Chico, gênio da música, total nulidade em política

Então o Chico Buarque vai votar em Dilma. Opa! Mais um motivo para não votar em Dilma.

Não que seja necessário mais um motivo para isso – já existem algumas centenas, e seguramente ainda seremos brindados com outras dezenas, até outubro. Mas é mais um.

Chico Buarque é um grande artista, um dos maiores compositores não da música brasileira, mas do mundo. Seu extraordinário talento, sua produção riquíssima já asseguraram a ele um lugar de honra no panteão dos maiores, ao lado de Noel, Caymmi, Luiz Gonzaga, Jacques Brel, Sergio Endrigo, Bob Dylan.

Como raciocínio político, no entanto, Chico Buarque é o zero à esquerda, a total nulidade.

O que, a rigor, não chega a surpreender. Ser grande artista não implica necessariamente ter a capacidade de raciocinar bem em termos de política.

Às vezes acontece de grandes artistas serem também capazes de ter boa visão e ação políticas. Não é necessário, mas acontece. Joan Baez, por exemplo, tem uma fantástica coerência em suas ações políticas, ao se manter firme contra todos os tipos de ditaduras, definam-se elas como “de esquerda” ou como “de direita”. Sergei Mikhailovich Eisenstein é outro bom exemplo. Um dos maiores criadores da história do cinema, um dos gênios que estabeleceram a gramática da então  arte recém-chegada, uniu-se, em seu entusiasmo jovem, ao que parecia ser a luta pela criação de uma sociedade nova, mais justa, mais igualitária; depois amadureceu, compreendeu o que acontecia à sua volta, e no fim da vida fez filmes denunciando, ainda que muito nas entrelinhas, como se faz em regimes onde a censura impera, a ditadura stalinista.  

Pete Seeger demorou pra burro, mas acabou reconhecendo a obviedade, e também renegou o stalinismo. Pablo Milanés também demorou, mas finalmente avançou e uniu sua maravilhosa voz aos que pedem mudanças na caquética ilha caribenha, o Parque dos Dinossauros dos que não conseguiram ir além de 1917. Até Silvio Rodriguez entrou no coro, depois de muita demora.

Chico, coitado, é do time de Niemeyer, o que parou de pensar faz tempo, só esqueceu de puxar a lápide.

Está lá, esplêndido colosso, parado no tempo e no espaço, como se não tivesse havido sequer Kruschev e o reconhecimento dos crimes absurdos do stalinismo.

Para ele não houve a queda do muro. Na verdade, para ele sequer houve o muro – ou então, se houve, foi, como na cabeça ensandecida da mãe do protagonista de Adeus, Lênin, para impedir que os moradores das decadentes democracias burguesas procurassem o refúgio seguro da República Democrática da Stassi – e, caso a Stassi falhasse, tínhamos sempre a KGB, ou os tanques do Pacto de Varsóvia.

Para ele Fidel Castro e sua ditadura assassina são uma maravilha. Ele gosta de Lula, o apedeuta que posa ao lado de Fidel com sorriso de colegial ao lado do artista mais sensacioanal de sua geração.

A lápide, a lápide

O mundo girou, a Lusitana rodou, e Chico, gênio musical, ficou lá paradão, esplêndido colosso, exatamente do jeitinho que era quando faltava às aulas na FAU, nos anos 60. Ainda bem que faltou às aulas na FAU, porque fez sambas maravilhosos, mas, cacilda, parar no tempo e no espaço, que nem o Niemeyer, o que só esqueceu de puxar a lápide e ainda por cima escreveu ou pelo menos assinou, recentemente, um artigo dizendo que Stálin foi um dos maiores estadistas da História??????

Parece que Chico disse que vai votar em Dilma porque gosta de Lula, embora Dilma ou Serra dêem no mesmo. Digo parece, porque pode ser tudo uma grande armação da mídia vendida ao imperialismo ianque, é claro.

Bem. Se não for uma grande mentira da mídia comprada pelos dólares de Washington (ou de Nova York, vá lá), então é bem interessante, porque me lembro de uma entrevista de Chico a uma dessas publicações “revolucionárias”, “de esquerda”, a Caros Amigos, teúda e manteúda por anúncios do governo Lula e suas estatais, dizendo estar decepcionado com Lula, porque Lula não mudou tudo isso que estava aí, e acabou ficando igual a Fernando Henrique.

