Feliz tudo para todos

Gosto desta época do ano, de festas, principalmente porque é um tempo em que as pessoas desaceleram o ritmo de trabalho, encontram hora para alegria e abraços, fazem projetos para o próximo ano que nem sempre cumprirão. Mas são momentos de relaxamento que fazem bem a qualquer um.

Com a família quase toda viajando em busca do sol e da areia das praias, mesmo guardando no fundo do peito um temor diante da realidade de nossas estradas de rodagem, eu me reservei uma temporada de refresco mental. O ano que passou repetiu o mesmo trabalho de Sísifo de outros, mas com uma dosagem mais exagerada.

Fiz uma força danada para terminar o ano que se foi, esse 2012 que os crédulos acreditavam que nos traria o fim do nosso mundo. O mundo só acaba para cada um de nós, aqui na terra e sem considerar a crença de que uma outra vida mais venturosa virá, quando o ar nos faltar, o sangue não mais circular e os olhos se fecharem para os nossos, os que nos cercam e nos amam.

Todos os dias o nosso mundo se acaba para alguém, para muitos em nosso planeta.

Contamos os anos que passam por convenção, o que é bom para se organizar a vida e renovar a cada 365 dias e seis horas a esperança na justiça, na bondade e na harmonia. Acontece que o nosso calendário não é o mesmo, por exemplo, que ordena os orientais e que também não passa de um pacto acordado por eles.

Nada vai ficar melhor por causa dos foguetes que explodem na noite de passagem de ano. Miró, preto labrador companheiro há anos, não gosta nem um pouco do barulho ensurdecedor que violenta seus ouvidos. Deve-se perguntar por que os humanos se divertem tão estupidamente. Faço-lhe companhia para acalmá-lo, mas eu também merecia solidariedade diante dos decibéis que me atacam, no dia a dia, com as buzinas, os motoristas que acionam suas caixas de som e despejam suas músicas primitivas insuportáveis, as motos e suas descargas abertas.

Mas o que é isso? Não posso iniciar o ano reclamando. Certo que não assistirei às retrospectivas que a mídia teima em repetir a cada ano. Não quero me lembrar das porcarias e das violências do ano que passou. Eu quero e vou me lavar nas coisas boas que a memória me traz de 2012. São fatos corriqueiros da vida comum, as pequenas grandes alegrias que pude colher em casa e na rua, na família e na amizade.

Tudo cercado da beleza da música, da poesia, do amor guardado no coração e explicitado em gestos, beijos.

Penso em pessoas de ontem e de hoje e desejo a todos o que o título dessa crônica diz: feliz tudo para todos.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, no final de dezembro de 2012.  

Um comentário para “Feliz tudo para todos”

  1. Da janela do meu nono andar ví o lançamento de mísseis, ogivas e morteiros barulhentos , a lançarem lágrimas coloridas de luz e cor no horizonte de minha cidade. Em frente, no 17º andar de uma janela indiscreta, uma solitária mulher filmava os festejos. Lembrei-me dos horizontes de Cabul e Palestina, dos céus de Hiroshima, dos festejos de terror. Lembrei o poema de Mário Quintana e desejei feliz ano novo a todos, como você Brant.

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