A música é uma arma quente contra o racismo

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Quando é que vamos aprender que a cor da pele não significa absolutamente nada, não tem importância alguma?

Penso na entrevista de Morgan Freeman a Mike Wallace no programa 60 Minutes, por exemplo: “Qual é o mês da consciência branca? (…) Eu não quero um mês da consciência negra.” E, à pergunta “como vamos nos livrar do racismo?”, o extraordinário ator responde: “Parando de falar sobre isso. Eu vou parar de chamar você de branco, e o que o lhe peço é que pare de me chamar de negro”.

Penso na letra maravilhosa que João Ricardo escreveu para o Secos & Molhados cantarem no segundo disco. A letra de “Preto Velho” é simples, curtinha, direta com o soco de Morgan Freeman na cara dos racistas e racialistas:

Aquele preto, tão preto

Com aquela barba branca, tão preta

E aquele olhar tão meigo

De quem espera ganhar

Um sorriso incolor.

Penso na deliciosa forma que André Abujamra escolheu para falar dessa coisa tão simples, tão óbvia – e no entanto de tão difícil compreensão para tanta gente, na canção “Alma não tem cor”:

Alma não tem cor

 Porque eu sou branco

 Alma não tem cor

 Porque eu sou negro

 Branquinho, neguinho

 Branco, negon

 Alma não tem cor

 Porque eu sou branco

 Alma não tem cor

 Porque eu sou jorge mautner

 Percebam que a alma não tem cor

 Ela é colorida

 Ela é multicolor

 Azul, amarelo, verde, verdinho, marrom.

***

Ouço as vozes de pessoas de pele preta e as vozes de pessoas de pele clara.

Janis Joplin, pele claríssima, por exemplo, canta do jeito com que muitas mulheres de pele escura cantam. A voz é rascante, forte, brilhante, como a de tantas mulheres de pele escura que cantam nas igrejas das várias denominações protestantes.

Roberta Flack, preta como a noite do sertão, como o piche, canta com a voz mais branca do que a de Joan Baez – que aliás é mestiça de irlandesa com mexicano.

Salve a mulatada brasileira, salve a mestiçagem de qualquer tipo ou cor.

Tentem ouvir canções que as duas gravaram – a mestiça branca Joan Baez e a de pele escura Roberta Flack. Roberta tem uma voz tão “branca” quanto Joan.

Ouçam a mesma canção na voz do “judeu” Dylan e da “negra” Nina Simone. Ouçam a mesma canção na voz do “judeu” Paul Simon e da mulher de pele escura Roberta Flack. Há ali alguma diferença profunda entre as vozes de artistas de cores da pele diferentes? Não, não, não: há apenas artistas extraordinários, interpretando canções extraordinariamente belas.

A garota Joss Stone tem pele branquinha, branquinha; nasceu no País de Gales. De sua garganta sai um voz gutural que remete à texana branca que nem folha de papel Janis Joplin porém com voz de crioula. A voz da branquela de Gales tem tudo a ver com a das cantoras negras das igrejas do Sul Profundo dos Estados Unidos.

Comparem uma nota estendida de Roberta Flack e de Janis Joplin, ou de Joss Stone. A da primeira é mais comum entre as cantoras brancas, a das duas outras, das negras.

E no entanto a cor da pele delas é o contrário.

zzcor2Peguemos a canção “Always”, do judeu de origem russa Irving Berlin. Berlin, judeu e branco, fazia a música mais branca que poderia existir. Leonard Cohen é judeu e branco. Pois ele pegou uma das canções mais perfeitas e perfeitamente “brancas” do judeu Irving Berlin, “Always”, e a gravou como uma música de negros, em seu disco The Future. É uma maravilha.

A música, a mais universal das artes, é anti-racista por excelência. Basta ir a qualquer grande show de música pop de artista de qualquer lugar do mundo, ou ver pela TV, ou no Youtube: o palco é sempre, sempre, inevitavelmente multicolor.

***

Detesto, com toda a virulência possível, o conceito ridículo, absurdo, de “raça” para diferenciar seres humanos.

Com maior virulência do que é possível, detesto o conceito de “raça pura”.

Felizmente nasci num país em que a rigor não há “brancos” ou “negros”. Somos todos, graças ao bom Deus, aos deuses todos, resultados de miscigenação.

Aliás, quem foi mesmo o sujeito bem-humorado que, num momento especialmente feliz, fez a frase “brasileiro branco, só se for filho da Xuxa com o Taffarel”?

O grande Pete Seeger, humanista do primeiro time, comunista de carteirinha quando ser comunista era sinônimo de ser humanista, fez um delicioso elogio à miscigenação. Esperançoso sempre, eterno believer, ele diz em “All Mixed Up” que em breve este mundão grande estará todo misturado.

You know this language that we speak,

Is part German, Latin and part Greek

Celtic and Arabic all in a heap,

Well amended by the people in the street

Choctaw gave us the word “okay”;

“Vamose” is a word from Mexico way.

And all of this is a hint I suspect of what comes next.

 

I think that this whole world

Soon mama my whole wide world

Soon mama my whole world

Soon gonna be gettin’ mixed up.

Soon mama my whole world

Soon mama my whole wide world

Soon mama my whole world

Soon gonna be gettin’ mixed up.

 

I like Polish sausage, I like Spanish rice,

And pizza pie is also nice

Corn and beans from the Indians here

Washed down by German beer

Marco Polo traveled by camel and pony,

He brought to Italy, the first macaroni

And you and I as well as we’re able,

We put it all on the table

 

There were no red-headed Irishmen

Before the Vikings landed in Ireland

How many Romans had dark curly hair

Before they brought slaves from Africa?

No race of man is completely pure,

Nor is anyone’s mind, that’s for sure

The winds mix the dust of every land,

And so will woman and man.

 

This doesn’t mean we will all be the same,

We’ll have different faces and different names

Long live many different kinds of races

It’s difference of opinion that makes horse races

Just remember the rule about rules, brother

What could be right for one could be wrong for the other

And take a tip from La Belle France: “Viva la difference!”

Pete Seeger, é sempre bom lembrar, é também o autor de uma das mais belas canções contra as guerras de todos os tipos, “Where have all the flowers gone?” Na letra, ele faz a pergunta terrível: “oh, when will they ever learn?

Quando é que, afinal, vamos nós todos aprender?

***

Só dá magnífica importância à cor da pele, hoje em dia, e em especial no Brasil, um país que, bem ao contrário dos Estados Unidos, sempre se miscigenou, é quem é magnificamente idiota, ou então mal intencionado.

2013

E, sim: como dizia John Lennon, happiness é sempre uma warm gun. 

P.S.: Dias depois que postei aqui este texto, Wladimir Ganzelevich pôs no Facebook um link para um pequenino filme – menos de um minuto – que é uma das mais belas, mais emocionantes expressões contra o racismo que já vi.

Uma pérola.  

Um comentário para “A música é uma arma quente contra o racismo”

  1. “Preta como a noite do sertão, como o piche, canta com a voz mais branca,branca que nem folha de papel porém com voz de crioula,canções mais perfeitas e perfeitamente “brancas” gravou como uma música de negros”.

    Se alma não te cor, o preconceito tem, só a miscigenação acaba com o preconceito. “Salve a mestiçagem”.

    “Eu vou parar de chamar você de branco, e o que o lhe peço é que pare de me chamar de negro”.

    Miscigenação, este é VIRUS contra o preconceito racial.

    A felicidade é a arma.
    Inseminemos o virus.

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