Lidiane voltou a estudar

Lidiane voltou a estudar; está fazendo Pedagogia, e já trabalha em creche municipal.

Soube disso agora há pouco, e fiquei bastante feliz. Boas notícias são sempre bem-vindas.

Emprestei muitos livros para Lidiane. Meus, da minha filha. Néia, a mãe dela, me pedia, eu escolhia algum livro; daí a poucos dias recebia de volta, com o pedido de mais um.

Comecei com obras mais simples. Através da mãe, ela pedia mais, e passei a escolher livros menos infanto-juvenis. Acho que emprestei  Marcoré, que Vivina havia me aplicado muitos anos antes. Acho que emprestei até Vidas Secas.

Lidiane lia tudo.

Mary se lembra de que emprestamos As Cinzas de Ângela – denso, pesado, imenso. Ela mandou dizer que havia amado.

Era filha única, e tinha vindo quando Néia era adolescente. Néia é uma mulher de grande inteligência, força, vivacidade. Queria para a filha uma vida melhor que a dela, como todos os pais e mães querem, têm a obrigação de querer.

Néia ficou furiosa quando a filha engravidou adolescente como ela mesma havia engravidado. Engravidar adolescente não é, de maneira alguma, a melhor maneira de ter uma vida melhor que a da mãe.

Lidiane parou de estudar para cuidar do bebê. Algum tempo mais tarde, engravidou de novo.

Soube agora que o primeiro menino está com 12, e a segunda filha está indo para a pré-escola, com 5 ou 6, portanto.

Lidiane é alguns anos mais jovem que minha filha. Não sei exatamente quantos, mas é bem mais jovem. Minha filha teve sua primeira filha há 5 meses, aos 37 anos.

Muitíssimas vezes, no passado, me peguei pensando sobre essa coisa óbvia: que, para Néia, Lidiane era exatamente o que minha filha era para mim – a coisa mais importante da vida.

Às vezes não percebemos obviedades. É melhor quando conseguimos percebê-las.

***

“Tinha eu 14 anos de idade quando meu pai me chamou”, começa o samba maravilhoso de Paulinho. Me lembrei dele agora porque eu tinha 15 quando ouvi do meu professor de Filosofia no primeiro ano do colégio, no Aplicação de Belo Horizonte, um conceito de que jamais esqueci: o de que apenas através da educação uma pessoa pode se mover socialmente, pode sair de uma classe social e chegar a outra.

Não me lembro das exatas palavras dele, mas o conceito é claro como água da fonte: só se sai da miséria ou da pobreza através da educação.

Outro compositor, Pete Seeger, fez versos tão belos quanto os do príncipe Paulinho. Disse ele: “The world needs books and schools.”

Outro dia mesmo vi mais um filme que demonstra exatamente esse conceito que meu professor do Colégio de Aplicação passou para a turma de 1966. É A Família Flyn/Being Flynn, baseado no livro de memórias de um sujeito que teve muitas oportunidades de virar um junkie, um lixo, um desajustado, um traste, e acabou se dando bem porque perseverou na tentativa de escrever.

Transcrevo aqui dois parágrafos da minha anotação sobre Being Flynn:

Entre os Muros da Prisão/Les Hauts Murs, de Christian Faure (2008), é uma espécie de Pixote francês, sobre escolas-presídios para adolescentes na França dos anos 30. Mostra a infância e adolescência de um garoto numa dessas escolas-presídios, Yves Tréguier. Yves Tréguier se tornou escritor com o pseudônimo de Auguste Le Breton; o filme se baseia em suas memórias. Auguste Le Breton escreveu mais de 70 livros, muitos deles histórias policiais; diversas de suas obras foram adaptadas pelo cinema, como Rififi, de Jules Dassin (1954), e Os Sicilianos, de Henri Verneuil (1969).

Dois filmes franceses da mesma época de Entre os Muros da Prisão também retratam histórias de jovens criados em ambientes de muita pobreza, material ou moral, ou as duas juntas, que também escapariam da marginalidade graças a seu talento e amor à arte. É assim com a protagonista de Stella, beleza de filme da diretora Sylvie Verheyde – e a diretora deixa claro que a personagem Stella tem muito dela própria. Chimo (Mohammed Khouas), o jovem árabe de Lila Diz…, de Ziad Doueri, também tem praticamente tudo para transformar-se num deliqüente, num marginal; é salvo pela capacidade de escrever sobre suas próprias experiências.

***

Não, esta não é uma anotação para discutir cotas, políticas afirmativas. Não, não.