Se Chico acha que Lula é igual a Fernando Henrique, deveria então estar votando em Plínio de Arruda Sampaio, que acha exatamente isso, e prega o fim do “neoliberalismo” que já dura há quase 16 anos, e promete, se eleito, mudar tudo isso que está aí.

Mas Chico anuncia que vai votar em Dilma, porque gosta de Lula.

Chico comprova, com suas próprias palavras, que, em matéria de política, não consegue somar um mais um.

Em matéria de política, o maior compositor popular brasileiro dos últimos 60 anos é o zero à esquerda, a total nulidade.

Tempos atrás, com base em testemunhos de seus compatriotas cariocas, Regina Lemos garantia que Marieta, questionada a respeito de uma opinião política de Chico, foi taxativa: “O Chico não entende coisa nenhuma de política; o Chico sabe fazer samba, e pronto”.

Não dá para garantir que Marieta disse isso – mas que tem toda lógica, lá isso tem.

Que ele vote em Dilma. Mais um motivo para eu não votar nela.  

Está proclamada a independência do Nordeste

P.S. rapidinho: “Em Vidas Secas,” – ensinou Dilma – “está retratado todo o problema da miséria, da pobreza, da saída das pessoas do Nordeste para o Brasil”.

Putzgrila: Dilma transformou em realidade o sonho da canção de Bráulio Tavares – tornou o Nordeste independente!  

Será que vão me exigir passaporte e visto de entrada da próxima vez que eu quiser ir ao Nordeste?

Questão importante: a Bahia, no mundo da Dilma, ficaria ela no Nordeste ou no Leste? Pergunto porque, pô, não ir ao Nordeste já seria duro. Mas ficar sem poder ir à Bahia, depois de mais de dez anos passando as férias na Praia do Forte… Ah,  não, isso não.

Postado em 5/5/2010

7 Comentários para “Chico, gênio da música, total nulidade em política”

  1. Sérgio Vaz, brilhante seu artigo como prosa, mas pergunto o seguinte: Chico não entende nada de política, ou tem convicções diferentes da sua?
    PS. Não sou eleitor de Dilma.

  2. Boa pergunta, Valdir.
    Claro, quando alguém tem convicções diferentes das nossas, há sempre a tendência de considerar que essa pessoa não entende nada.
    Então, em parte, pode ser, sim, que eu pense que Chico não entende nada de política porque tem convicções diferentes das minhas.
    Mas acho que no meu textinho de jus sperneandi (que não é brilhante, nada, mas tudo bem, deixa pra lá) consegui mostrar alguns pontos que justificam minha afirmação de que meu, seu, nosso ídolo não entende nada de política:
    1 – Num mundo em profunda modificação, manter exatamente a mesma convicção política ao longo de meio século indica incoerência – ou falta de familiaridade com o tema;
    2 – Dizer que vai votar em b porque gosta de a também não me parece um argumento muito sólido;
    3 – Estar convicto de que é preciso mudar tudo isto que está aí, e votar na candidata escolhida por um sujeito que não mudou nada do que estava aí não me parece coisa de quem tem bom raciocínio político. Até porque existe um outro candidato que promete mudar tudo isto que está aí.
    4 – Acho que Marieta sabe o que fala.
    Abração.
    Sérgio

  3. O tolo do Chico é um romantico. Este problema não é só dele; a auto indicada elite intelectual brasileira também vive a imaginar utopias e líderes carismáticos, enquanto fala de suas cátedras convenientemente afastadas da realidade do dia a dia.

  4. Cada paralelepípedo da velha cidade esta noite, deve estar com vergonha do Chico…Putz!
    ATENÇÃO: vendo toda a minha coleção de discos do Chico Buarque!!… baratinho!

  5. Brincadera… não vendo meus cd’s do Chico por nada desse mundo… mas que estou desapontado…lá isso estou demais!!

  6. Hêhê… Também não vendo os meus, não. Até comprei os três primeiros, que saíram agora nessa coleção que a Abril lançou. A RGE não havia lançado em CD com as capas e o repertório original; tinha lançado CDs com capas diferentes e as músicas fora da ordem original. Então comprei agora.
    Mas confesso: não tem me dado prazer ouvir Chico. Às vezes, quando entra uma música dele no IPod, no shuffle, pulo para a música seguinte.
    Embora eu saiba que o certo é separar a arte da vida pessoal do artista, mesmo sem querer – confesso – eu misturo.
    Um abraço.
    Sérgio

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