Dois recados

Em 1991, segundo ano do governo Collor, eu escrevia para um jornal de Belo Horizonte. Esta crônica é daquela época. Submetida a um teste de antiguidade, penso que continua valendo nestes nossos dias atuais, com governantes polêmicos, contraditórios, nada edificantes.

Gaúcha, cabelos brancos, ela mora em Belo Horizonte. A rua não sei, nem o bairro.

Há poucos dias, aqui em São Paulo, recebi uns recados dela.

Dona Eugênia quer que eu saiba que ela costuma ler essas crônicas com a assiduidade com que as publico.

Gosta mais de umas que de outras, claro, mas se tivesse meu telefone, telefonaria quando me demoro um pouco mais na figura do presidente collorido, bem vestido e melhor penteado. Aquele cujo governo não impõe, propõe.

Se eu tivesse o telefone de Dona Eugênia, haveria de lhe dizer que a melhor qualidade de certas crônicas talvez não se deva ao talento da autora, mas à exuberância do personagem, pródigo não apenas em pensamentos, palavras e obras, como aprendíamos nos catecismos dos anos 50, mas – sobretudo – em omissões.

Dona Eugênia, simpaticamente curiosa, quer saber como sou, do que gosto:

— Será que ela tem aquele jeito das mulheres paulistas de quatrocentos anos?

Não, Dona Eugênia, não tenho. Nem poderia. Sei pouco de mim, cada vez menos, mas devo ter um indisfarçável jeito mineiro de quem já conheceu tempos mais tranqüilizadores.

Um jeito assim de roça, com anseios de liberdade, espaço, sossego.

Um jeito também de cidade pequena, com lembranças de festas, barraquinhas, bandas de música, procissões, foguetes. Enterros a pé, café com biscoito, coreto na praça.

Talvez um jeito de Belo Horizonte de antigamente, repúblicas de estudantes, Praça da Liberdade, CEC (Centro de Estudos Cinematográficos), onde nos emocionávamos com Glauber Rocha, Alain Resnais, Nelson Pereira dos Santos – Cine Pathé, que virou cassino, Padaria Savassi, Missa do Estudante, passeatas, greves, pressões, prisões.

Confesso ainda um jeito mineiro e teimoso de sonhar com terra, sementes, plantações. Muitas flores, as cores todas.

Não tem sido fácil conviver – há um ano – com a realidade collorida proposta em preto e branco.

Ah, Dona Eugênia, facílimo é dizer-lhe que gosto de lápis, canetas, caixinhas, relógios, chaves de fenda.

Quando posso, gasto horas sem fim ouvindo Nara Leão, Paulinho da Viola, Lupicínio Rodrigues. Relendo Graciliano Ramos, Ildeu Brandão. Relembrando Winnetou, Judas. Aquele, o Obscuro.

Gasto horas andando a pé, olhando vitrines, tomando chuva. Ou esperando que ela escorra – grossa ou fina – pelo vidro da janela.

Sabe, Dona Eugênia, tenho dois recados. O primeiro diz que empatamos, também quero conhecê-la. O segundo garante que essa crônica é sua.

24/3/1991

As crônicas escritas por Vivina de Assis Viana para o Estado de Minas, entre 1990 e 2000, estão sendo republicadas pelo site primeiroprograma.com.br, graças a um trabalho de garimpo feito por Leonel Prata, publicitário, jornalista, editor, roteirista e escritor, um dos autores do livro Damas de Ouro & Valetes Espada (MGuarnieri Editorial). Com a autorização de Vivina e de Leonel, estou aproveitando o trabalho dele e republicando também aqui os textos.

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