“Toda censura sempre leva a uma censura maior”

“Toda censura, por menor que seja, sempre, necessariamente, leva a uma censura maior. Começa-se censurando uma coisa específica, amplia-se a censura a outras e outras coisas. Por isso é necessário ser contra todo o tipo de censura.”

Me lembrei dessas palavras de Milos Forman, um dos maiores cineastas de todos os tempos, ao ver, chocado, que começam a surgir abaixo-assinados para tirar do ar o Big Brother Brasil.

Botei de imediato no Twitter e no Facebook um lembrete: os aparelhos de TV costumam vir acompanhados de um aparelhinho chamado controle remoto. Mas é pouco. Aí me lembrei de Milos Forman, e resolvi transcrever aqui trechos de uma anotação que fiz logo após assistir a uma entrevista do cineasta no National Press Club, de Washington, em 31 de janeiro de 1997, e que foi transmitida por uma emissora de TV brasileira, não me lembro qual.

Formam havia acabado de lançar seu filme O Povo Contra Larry Flynt, sobre o criador da revista Hustler, e estava sendo alvo de críticas de toda a direita raivosa americana, que consideraram o filme uma defesa da pornografia, da sujeira que ameaçava os valores da família americana, e blablablá.

Forman, nascido na então Tchecoslováquia, fala naquele inglês de imigrante, com forte sotaque. Mas fala com uma calma e uma segurança de fazer inveja a qualquer um, uma coisa brilhante, lúcida, bem falada. Quando o programa terminou, anotei algumas das coisas que ele disse.

Defendeu seu filme:

“Não é um filme pró-pornografia. Não é um filme sobre a revista Hustler. É um filme sobre o direito à expressão de pensamento, sobre a Primeira Emenda da Constituição. Este país é o mais poderoso do mundo não porque seja o mais populoso, ou o mais rico, mas porque é o mais livre.”

“Se pensarmos que os valores de nossa sociedade” (sim; imigrante naturalizado, ele diz “nossa”, quando se refere à sociedade americana, e isso por várias vezes) “possam ser ameaçados por uma revista pornográfica, ou por um filme, então devemos chegar à conclusão de que os founding fathers que escreveram a nossa Constituição estavam totalmente errados.”

“A pátria de Goethe, Mozart e Freud sobreviveu a Hitler porque combateu Hitler. As pátrias de Tchaikovski, Dostoiéviski, Tolstói, Kafka sobreviveram a Stálin porque combateram Stálin. Foram maiores do que os ditadores, que passam.”

“Toda censura, por menor que seja, sempre, necessariamente, leva a uma censura maior. Começa-se censurando uma coisa específica, amplia-se a censura a outras e outras coisas. Por isso é necessário ser contra todo o tipo de censura.”

“Me acusaram de mostrar um Larry Flynt glorificado. Eu não glorifiquei Larry Flynt. Eu o mostrei como uma coisa ambígua. Eu não saberia dizer se ele usou a Primeira Emenda para defender o direito à livre expressão ou se para defender o direito dele de continuar ganhando dinheiro com a pornografia. Provavelmente ele também não saberia dizer. Provavelmente foi por causa das duas coisas ao mesmo tempo. Ora, Oskar Schindler era um benfeitor da humanidade, que salvou centenas de vidas, ou era um nazista que se aproveitou de centenas de vidas de judeus para ganhar dinheiro para si próprio? Eu não sei, provavelmente ele foi as duas coisas ao mesmo tempo, de uma maneira ambígua, porque é assim que são as pessoas, e por isso foi assim que eu tentei mostrá-lo no meu filme.”

