Trololó

Decididamente, o período de transição da presidente eleita Dilma Rousseff não começou bem. Nem para ela – que assiste a brigas entre partidos aliados, com graus de virulência acima do esperado, e até já teve, antes mesmo de pensar na formação do novo governo, de se desfazer de gente da equipe acusada de corrupção -, nem para ninguém. Nas duas primeiras semanas pós-eleição foram despertados demônios que voltaram a infernizar o país, entre eles a CPMF, hipóteses de alterações na lei de responsabilidade fiscal e uma orgia geral por aumento de salários nos altos escalões dos três poderes.

Em todos os casos, com o contribuinte pagando o pato. Como sempre.

Mas se o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não teve peito para bancar a discussão sobre o renascimento da CPMF, travestindo-a como uma reivindicação dos governadores, o mesmo não fez com o aumento dos provimentos. Ao apelar pela aprovação de reajuste para a sua sucessora, Lula abriu a porteira, dando metros e mais metros de corda para que todos cobrassem o seu quinhão. Uma conta que pode elevar em 14,8% os vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), e, a partir daí, reajustar todos os magistrados e subir para valores de até R$ 28 mil os salários de senadores e deputados, com efeito dominó nos 27 legislativos estaduais e nas mais de 5,5 mil câmaras municipais de todo o país. Projetos nesse sentido já tramitam no Congresso, e agora, depois do sinal de Lula, passam a ser defendidos sem qualquer pudor.

Dilma, por sua vez, aproveitou a deixa para dizer que nada quer para ela, mas sim para os seus ministros. “Alguma coisa tem de ser feita em relação ao salário dos ministros, porque caso contrário nós não vamos ter ministros para ser ministros do Brasil”, disse ela, durante a sua primeira viagem ao exterior como presidente eleita.

Sem levar em conta o tropeço na construção da frase, já que não se importam ministros de outros cantos do planeta para serem ministros no Brasil, Dilma quer fazer o país crer na falácia de que um ministro de Estado recebe apenas os R$ 11,7 mil que lhe são atribuídos no holerite. Ela própria recebia mais do que o dobro disso para participar de conselhos de administração de empresas estatais, alguns deles, como o da Petrobras, que ela presidiu, com o pagamento de mais de R$ 5 mil por reunião. Sua sucessora, Erenice Guerra, nome que ela procura apagar da memória e que definitivamente quer que o país esqueça, recebeu quase R$ 34 mil para participar de cinco reuniões do conselho do BNDES no ano e exatos R$ 5.122,00 por reunião do Conselho de Administração da Eletrobras, onde também está o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci.

Há espaço para todos. Um dos recordistas é o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, com assento em vários dos mais disputados, como o do BNDES, que também abriga Miguel Jorge, do Desenvolvimento Econômico, e Carlos Lupi, do Trabalho. Dirão alguns que os conselhos e suas rechonchudas remunerações complementam o salário de um ministro. Mas é inimaginável, para não dizer um acinte, permitir que conselhos administrativos cumpram esse fim.

Um dos argumentos da presidente eleita para reivindicar o reajuste é exatamente o de que os salários dos ministros estão defasados em relação ao mercado. Isso é fato. E não só no Brasil. Na maioria dos países desenvolvidos a remuneração da atividade pública nem mesmo se aproxima da dos dirigentes das grandes corporações privadas. A natureza da coisa pública é outra e, embora os ganhos devam ser dignos, jamais se equivalerão aos daqueles que competem por lucro. Sem falar no caráter político da atividade, da carreira e do prestígio pessoal. Se o salário não é lá estas coisas, quando um ministro migra para o setor privado – e no Brasil a quarentena é nula ou quase mínima – aumenta, e muito, seu valor de mercado.

Ou seja, ao fim e ao cabo, ao contrário do que Dilma quer fazer crer, ser ministro compensa. E ela, mais do que ninguém, sabe disso.

Sabe também que a conta será depositada no colo do contribuinte. O resto é trololó.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 14/11/2010.

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