É duro brincar nos tempos do politicamente correto

Politicamente correto, na época de Monteiro Lobato, era um deputado, um senador, que agia com correção. Hoje, é uma forma de patrulhamento à lupa de impropriedades existentes, ou supostas, nas manifestações humanas.

Tenho medo de dizer por aí que jogo rouba-monte com meus netinhos. Rouba-monte? Não faltará quem considere o nome um estímulo a uma futura carreira de crimes. Para evitar o risco, estou pensando em mudar para “apropria-se ludicamente do monte”.

“Vovô, vamos jogar apropria-se ludicamente do monte?” Talvez pudesse ser simplificado para ALM. “Vovô, que tal uma partida de ALM?”

Outro receio é que minhas netas resolvam brincar de cabra-cega. Não vou nem discutir. Já estou chamando o jogo de cabra não-vidente.

No jogo da amarelinha, a criança tenta vencer casas numeradas desenhadas no chão. É da época de Monteiro Lobato, o que aumenta as suspeitas sobre o nome. Amarelinha pode fazer supor qualidade inferior da raça nipônica.

Talvez pudesse ser jogo da vermelhinha. Mas como ficam os descendentes dos índios pele-vermelhas americanos?

Melhor eliminar qualquer cor. Proponho jogo da corzinha não especificada.

 Está claro que cantigas e brincadeiras antigas não escaparão da patrulha. “Bicho papão, sai de cima do telhado/Deixa esse menino dormir sossegado.”

Bicho papão? Evidente conteúdo erótico. Por ter na mira uma criança, já se trata de pedofilia.

A solução poderia ser algo como “bicho deglutidor”, embora o mais seguro fosse chamá-lo de avantesma.

E a musiquinha: “Atirei o pau no gato-to-to, mas o gato-to-to não morre-rre-rreu”. A maldade não se limita ao atentado contra um animalzinho indefeso. O “mas” indica a frustração por não ter conseguido eliminar a pobre criatura. Solução: banir a música para sempre.

Se depender dos patrulheiros, tudo terá que ser revisto e esterilizado. O símbolo da campanha poderia, por fim, ser um personagem muito querido de Monteiro Lobato. Um portador de necessidades especiais, o Saci-Pererê.

Novembro de 2010 

4 Comentários para “É duro brincar nos tempos do politicamente correto”

  1. cabra visualmente prejudicada seria ainda mais adequado :)
    agora, o saci-pererê acho que não é boa escolha: tudo bem que é afro-descendente e portador de necessidades especiais, o que certamente o qualifica, mas ele é uma criança que anda sempre com um cachimbo aceso. é um claro incentivo ao tabagismo infantil!

  2. E isso que o Valdir nem esgotou todas as cantigas infantis. Das cirandas do Villa-Lobos, por exemplo, não sobra uma se passarem pela patrulha do politicamente correto. Tristes tempos…
    A coisa anda tão feia que não dá mais nem pra ter opinião. Se eu te contar que semana passada algum anônimo, devidamente protegido pelo véu do anonimato, teve a desfaçatez de entrar no meu blog pessoal (um bloguinho modesto que eu tenho pra contar as coisas daqui dos Estados Unidos) pra me acusar de homofóbica e ainda insinuar que os gays financiam com os seus impostos o trabalho que eu “acho que faço com louvor”. Quer dizer, sou homofóbica E incompetente! Detalhe: NADA naquele blog sequer faz referência a homossexuais. Provavelmente foi alguém que pescou em algum blog alheio um comentário meu em que eu tava dizendo que se as leis que já existem fossem cumpridas, não precisaria de lei da homofobia, nem Maria da Penha, nem qualquer outra lei especial pra garantir o bem-estar de determinados grupos (afinal somos – ou deveríamos ser – todos iguais perante a lei). Disso se conclui, obviamente, que eu sou homofóbica! Show de dedução e show de agressão gratuita pra cima de mim, por conseqüência.
    Enfim… tristes tempos.

  3. O tal “politicamente correto”, que ganhou um maior peso no Brasil a partir da Era Bush II – A Missão, é já uma tradição: a ditadura perseguiu Sófocles, Celacanto (personagem do National Kid) etc.

    Atualmente, se der opiniões diversas, serei considerado o pior petista-reaça-comedor-de-criancinhas do mundo…

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