Depois que ele terminou sua exposição, vieram as perguntas, feitas pelo presidente do National Press Club, um garoto jovem, em nome dele próprio e também em nome de assistentes. O garoto apresentou a ele uma pergunta de pessoa de fora, a respeito de sua carreira, e ele explicou:

“Pertenci a uma geração de diretores checos que foram favorecidos por um instante de abertura” (não usou a expressão Primavera de Praga), “que fizeram filmes que foram aprovados no Ocidente, e os dirigentes comunistas detestavam aqueles filmes, mas ao mesmo tempo ficavam absolutamente contentes com o fato de aqueles filmes estarem recebendo elogios no Ocidente. E por isso pudemos continuar fazendo filmes, até que os tanques russos invadiram a Tchecoslováquia, em 1968, e aí eu fugi para cá.”

E depois perguntaram se ele se considerava um corajoso, porque alguém em um jornal disse que o filme People vs. Larry Flynt tinha começado um Watergate do cinema, e ele disse:

“Não, eu me considero sobretudo um covarde, tanto que eu fugi do meu país. Eu poderia ter ficado lá e lutado por mais liberdade. Ou poderia ter colaborado com os comunistas. Mas, não; eu fugi.”

E perguntaram o que ele acha do movimento de pais pedindo mais informações sobre a programação das TVs, de maneira a que possam monitorar os filmes a que seus filhos vão assistir, e ele disse:

“Acho que essa é a única forma de censura aceitável: a censura feita pelos pais para os seus filhos. Até porque, se isso puder ser feito, os pais vão ter que parar de culpar os outros pelos problemas que acontecem a seus filhos – a televisão, os jornais, os filmes, a violência, a sociedade, o mundo exterior. Aí eles poderão admitir as suas próprias responsabilidades na educação de seus filhos.”

E perguntaram se, já que ele é contra todo tipo de censura, ele seria também contra a criminização das drogas, e ele disse:

“Não sou um especialista em direitos civis, e não gostaria de ficar falando sobre coisas que não entendo completamente. Mas devo dizer que sou contra as drogas e contra o fato de os jovens terem acesso às drogas e poderem se viciar. Isso colocado, gostaria de questionar: milhões e milhões e milhões de dólares estão sendo gastos há décadas na guerra contra as drogas. E é necessário reconhecer que, até agora, essa guerra só tem um vencedor: os senhores das drogas. Isso é muito triste, mas é necessário reconhecer que essa é a verdade.”

E perguntaram a ele se, como tcheco de origem, tendo conhecido de perto o comunismo, ele defenderia a liberdade de expressão também para os comunistas. E ele – transmitido na íntegra pro mundo inteiro -, disse o óbvio:

“Pode parecer para alguns estranho eu dizer isso, mas não tenho dúvida alguma: os comunistas têm que ter o direito total de se expressar. Porque, se excluirmos os comunistas desse direito, daqui a pouco excluiremos mais outros, e mais outros. E, por mais estranho que possa parecer, os comunistas têm todo o direito de pregar o que eles quiserem, até mesmo diante da possibilidade de eles obterem o poder pela via democrática e mudarem todas as regras.”

Já perto do fim, o presidente do National Press Club disse que, em nome de estudantes e jovens que querem fazer cinema, gostaria de saber sua opinião sobre de que forma fazer filmes independentes. E ele disse:

“Isso é simples, é muito simples. Tell the truth without being boring.” (Disse e repetiu a frase, pausadamente.) “Digam a verdade sem serem chatos. Basta isso. Mas não que isso seja fácil. Ao contrário. É muito fácil mentir, e é até engraçado; as audiências gostam de ver mentiras, e se divertem com mentiras.”

18 de janeiro de 2011

2 Comentários para ““Toda censura sempre leva a uma censura maior””

  1. Excelente, Caro Sérgio!
    Milos Forman tem toda a razão; embora o Big Brother seja uma coisa horrível, do pior que já vi, mas infelizmente na TV é assim.
    A propósito: viu o filme “Boa Noite e Boa Sorte”? Se não viu veja logo que possa.

  2. Caríssimo José Luís, obrigado pelo comentário. Vi “Boa Noite e Boa Sorte”, e gostei muito. Infelizmente, na época não anotei sobre ele. Gostaria de revê-lo para fazer um comentário.
    Um abraço!
    Sérgio

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.