A Espécie Humana. Capítulo 2

há verdades

espalhadas pelo mundo.   

umas escondidas e outras iluminadas e num pedestal.   

algumas cheias de mentiras,

outras contendo uma apenas verdade.   

algumas que vistas daqui são mentiras

mas verdadeiras se vistas de lá.   

há outras que vice-versa.   

e outras ainda, que mentirosas, se vistas de lá ou de cá

por serem verdadeiras só por dentro.   

há as que não o são hoje mas já foram

e aquelas que nunca foram e nunca serão

por serem apenas anseios de verdade.   

há as que são mentiras se viradas ao avesso

e aquelas rebeldes

verdadeiras por todos os modos.   

houve um tempo em que a verdade precisava

de deuses

ou de deus

para se impor.   

e veio o tempo em que a verdade cresceu

e apareceu inusurpada

como sempre fora.   

há verdades peregrinas

que vêem em busca do homem que busca

e as há também fincadas no seu lugar

à espera daquele que está por chegar.   

há as que dormem e acordam mentiras

e há as irrequietas que não dormem nunca,

de medo;

essas são esquecidas no meio das teias da História.   

há as que são brinquedos nas mãos das criaturas

e há as que ferem e machucam.   

há as que se fingem de mentira

e conseguem enganar.   

e há as que se fingem de mentira

e são facilmente desmascaradas

bem como há aquelas

carregadas de dignidade

que não aceitam tais brincadeiras.   

umas precisam de jóias e flores e adereços

e outras se mostram nuas.   

há as amargas e difíceis

e outras doces.   

há as minhas

e as tuas

e as nossas

e as deles

e as de poucos

e as de tantos

e as de todos

e as que não pertencem a ninguém.   

há verdades

espalhadas pelo mundo. 

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Leia o capítulo anterior.

Leia o capítulo O.

Continua na semana que vem.

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