É o breu

Sete estados do Nordeste – Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará — ficaram às escuras na virada de quinta para sexta-feira, primeiro apagão do governo Dilma Rousseff, quarto desde novembro de 2009.

Ironicamente, poucas horas antes, a presidente acreditava estar começando a desatar os nós das estatais elétricas – disputadas a socos e pontapés entre os seus -, mais uma vez valendo-se do homem mais poderoso da República, o tetra-presidente do Senado e sempre fiel a qualquer governo, José Sarney.

Dilma ainda respirava aliviada por ter acabado com a guerra letal de Furnas, nomeando Flávio Decat, para quem o filhinho do papai Fernando Sarney pediu colocação em 2008.

Nenhuma surpresa. Sarney domina os bilhões do setor elétrico há tempos e não há qualquer indicação de que algo vá mudar. A começar pelo compadre ministro Edison Lobão, a quem nada acontece mesmo depois de ele se dar ao desplante de dizer aos milhões de nordestinos que ficaram no completo breu que “não houve um apagão, houve uma interrupção temporária de energia”.

Explicado genericamente como uma falha “rara” no sistema que o ministro define como “robusto” (imaginem se não fosse), o apagão de agora se soma a outros que também foram banalizados pelo governo.

Em 10 de fevereiro de 2010, no oitavo ano do governo Lula, o Nordeste apagou por quase uma hora. Em janeiro foi a vez de Acre e Rondônia, que ficaram sem luz por uma falha na linha nova que conectava os dois estados ao Sistema Interligado Nacional. Dois meses antes, 18 estados apagaram atingidos pela queda de transmissão de Itaipu.

Seja por falhas, ainda que raríssimas, ou por pressão da demanda sobre a rede, parte significativa dela obsoleta ou carente de manutenção, a corrente de responsabilidades está indiscutivelmente plugada ao rei Sarney. Ainda que o seu Maranhão tenha, por ironia do destino, sido poupado do último apagão.

Melhor seria se a presidente Dilma, recém incensada pelo Financial Times por sua competência gerencial, não repetisse o seu antecessor nos pedidos de arrego a Sarney. E parasse de lutar com tanto afinco para se manter longe de qualquer polêmica, seja nas reformas essenciais, como as tributária, política ou previdenciária, seja na composição ou na arbitragem de seu próprio governo.

Presidente que teme choques, mesmo os de baixa voltagem, acaba por estimular curtos circuitos muito mais danosos.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 6/2/2011.

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