Democracia: por onde começa

O governo e os políticos entenderam mal . O que o povo pediu nas ruas não foi uma reforma política, mas uma reforma na política.

A observação, tão simples quanto sagaz, é de um tuiteiro.

Por isso, as sugestões de uma Constituinte exclusiva ou de um plebiscito sobre reforma foram desprezadas ou simplesmente ignoradas até pelos próprios aliados do governo.

A panacéia tem um vício de origem: não é isso o que o povo está querendo. O que o povo está querendo também é indefinível , volátil e subjetivo, mas envolve ética, eficiência, fim dos privilégios, fim da malversação dos recursos públicos – o óbvio,enfim.

Os partidos políticos, incluindo o mais organizado e o mais popular deles – o PT – não chegam, juntos, a somar 50% de aprovação popular.

No Brasil, não existe sequer o espectro tradicional da representação de princípios que constitui o perfil tradicional dos partidos das democracias maduras do Ocidente, e que Norberto Bobbio, em seu clássico trabalho, Esquerda & Direita (editor UNESP), definiu e classificou assim:

a) na extrema-esquerda estão os movimentos simultaneamente igualitários e autoritários, a exemplo do jacobinismo;

b) no centro-esquerda, doutrinas e movimentos simultaneamente igualitários e libertários (o que ele chama de “socialismo liberal”), a exemplo dos partidos social-democratas;

c) no centro-direita, doutrinas e movimentos simultaneamente libertários e inigualitários, a exemplo dos partidos conservadores, “que se distinguem das direitas reacionárias por sua fidelidade ao método democrático”; e

d) na extrema-direita, doutrinas e movimentos antiliberais e antiigualitários, a exemplo do nazi-fascismo.

Aqui estamos ainda nos aspectos primitivos desse debate elementar: um partido social-democrata como o PSDB é definido na discussão ideológica pedestre que as redes sociais amplificam como “de direita” e “fascista”.

O PT, um partido de prática social democrática, é confundido com um partido revolucionário, ainda que algumas de suas facções militantes se considerem, com um certo orgulho, como tal.

O fato é que essa radicalização provocada pela pura ignorância política e possivelmente pelas sequelas dos 20 anos de ditadura militar, que interditaram a existência de um partido forte e consistente do que Bobbio definia como “centro-direita”, provocaram um estranho fenômeno que consiste no seguinte: provavelmente o conjunto do pensamento majoritário da sociedade brasileira – que é uma espécie de liberalismo conservador (de corte inglês) – não tem representação no Brasil.

Todos os partidos aqui são de esquerda, ou querem ser, ou imitam, ou fingem que são, porque têm medo de defender publicamente opiniões contrárias. O único que pretendia isso – o DEM – cometeu hara-kiri público moral ou conceitual e dissolveu-se politicamente.

Começa por aí: sem partidos consistentes não há representatividade e sem representatividade não há democracia.

 Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 16/8/2013. 

3 Comentários para “Democracia: por onde começa”

  1. Só haverá consistentes partidos quando houver consciência política. Não há de ser com votos obrigatórios e de cabresto que esta consciência aflorará.
    O PT no seus início, poderia ser um prenúncio de conscientização política caso não tivesse vertido para a institucionalização de petistas de carteirinha com registro no TRE.
    Grandes idealizadores, pensadores e grandes políticos fundaram o PT, pequenos seres e com grandes ambições pessoais afundaram o PT, levaram-o a lama.
    Não temos vanguarda, sofremos à retaguarda.

  2. “Deu-se que, no poder, o Partido dos Trabalhadores portou-se como todos os demais chamados a movimentar o cenário político nativo, desde sempre clubes recreativos de dignos representantes da chamada elite. Uma exceção, antes do PT, foi o MDB, como frente de oposição, capaz de reunir, sob o comando do doutor Ulysses, todos os resistentes à ditadura, inclusive quantos sonhavam com um partido de esquerda à altura da intenção. Como tal surgiu o PT a partir da reforma partidária planejada por Golbery do Couto e Silva, e assim se manteve, anos adentro, depois do fim da ditadura.

    Houve, é verdade, ajustes ideológicos ao longo do caminho, ditados por um salutar pragmatismo e pela adequação às mudanças sofridas pelo mundo. Manteve, porém, correção e coerência, ao passo que o tucanato no governo praticava tramoias e desmandos nunca dantes navegados e provava que o socialismo democrático à brasileira corresponde à pior direita, a mais reacionária.
    Lá chegado, o PT de certa forma reeditou o ciscar do pássaro incapaz de voar, embora de maneira mais canhestra, diria primitiva, conforme cabe a quem não dispõe de largas tradições neste campo. Depois de ser governo por mais de dez anos, e na perspectiva do pleito de 2014, o PT prepara suas eleições internas para a renovação dos postos de comando.

    Não seria a hora de um profundo, desabrido exame de consciência?”

    registrado por: Mino Carta

  3. Por que o Vaia chama o PSDB de social-democrata? Social-democrata sou eu!

    [é o que me impede de entrar para o PRONA, posto que autoritários]

    Chamar o PSDB de centro-esquerda (Sandro Vaia) é tão surrealista quanto chamá-los de fascistas.

    Com relação ao PT: a sua origem social-democrata – com conexões do Lula com os trabalhistas europeus etc. – parece dar lugar a versões mais autoritárias, sem, no entanto, o igualitarismo do Bobbio. Este, inclusive, não citou a corrente à qual pertence o PT: um “centrão” autoritário.

    Já as jornadas de 2013, se exigiam fim de privilégios, estavam reclamando das multinacionais…

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