires, na primeira vez em que estive lá.

A rigor, não comprei Earth Song, Ocean Song: comprei Cancion de la Tierra, Cancion del Mar. Nuestros hermanos costumavam, nos anos 1970, traduzir os títulos dos discos, e também das músicas. Nuestros hermanos são meio doidos. Me pergunto agora (jamais tinha me feito essa pergunta antes) se a indústria fonográfica argentina terá lançado um disco chamado La Banda de los Coraciones Solitários del Sargento Pimenta, ou Dejele Ser, ou Viaje Magica Misteriosa.

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Mary Hopkin foi uma descoberta de Paul McCartney.

Quando estavam com dinheiro saindo pelo ladrão, os Beatles inventaram a Apple não apenas para lançar seus próprios discos, mas também para lançar artistas novos, novos talentos.

zzzjamesUm dos talentos que a Apple lançou foi um jovem americano muito promissor, mas com graves problemas com drogas pesadas, um tal de James Taylor. Um LP com o nome do autor-cantor como título foi lançado no Reino Unido em dezembro de 1968 e nos Estados Unidos em fevereiro de 1969. Não aconteceu. Em 1970, a Warner Bros. americana lançaria Sweet Baby James – e, como se costuma dizer, o resto é história.

A Odeon brasileira poderia perfeitamente ter lançado o primeiro disco de James Taylor após o sucesso estrondoso de Sweet Baby James. Não lançou jamais. O CD que tenho daquela estréia inglesa do cara foi produzido na Alemanha.

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Conta-se que foi a modelo Twiggy – aquela magrinha biafrenta, muito antes que a magreza biafrenta virasse imprescindível para a carreira de modelo – que falou de Mary Hopkin para Paul McCartney. Twiggy viu a garotinha – que, ao contrário dela, Twiggy, era toda redondinha, com o rosto redondinho, belíssimos olhos azuis, coxinhas cheinhas, naquela época da minissaia – num programa de calouros da TV, Opportunity Knocks, e falou dela para Paul.

zzmaryhopkin6Aos 18 anos de idade (ela é de 1950, o mesmo ano que eu), Mary Hopkin foi uma das primeiras pessoas a assinar contrato com a Apple.

O próprio Paul produziu o primeiro disco dela, um single, um compacto simples.

Tenho o disquinho. Comprei assim que foi lançado, em 1968 mesmo. A josta da Odeon, por mais imbecil que fosse, não faria a besteira de não lançar no Brasil um disco que lá fora vendia feito água. Tem o número de Apple-2, e a inscrição “Produzido por Paul McCartney”. No lado A traz “Those Were the Days”. (O clip no YouTube é absolutamente imperdível.) No B, “Turn, turn, turn”, a canção de Peter Seeger inspirada num salmo da Bíblia. (Há vários clips no YouTube. Neste aqui ela se acompanha ao violão – uma espécie de jovem Joan Baez do País de Gales.)

O single chegou rapidamente ao número 1 na Inglaterra e ao número 2 na US Billboard Hot 100. Vendeu um milhão e meio de cópias só nos Estados Unidos; no mundo inteiro, foram mais de oito milhões de cópias.

Ouvi “Those Were the Days” – esse mesmo compacto simples que tenho até hoje – mais ou menos umas 200 bilhões de vezes.

Queria ouvir mais Mary Hopkin na vida – mas não havia Mary Hopkin nas lojas de discos de São Paulo. Foi preciso fazer a viagem a Buenos Aires – eu e meu amigo Guiminha, no Fusca dirigido por ele, em fevereiro de 1973 – para encontrar lá o LP.

Paul McCartney daria depois de presente para Mary Hopkin uma canção original dele (assinada, como todas até 1970, por Lennon-McCartney, mas que de Lennon não tem nadica). O clip no YouTube de “Goodbye” é uma absoluta delícia.

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É uma maravilha de disco, este Earth Song, Ocean Song.

Por alguma magia dos deuses que controlam os acasos, acabou que Mary e eu começamos 2013 ao som de Earth Song, Ocean Song.

zzmaryhopkin2Eu queria começar 2013 com vozes suaves, doces – sweet songs and soft guitars – e então, depois que passsou a hora dos fogos, botei nos cinco pratos do CD player um shuffle só de dois discos, um de Kate Wolf, o outro o de Mary Hopkin, o CD gravado a partir do LP produzido pela indústria argentina. O Denon muito caro do Fábio De Domenico ignorou Kate Wolf, e tocou só Mary Hopkin. Coisas dos deuses que controlam os acasos.

Fui pegar o velho LP, a capa suja com o pó dos séculos, amarelada. E encontrei lá uma folha de papel com um exercício de inglês com a letra da minha filha. Em algum momento do estudo de inglês da Fernanda, deram para os alunos a letra de “Streets of London”, para que eles preenchessem as lacunas.

“Have you seen the old man in the closed-down (lacuna),

(lacuna) up the paper with his worn-out shoes?”

Na primeira lacuna, a letrinha de adolescente de Fernanda escreveu market, e, na segunda, kicking. (A letra de “Streets of London” está ao final deste texto.)

