Será que estou lendo o que estou lendo?

Nos últimos tempos, com uma freqüência que eu gostaria que fosse menor, tenho me perguntado se realmente estou lendo o que estou lendo. Ou ouvindo o que estou ouvindo.

Explico: às vezes, é tudo tão absurdo, tão irreal, que fico pensando que minha mãe, que me alfabetizou – à noite, na cozinha da fazenda –, não trabalhou direito. Ensinou errado.

Aluna razoável e filha obediente, não deu outra. Aprendi errado.

Não devo saber ler direito. Escrevem uma coisa, leio outra. E, mais grave, penso uma terceira.

Não aprendi a ler nem a pensar, embora, há exatos quarenta e oito anos – 1962 –, na Licenciatura do Curso de Letras Neolatinas da UFMG, em Belo Horizonte, eu tivesse recebido uns elogios da professora de Didática Especial de Português, após entregar um trabalho feito em casa, sei lá quantas folhas de papel almaço – quem se lembra? –, todas escritas à mão. Caneta tinteiro, tinta preta.

Magda Soares leu tudo. E fez comentários, no final. Caneta esferográfica, tinta vermelha.

O texto que ela havia nos dado, em espanhol (o nome do autor sumiu no tempo), falava justamente sobre os atos de ler e de pensar. Texto curto, objetivo, bom de ler. Melhor ainda de pensar.

Li, reli, pensei, repensei. Escrevi muito.

Ainda me lembro. Morava em república, casa pequena, espaços reduzidos, livros e cadernos apertados, espremidos.

Nos espaços que me cabiam, escrevi muito. Senti que a dupla – ler e pensar – dava certo. Estimulava, desafiava.

Alguns dias mais tarde, ao receber de volta o trabalho que ainda guardo, o comentário: “Seu trabalho mostra que você aprendeu a ler e aprendeu a pensar”.

Conto isso com a tranqüilidade de meus setenta anos, sabendo que, se minha mãe me ensinou a ler, Magda, certamente, me ensinou a pensar.

Suas aulas duraram um ano só, mas sua lembrança me faz bem até hoje.

E quando evoco, como agora, o que vi, vivi e aprendi, naquele ano, na pacata Rua Carangola que abrigava, além da Faculdade, o Colégio de Aplicação, onde estagiávamos, me sinto privilegiada.

Sabia, como sei, cada dia mais, que professor inesquecível é, sim, privilégio, e de poucos.

Esta semana me lembrei de forma especial de minha professora inesquecível.

Li, nos jornais diários, que uma professora de Belo Horizonte, justamente da UFMG, enviou um parecer ao MEC sugerindo que o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, não seja distribuído nas escolas públicas, por induzir ao preconceito.

Ela não deve ter sido aluna da Magda. Se tivesse tido essa felicidade, gostaria de pensar, e desejaria – ardentemente! – que as crianças fizessem o mesmo.

Literatura não é coisa que chega pronta, nunca foi. É uma linha de pensamento que nasce no autor e atinge, na outra ponta, o leitor. Não passivamente. Pensativamente. Discordando, questionando, indagando. Até concordando, por que não?

Minha professora inesquecível, em e-mails entre amigos, colegas e ex-alunos, comentou a notícia do jornal que, quando li, tive certeza de não estar lendo o que estava lendo.

Que ela fale por mim. Após quarenta e oito anos, façamos de conta que continuamos na sala de aula da Rua Carangola.

Não, não façamos de conta. Estamos lá, e Magda pensa conosco.

* * *

“Nós, de diferentes gerações, lemos as Caçadas de Pedrinho e todo o Monteiro Lobato; nossos filhos leram, os meus netos leram, meus alunos leram, durante as décadas em que dei aulas; tenho levado crianças de escolas públicas a lerem Lobato, adoram, e, particularmente, adoram as Caçadas de Pedrinho… Nunca, NUNCA encontrei nem uma só criança que tivesse visto preconceito ou construído preconceito ou se tornado racista por viver as aventuras com o bando do sítio do Picapau Amarelo, com a sempre muito querida tia Nastácia, seus bolinhos…  sua sensatez… suas tiradas engraçadas… Os argumentos do parecer do CNE esquecem a figura mais importante: o leitor! No fundo, são adultos que, ao contrário do que pretendem, criam, eles mesmos, preconceitos na cabeça das crianças. Fico pensando se não será isso que aconteceria quando professores alertassem crianças, envolvidas emocionalmente nas aventuras do Sítio, para questionamentos e reflexões sócio-históricas sobre a negritude de tia Nastácia, para as comparações e metáforas que nada ou pouco têm a ver com a negritude dela (por exemplo, não se poderia dizer que Pedrinho ou Narizinho ou até Dona Benta subiu no pau de sebo como um macaco = com a agilidade de um macaco? É preconceito contra o macaco?  E dizer que o macaco é “de carvão” não é apenas uma menção à cor, que não diminui ninguém? É preconceito contra a cor negra?). Fico pensando também no terrível problema que se cria para a escolha de livros para as bibliotecas infanto-juvenis: que “limpeza” teria de ser feita! Ou que chateação “contaminar” os livros com advertências sobre a possibilidade de alguém ver aqui ou ali preconceito! E orientar os professores a interromper a fruição literária e o prazer da leitura com informações que fogem aos objetivos da formação do leitor literário! E os autores de literatura infantil? Vão ter de escrever cuidando a cada passo de evitar aquilo que talvez algum fundamentalista possa vir a considerar como atitude preconceituosa? É preciso deixar pelo menos a literatura longe da censura e do patrulhamento! É preciso não pedagogizar a leitura literária!” (Magda Soares)

Esta crônica foi originalmente publicada no site Primeiro Programa, em 31/10/2010.

2 Comentários para “Será que estou lendo o que estou lendo?”

  1. Ao ler seu belo texto, e também o de Magda, mais uma vez, Vivina, depois de tantas outras, senti imensa gratidão pela sorte de ter sido seu aluno. De ter aprendido tanto com você, nas salas de aula do Colégio de Aplicação, na sala da sua república na Fernandes Tourinho com Espírito Santo (ih, será isso mesmo?), e depois pela vida afora.
    Que imensa sorte você teve de ter sido aluna de Magda Soares, de Ângela Vaz Leão. Que imensa sorte tivemos nós de termos sido alunos seus, de Dona Beatriz, do professor Hélcio.
    Que imensa pena que os garotos de hoje tenham professoras como essa aí, que, com o trôpego raciocínio racialista destes tristes tempos do lulo-petismo, projeta os fantasmas que tem em sua própria cabeça até mesmo em “Caçadas de Pedrinho”.
    Mas ainda tenho esperanças. Não dá para acreditar que a imbecilidade possa vencer a inteligência.
    Um abraço agradecido.
    Sérgio

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