Marina e as cartinhas

Marina queria brincar de cartinha, quando fomos vê-la na terça, 28. 

Pegou um lápis que estava colocado junto de um envelope de carta, tamanho ofício, em cima da bancada vermelha da sala, pegou também um DVD, e levou para o sofá. Logo que entendi que o DVD era para servir de apoio para ela escrever, me ofereci para ir buscar mais papel, e ela aceitou. Enquanto ela ficava com a avó na sala, fui ao quarto dela, peguei um caderno de desenho grande, duas caixas de lápis de cor (a rigor, uma de lápis, uma de canetinhas).

Cortei uma página do caderno de desenho em dois pedaços, e cada metade ficou pouco maior que uma capa de DVD. Perfeito para se escrever uma cartinha.

Marina “escreveu” numa das folhas – traçou várias linhas. Depois, seguindo o exemplo da avó, que tinha usado o outro pedaço da página para escrever também uma cartinha, dobrou aquela folha e, na parte já dobrada, “escreveu” uns traços, que relatou para nós: “De Marina para vovó”.

Pediu outra folha para fazer outra carta – e aí a vovó teve a idéia de dizer que iria levar a carta dela para o Correio, transformando o banco que fica junto à porta da sala para a cozinha em agência do Correio. Depois de um tempinho, Marina pegou uma cartinha dela e uma minha e levou para o Correio.

Peguei então as duas cartinhas, saí com elas do apartamento, fechei a porta e, do hall de entrada, toquei a campainha.

Ela veio abrir a porta com a vovó atrás. Eu disse: – “Oi, Dona Marina, cartinhas para a senhora!”, e entreguei.

Marina pulou de alegria, de encantamento, de excitação.

Vovó sugeriu que ela agradecesse ao carteiro, ela agradeceu rapidinho e rapidinho fechou a porta na minha cara, quer dizer, na cara do carteiro, e saiu correndo até o sofá para escrever mais cartas.

Voltei, reassumi a condição de vovô, cortei mais folhas ao meio, e ficamos os três a escrever cartas.

Vovó foi ser a carteira uma vez.

Eu fui carteiro mais umas três ou quatro vezes.

A cada vez que o carteiro tocava a campainha, a pequena vinha correndo e abria a porta com a expressão de alegria radiante, absoluta.

E escrevia cartinhas, enquanto a gente escrevia as nossas.

Sofisticou: passou a usar uma canetinha de uma cor para fazer cada grupo de figurinhas a representar a escrita.

E ia juntando os papéis dizendo que aquela era sua coleção de cartas. E dava gritinhos de felicidade.

A mãe chegou do trabalho e – ô crueldade! – a pequena nem deu bola para ela, afundada na brincadeira. (Às vezes acontece isso: Marina entra tão de corpo e alma numa brincadeira, ou num DVD, que, na hora em que a mãe chega do trabalho, cansada, exausta, exaurida, sedenta por um abraço, a pequena nem dá bola. O coração do avô dói muito nessas horas, de peninha da filhinha dele, mas fazer o quê?)

A mãe, a avó e o avô tentaram levá-la a, passada a brincadeira, dar um tempo e se sentar para a sessão de DVD. (Há um ordenamento um tanto rígido nos horários nos dias de semana: jantar, depois um pouco de brincar, depois DVD, tempo marcado, e então banho.)

Preferiu abrir mão do DVD para brincar mais tempo. E ainda fez choraminguinho quando vô e vó disseram que era hora de irem embora. Tão absolutamente encantada estava com a brincadeira que ela mesma havia inventado de escrever cartinha.

***

Fê me contou depois que a idéia da brincadeira teve origem na manhã daquela terça.

Ainda de manhã, Marina pediu para a mãe um papel para desenhar. Como a mãe estava com um envelope na mão, deu para ela, e sugeriu que ela usasse como suporte uma caixinha de DVD que estava ali bem à vista.

Foi quando chegou a Cau. Olhou a pequena desenhando num envelope, e perguntou se ela estava escrevendo uma cartinha pra saúva.

Marina adorou a idéia – e, diante do relato da mãe, de que Marina adorou a idéia, vejo daqui a cena com absoluta nitidez.

