Apagão no país de Dilma. Apagão nas redações

O apagão de hoje em diversos Estados é tristíssimo, é chocante, é apavorante. Mas confesso: para mim, foi mais triste, mais chocante, mais apavorante constatar o apagão nas grandes redações.

O blecaute começou, segundo relatos no Twitter, por volta das 23h30 da quinta, dia 3 – 0h30 desta sexta pelo horário de Brasília. Até as 2 horas da manhã, as primeiras páginas dos portais dos grandes jornais ainda não noticiavam o apagão.

Epa! Às 2h06, a folhaonline traz a manchete. Portais G1, o de O Globo e o do Estadão ainda não.

Daqui para a frente, é claro que os portais vão passar a trazer notícias. Mas durante uma hora e meia, 90 minutos inteiros, os serviços online (online – na mesma hora, em tempo quase real) das maiores empresas jornalísticas do país imitaram o governo do lulo-petismo: apagaram-se.

Uma lástima.

Em artigo dramático na Veja de 19 de janeiro, J. R. Guzzo escreveu, a respeito das “cotas” de Brasília – cota para o PMDB disso, cota para o PMDB daquilo, cota para cada uma das sete (ou seriam nove?) principais facções que compõem o PT, cota até para a presidente Dilma, que teve o direito de nomear ela própria alguns de seus ministros: “É motivo de espanto, nessas condições, que se consiga, por exemplo, embarcar e desembarcar alguma coisa nos portos brasileiros, que as aposentadorias sejam pagas em dia ou que a luz acenda quando se liga o interruptor”.

Durante uma hora e meia, enquanto milhares de brasileiros não conseguiam que a luz se acendesse, o que faziam os jornalistas das maiores redações, meu Deus do céu e também da terra?

Me lembrei de uma triste piada que corria antigamente na redação do Jornal da Tarde. O repórter de Variedades chegou desconsolado de volta da rua dizendo que infelizmente não tinha trazido a entrevista com o artista tal porque o prédio do hotel em que ele estava hospedado havia pegado fogo.

Naturalmente, ele não trazia uma linha sobre o incêndio. Incêndio é com os repórteres da Geral.

Uma vez tive a infelicidade de presenciar caso parecido com o da piada triste. Uma repórter da Variedades chegou ao jornal se dizendo chocada com o acidente trágico que tinha acontecido na Avenida Sumaré, e sugerindo que o chefe de Reportagem Geral mandasse alguém para ver como tinha sido o desastre.     

Pois hoje o G1, um dos portais das Organizações Globo, que traz notícias da Rede Globo, do jornal O Globo, repetiu a triste imbecilidade. Botou no pé da primeira página: “Blecaute em Salvador atrasa show de Ivete Sangalo no Festival de Verão. Problema aconteceu às 23h20 (horário local).” A notícia foi colocada no ar à 0h58 desta terça-feira.

No encerramento de um dos jornais da GloboNews, à 1h29, o apresentador deu a notícia do apagão – uma notícia de umas quatro linhas de texto, alguns poucos segundos no ar.

E mesmo depois disso a informação ainda levaria mais de meia hora para chegar à home page de um dos portais das grandes empresas jornalísticas! E mais tempo ainda para chegar às demais home pages!

3h10 da madrugada, e estadao.com traz agora o blecaute como a segunda notícia mais importante. No Egito não houve propriamente um fato novo, e a grande manchete é gelada – “EUA discutem plano para afastar Mubarak”. O portal do Globo dá manchete, mas em corpo normal, como se “parte do Nordeste sem luz”, como diz o título, fosse coisa rotineira. E o G1, que costuma ser agilíssimo, acaba agora de trocar: botou para cima o apagão, que até há minutos atrás era a segunda notícia, e para baixo o Egito sem fato novo, que era a manchete até agora há pouco.

Cacete, onde foi parar o jornalismo?

Postado a partir das 2h04 de 4/2/2011.

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