Fiz o possível para que minha filha aprendesse datilografia, naquelas máquinas de escrever do século passado. Também fiz o possível para que ela aprendesse inglês; incentivei-a o mais que pude. Das aulas de datilografia ela não gostou; frequentou o curso por insistência do pai pentelho. Mas hoje ela é mais rápida do que eu em qualquer teclado, e domina inglês provavelmente melhor que eu.

Isso aí, tudo bem – é comum, é normal que os filhos sejam melhores que os pais.

O maravilhoso é que uma canção passe de uma geração para outra.

Neste mundo de hits imediatos que no dia seguinte não são conhecidos por ninguém, passar uma canção de uma geração para a outra é uma abençoada maravilha.

Uma das belas emoções da minha vida foi quando Inês me pediu para gravar músicas que eu a botei para ouvir quando criança e que ela queria tocar para Maria, a primogênita dela.

Se a minha neta que está para nascer quiser um dia ouvir alguma música que o avô tocou para a mãe quando ela era criança – que tal “Streets of London”? –, morro de emoção no ato.

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zzmaryhopkin1Earth Song, Ocean Song foi o segundo álbum de Mary Hopkin. O primeiro chamou-se Post Card, e foi lançado em 1968 pela Apple. Eu só iria conseguir comprá-lo, importado, numa edição americana, em 1986.

Entre 1968, o ano em que ouvi 200 bilhões de vezes o compacto simples de “Those were the days”, e 1986, o ano em que comprei o LP que contém “Those were the days”, passou-se muita água sob todas as pontes. A lot of water under the bridge, como diria o Dylan na música que ele escreveu para o filme Garotos Incríveis/Wonder Boys, e que ganharia o Oscar.

Não saberia dizer qual é o melhor disco de Mary Hopkin – se o primeiro, Post Card, se o segundo, Earth Song, Ocean Song. Adoro os dois. Mas o que mais ouvi foi o segundo.

Post Card tem “Those were the days”, entre outras maravilhas – e sobre essa canção seria necessária uma anotação específica, imensa. Mas Earth Song, Ocean Song também está repleto de canções maravilhosas.

Mudaram os discos, ou mudei eu?

Claro, mudou tudo.

E então cheers, garotinha Mary Hopkin. Como você, eu ficaria chocado ao ver minha imagem no espelho do bar. Como você, eu ficaria chocado se alguém dissesse que conhece mais a solidão destas tristes metrópoles.

But then again – turn, turn, turn: para cada coisa há um momento.

E, ao contrário do que diz a letra de “Those were the days”, acho que talvez a gente tenha aprendido alguma coisinha na vida. We’re older, and a little bit wiser.

Janeiro de 2013 

Eis a relação das canções de Earth Song, Ocean Song:

1 – International (Bernard Gallagher-Graham Lyle)

2 – There’s Got To Be More (Harvey Andrews)

3 – Silver Birch and Weeping Willow (Ralph McTell)

4 – How Come the Sun (David Horowitz-Tom Paxton)

5 – Earth Song (Liz Thorsen)

 

1 – Martha (Harvey Andrews)

2 – Streets of London (Ralph McTell)

3 – The Wind (Cat Stevens)

4 – Water, Paper & Clay (Mike Sutcliffe-Reina Sutcliffe)

5 – Ocean Song (Liz Thorsen)

 

Vejo no All Music que o CD tem três faixas que não estavam no LP original:

Kew Gardens (Ralph McTell)

When I Am Old One Day (Harvey Andrews)

Let My Name Be Sorrow (Bernard Estardy-Martine Habib)

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E eis a letra de “Streets of London”, de Ralph McTell:

 

Have you seen the old man

In the closed down market

Kicking up the papers,

with his worn out shoes?

In his eyes you see no pride

AND held loosely AT his side

Yesterday’s paper telling yesterday’s news

 

Chorus: So how can you tell me you’re lonely,

and say for you that the sun don’t shine,

Let me take you by the hand and lead you through the streets of London

I’ll show you something to make you change your mind.

 

Have you seen the old girl

Who walks the streets of London

Dirt in her hair and her clothes in rags

 She’s no time for talking

she just keeps right on walking

Carrying her home in two carrier bags.

 

Chorus

 

In the all night cafe

 At a quarter past eleven,

Same old man sitting there on his own

Looking at the world

Over the rim of his tea-cup,

each tea lasts an hour,

 And he wanders home alone

 

Chorus

 

Have you seen the old man

Outside the Seamen’s Mission

Memory fading with the medal ribbons that he wears

In our winter city

The rain cries a little pity

For one more forgotten hero

And a world that doesn’t care

 

Chorus

2 Comentários para “Meus discos: Earth Song, Ocean Song”

  1. Boa noite amigo, por acaso vim aqui parar e estive a ler, gostei da parte da sua neta kkkkk acredito ke poderia ter o seu gasto, não sei de onde você é, mas só para lhe dizer eu tenho precisamente os dois e ainda em bom estado, prefiro ke me fale pelo facebook, o ( teresaxepa@ hotmail.com, não tenho paciência de andar por aqui, os meus cumprimentos.abraço.

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