Na Igreja do Carmo

Chegar a Diamantina é sempre um prazer. Muitas recordações de festa e amizade, lembranças que vão até a comemoração de meus cinco anos, data em que bebi, pela primeira vez, um guaraná quase gelado, resultado das pedras de chuva que caíram no quintal e foram recolhidas em uma bacia. Geladeira era algo, para mim, inexistente.

Eis que fui à minha terra da infância no último fim de semana, para assistir a uma homenagem do TRE ao meu pai. E lá me vi, novamente, andando nos caminhos das pedras capistranas. É uma sensação agradável voltar a uma cidade muitos anos depois da partida e encontrá-la, na essência, igual ao que fora.

Muita coisa mudou, é evidente. Os casebres em volta do Rio Grande deram lugar a modestas construções de alvenaria e telha francesa. No Alto da Poeira nem poeira mais há. Lá eu vi o herói Torrô, artilheiro do Oásis, meu primeiro time, chorando em público a morte de seu pai. Aquele homem enorme, aos prantos, foi um espanto para mim. E estranhei mais ainda quando, no dia seguinte, o vi aos beijos com sua namorada. Para meus 7 ou 8 anos era algo incompreensível.

Estou indo agora para a Igreja do Carmo. Caminho devagar no rumo da capela construída pelo contratador João Fernandes para sua amada Chica da Silva. É o que se diz, como se fala também que as torres dos sinos daquele templo religioso foram edificados nos fundos, e não na frente, para que o sono da mulher não fosse perturbado. Que foi o rico e poderoso contratador que financiou a obra deve ser verdade, está escrito lá na porta. Presumo que isso seja mesmo história, mesmo que haja um bom bocado de lenda.

Fui ali para rever a capela e também, para constatar se era real que meus bisavós paternos estavam enterrados lá. Nunca tinha ido conferir. Não havia cemitérios, é o que contam. Por isso as pessoas eram enterradas nos terrenos e nas paredes dos muros laterais das igrejas. Não deu para ler quem eram os mortos do muro, as inscrições se apagaram com o tempo.

Na terra, só um túmulo está cuidado e identificado. Isso foi trabalho de meu pai, eu concluo. Leio com atenção as datas e os nomes: José Ferreira de Andrade Brant e Maria Carolina de Almeida Brant. Esse meu bisavô foi influente em seu tempo, conhecido como Juca Brant. Conheço um retrato dele, imponente e com vasta barba.

Alguém no século 21 visita os restos de parentes do século 19. Coisa de doido.

O que mais me chamou a atenção foi o primeiro sobrenome da bisavó: Almeida. É de seu ramo, então, que veio um tal de Domingos José de Almeida, que saiu de Diamantina para vender cavalos no Rio Grande Sul. Que viagem. Lá ele participou da Revolução Farroupilha, fundou Uruguaiana e se tornou estátua em Pelotas. Mas essa é uma outra história.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em 3/2011.

Um comentário para “Na Igreja do Carmo”

  1. Gosto muito de estudar a genealogia das famílias mineiras. Leio na Internet que minha bisavó, Amélia Senhorinha Caldeira Brant pertenceu à Sociedade Protetora Nossa Senhora das Mercês, dirigida pelo Major José Ferreira de Andrade Brant e deu liberdade a uma menina de cinco anos, chamada Margarida e prometeu educar e cuidar dela até atingir a maioridade; fato que me dá justo orgulho dos meus antepassados. Para me localizar na genealogia, a minha pergunta é a seguinte: – Qual é o parentesco do Major José Ferreira de Andrade Brant com o muito ilustre e conhecido Augusto Mário Caldeira Brant ?.
    Ivan da Mata Machado

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