Marina é assim. Você fala alguma coisa, dá uma idéia, uma sugestão, uma proposta, e ela fica por uns dois, três segundos com o rosto paralisado, e você vê que ela está pensando, está processando – dá até, se a casa estiver em silêncio, pra você ouvir os neuroninhos dela rangendo suavemente, deliciosamente, ao executar seu trabalho. Aí os olhinhos dela brilham. Mas brilham de verdade, soltam faíscas. E ela vai abrindo um sorriso lindo – e em mais dois segundos está pulando de alegria e excitação, curtindo a idéia e querendo passar da idéia à ação.

Então, segundo me contou a mãe, Marina adorou a idéia sugerida pela Cau. Respondeu que sim, e ficou dizendo que estava escrevendo uma cartinha pra saúva.

No envelope, a Cau escreveu o nome dela em maiúsculas – CLÁUDIA. E Marina ficou um tempinho “escrevendo” MARINA no envelope.

***

Toda criança deve ser assim – não é que Marina seja especial, não é isso, de forma alguma. Mas Marina tem uma memória impressionante. Uma coisinha que a gente fala a faz lembrar de quando a mesma coisa foi falada em outra situação. Uma coisa puxa a outra.

A brincadeira de escrever cartinha certamente ficou rolando no fundo da cabeça dela durante a tarde, enquanto estava na escolinha.

Assim que terminou de jantar com vovô e vovó babando ao lado e diante dela, e chegou a hora de brincar, e perguntei “Do que você vai querer brincar?” – zupt, pláct, zum! Deu vontade de brincar de novo a brincadeira daquela manhã.

***

Foi da Mary, é claro, e não minha, a idéia, surgida ainda enquanto voltávamos da casa da minha filha: vamos escrever cartinhas pra Marina e botar no Correio!

Fui à agência do Correio na quarta.

As cartinhas chegaram hoje, sexta.

Minha filha disse que Marina a-do-rou.

Primeiro ficou surpresa. Depois ficou muuuito feliz. A foto lá do alto deste post mostra isso.

Ô criaturinha doce, meu Deus do céu e também da terra…

***

Caramujo que mora em Ubatuba

Escreveu uma cartinha pra saúva

A saúva respondeu com um desenho

Caramujo coloriu com muito empenho

***

Vivendo e aprendendo. A canção que Marina nos apresentou, e que aprendemos a cantar com ela e com o Palavra Cantada, “O Caramujo e a Saúva” (e a vovó sempre canta como “caranguejo que mora em Ubatuba”, só pra ver Marina sorrir e dizer “não, vovó, é caramujo!”), é na verdade… “Polimita y Chivo”! De Rita Del Prado Xóxhitl Galán e Rodolfo Fito Hernández.

A letra que todos, absolutamente todos os avós de crianças nascidas nos últimos dez anos conhecem, cantada por Paulo Tatit e Sandra Peres, é uma versão do original em espanhol, assinada por Daniel Ayres e Mariana Pittier.

Assim como todas as letras de Saltimbancos, o clássico que botei pra mãe de Marina ouvir quando ela tinha dois anos de idade, dois olhões de jabuticaba e um monte de cachinhos irresistíveis, e nós todos botamos para Marina ouvir desde sempre, são não originais de Chico Buarque, e sim de Luiz Enriquez e Sergio Bardotti, brilhantemente vertidos para o Português por Chico.

Mas essa coisa das músicas é outra agenda do vô, não esta aqui. Esta aqui é só para falar que a pequena que mora ali perto escreveu um monte de cartinhas, que nem o caranguejo que mora em Ubatuba.

Caranguejo não, vovô! Caramujo!

31/3/2017

Um Comentário

  1. maria helena
    Postado em 31/03/2017 às 11:22 pm | Permalink

    Rio de Janeiro, 31 de março de 2017

    Querida Marina

    Pirulito que bate bate,
    Pirulito que já bateu,
    Quem gosta de mim é ela
    Quem gosta dela sou eu.

    Um beijo da sua amiguinha Maria Helena

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Textos » Marina e “Blackbird” em 17/04/2017 às 7:05 pm

    […] dia em que fez 4 anos e 1 mês, o sábado de Aleluia, Marina ouviu três vezes em seguida Paul McCartney cantar “Blackbird”. Concentrada, focada. Acho que […]

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