A Espécie Humana. Capítulo 1

o entardecer silenciou as vozes do mundoos últimos pássaros teimosos se aninham em seus berços de galhinhos e plumagemno meio do silêncio eu espero.   

então, sentindo que a vizinha noite está prestes a bater à minha porta, vou lá fora, abro a casinha de lenha, encho três caixas e as trago para a cozinha 

preciso insistir com meu fogolento, ele se vai mostrando, tímido, inquieto, brincalhão, e de meu sopro sai sua vidaele se espalha e iluminaacendo as velas 

meu coração está cheio de ansiedadeolho a porta da casadaqui a pouco entrarão meu filho e meu paio menino e o velho estão para chegar e virão para ficar muito tempopor isso dói meu coração com esse palpitar de estranha e invencível alegria 

porque vem meu filho, por isso limpei vidros e arejei a casaporque vem meu pai, por isso lavei calçadasporque eles se chegam juntos, e desta vez para ficar muito tempo, por isso areei panelas e as transformei em espelhos de encantamentospor que eles se chegam daqui a pouco 

e é com o coração transbordando que corto e descasco legumes e preparo uma sopa, uma sopa cheia de saudades de outros tempos em que nós três estávamos juntospreparo a sopa que nós três preferimos: pedacinhos de mandioca soltos num caldo grosso e de tempero suave 

meus olhos voltam à porta à espera daqueles que virãotudo parou atento em torno a mim: o chão, os vidros, o calor que cresce lento, as panelas como que acesas; só o fogo inquieto não se segura na sua expectativa, dançando e esticando línguas tagarelas à porta de entrada 

eu me sento e esperoquero estar tranqüilo porque sei que estou felizmas meu coração, meu um só coração, para o que sou de pai e de filho, meu coração não aguenta a demora 

enquanto espero, dançam nas paredes as sombras de todas as coisasminha sombra espera 

eis que ladram lá fora os cães lá fora, na barriga da noitelá forae uivam 

esse uivo sobe até os ventos e os ventos empurram as nuvens e um grande buraco no céu mostra a azulada lua nuameu pai e meu filho, iluminados, pairam à minha frenteenrolados em cobertores, com seus sacos cheios da preciosa bagagemavançam cansadosa lua se escondeu novamente e nós três nos miramos com os olhares cheios de alma 

meu pai partiu o silêncio:

estamos aqui, enfime viemos pra ficar muito tempo 

três abraços num só abraçopeguei o menino no colo 

como é que se faz quando se tem saudades?

chora-see prepara-se a volta 

apertei-o mais forte e beijei-o na testa 

entramoseu, para o menino:

quer comer uma sopinha bem gostosa?

nãoestou com sonoquero fazer xixi e dormir 

foi ao banheiro, lavou o rostinho, urinou, puxou a descarga e voltou, aconchegando-se nas almofadas 

preparei o prato de meu paiele se sentou e pôs-se a comersentei-me junto ao menino e o peguei no colo novamenteestive a olhar o velhoiluminado pela metade, com um lado do rosto afogado na obscuridade e tendo a silhueta assim marcada pelo vermelho das chamas do fogão lá atrás, mais parecia uma pintura do espanholno lugar da malignidade, porém, pairava sobre ele uma atmosfera sacra 

de onde saem os pais?, penseie o menino disse:

pai, fale alguma coisa pra alimentar o meu sonho 

vou então falar sobre a verdade 

o pai suspendeu a colher e pôs-se à escuta 

sua sopa vai esfriar se pára pra me ouvir 

ele sorriu e balançou a cabeça, negandoagora era uma escultura olhando para a eternidade 

de olhos nos olhos de meu pai, abraçando o quente corpo de meu filho, principiei:

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Leia o capítulo anterior.

Continua na semana que vem.

ilustração: A casa de Jorge, óleo de Aluísio von Zuben (1997 – 70x40cm)

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