Quis apenas anotar algumas lembranças que me vieram à cabeça quando soube hoje que Lidiane voltou a estudar. Os meninos que ela teve jovem demais já cresceram um pouquinho, então ela pôde ter a opção de voltar a estudar, ou então ficar como estava.

Optou por voltar a estudar.

Que maravilha, Lidiane. Que maravilha, Néia. Parabéns!

22 e 23 de agosto de 2013

9 Comentários para “Lidiane voltou a estudar”

  1. Sou eu esta Lidiane, uma pessoa melhor por ter encontrado na vida pessoas que me incentivaram a crescer e querer ser melhor,so para lembrar Cinzas de Ângela e Xogum ( e uma trilogia, espero que esteja certa sobre o nome) ainda são meus livros prediletos.Hoje e pedagogia da autonomia meu livro de cabeceira. Obrigada por tudo.

  2. Lindoooo !!! Amei saber um pouco mais de minha Amiga de classe na pedagogia, lindas palavras de uma “menina mulher”, tão sonhadora e tão batalhadora. Parabéns Lidi, linda história de vida, parabéns também ao autor do texto Sérgio Vaz.

  3. Pouquíssimas vezes um texto meu aqui deu retorno tão bom, tão prazeroso, quanto este aí, que fiz de bate-pronto, rapidamente, de um fôlego só, assim que Mary e Néia acabaram de falar ao telefone.
    Primeiro minha filha me disse que tinha gostado muito. Um elogio de minha filha me derrete feito sorvete ao sol.
    E depois a própria Lidiane mandou a mensagem linda aí acima para o site, e conversou comigo pelo Facebook.
    Contou que a filhinha dela já adora os livros.
    Que maravilha!
    Obrigado, Lidiane.
    Sérgio

  4. Textos como este enche o mundo de boas novas alternando com as más da Dilma.
    Lidiane voltou a estudar, sua filhinha adora ler, Marina olha para a coleção dos pensadores, quieta a espera, na estante do avô.

  5. Sérgio, finalmente tive a chance de ler esse texto e também adorei e mando um mundo de boas vibrações pra Lidiane! Quando eu passei alguns meses dando aulas para brasileiros na Madison Park High School tive que lidar de perto com os alunos que queriam desistir de tudo. Um dia me vi colocando um pontinho no quadro e dizendo a um adolescente. Você está aqui. Se continuar matriculado, vai andar sempre pra direita, para um futuro legal. Mas se resolver desistir, começa imediatamente a andar pra esquerda, anda pra trás. Tive a impressão de que ele tinha me ouvido. Mas ele continuou com o plano de ir embora e conseguiu facilmente as assinaturas para que pudesse fazê-lo. Há dois meses, dois colegas dele contaram no Facebook que estavam se formando na Universidade de Massachusetts. Ele está trabalhando em construção. Mas pode, como a Lidiane, um dia voltar a estudar! Adoro as possibilidades! Obrigada por escrever sobre isso, Sérgio!

  6. Obrigado Sergio o texto Lidiane voltou a estudar, fez a Lidiane voltar a sorrir despertou aquela alegria contagiante que por alguns per causos havia adormecido estas semanas. Sei que a muito a lamentar, mas prefiro igual a você comemorar as pequenas grandes coisas então parabenizo a você por emprestar aqueles livros, A Lidi que voltou a estudar a nosso encontro na faculdade ao nascer de uma amizade e a Lidi na sala de aula contagiando aquelas crianças a algo melhor. um Livro emprestado criou aqui uma grande corrente do bem.

  7. Boa noite !
    Hoje Lidiane e uma pedagoga quase formada, ainda falta a colação de grau, mas já realizada.
    Mas o que queria dizer aqui é que relendo este texto que há mais de um ano me fez voltar a acreditar, falarei sobre educação, sim sobre a transformação que pode ser trazida pela educação, tema do meu trabalho de conclusão de curso, apresentado por mim e mais duas amigas, Ariani e Fernanda.
    Emocionante pelo tema, por ser uma crendice nossa, emocionante porque causou na banca uma comoção, nos professores que ali estavam elogios exaltados.
    Amo a profissão que escolhi, amo a possibilidade de ser para alguém o que Sérgio Vaz foi na minha vida, me demostrou através de livros a possibilidade de enxergar um mundo diferente de oportunidade.
    Obrigada !
    A graduação e só o começo !

  8. SV, maravilha, querido amigo. Que belo texto, que belo presente para esta época do ano. UM, procure ler no FB um texto da Marina Moraes, intitulado “Diadorim – Tita”. É muito belo, também.

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