Ninguém manda nela

A última vaga reaccionária que anda a ver se acerta caneladas na liberdade artística chama-se “apropriação cultural”. Para os seus sicários, certos temas só podem ser tratados por artistas que deles tenham vivência identitária. Só cantaria o fado uma lisboeta branca, só pintaria os deuses indianos um pintor hindu, só um artista negro americano choraria o assassínio criminoso de outro negro por polícias brancos no Minnesota. Continue lendo “Ninguém manda nela”

Justiça às favas

Inconstitucional e impróprio, o pedido feito pelo prefeito Nelson Marchezan Júnior de proteção das Forças Armadas diante das manifestações previstas para Porto Alegre no dia 24, quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) inicia o julgamento do recurso contra a condenação do ex Lula, empolgou o PT. Continue lendo “Justiça às favas”

Admirável mundo novo

Mais uma vez o Brasil é retardatário. Ainda estamos com os dois pés no século XX, tentando responder a uma agenda de reformas necessárias que há tempos deveria ter sido equacionada. A velha polarização esquerda-direita, um anacronismo reduzido à insignificância em países como a França e a Alemanha, ainda dá o tom na política brasileira.  Continue lendo “Admirável mundo novo”

O indissolúvel ménage à trois

Imaginem que Clark Gable, com cósmica bebedeira, espetava o carro a cem metros de um motel manhoso, na companhia de um irresistível par de pernas e de um ilegítimo palminho de cara. O estúdio dele, a MGM do poderoso Louis B. Mayer, mandava-lhe logo um pronto-socorro, Eddie Mannix. Continue lendo “O indissolúvel ménage à trois”

Onze homens e onze sentenças

Com ativismo e atividade intensas, a Corte Suprema do país encerrou 2017 superando a incrível marca de 200 mil casos julgados. Um recorde e tanto se não viesse acoplado a outro absolutamente alarmante: mais de 80% das decisões foram monocráticas, ou seja, com arbitragem de um único ministro. Algumas delas contraditórias, em flagrante desobediência a deliberações do pleno. Continue lendo “Onze homens e onze sentenças”

Foi como abrir a janela e deixar entrar o ar fresco da manhã

Quando leio, aqui e em bons jornais de outros países, que Lula acabou com a pobreza no Brasil, fico perplexa. Como assim, acabou? Deixou de ser pobre um país onde não há creches ou escolas para todos, nem saneamento básico ou água corrente em todos os municípios, ou atendimento hospitalar para seus cidadãos? Pode deixar de ser considerado pobre um país onde encontrar pessoas dormindo nas ruas nem chama mais a atenção? Continue lendo “Foi como abrir a janela e deixar entrar o ar fresco da manhã”

O que há em comum entre Lula e Bolsonaro

Na teoria, o ex-presidente Lula e o deputado Jair Messias Bolsonaro são antípodas. Um está no espectro ideológico da esquerda e outro no da direita. Na prática, a teoria é outra. Há muito mais em comum entre os dois candidatos à Presidência da República, que por ora são os mais bem situados nas pesquisas, do que pode imaginar a nossa vã filosofia. À sua maneira, ambos adotam um discurso sebastianista, vestindo eles mesmos a roupagem do salvador da pátria. Continue lendo “O que há em comum entre Lula e Bolsonaro”

Um branco par de cuecas

“O realismo existe. É uma coisa.” É o que Harry Dean Stanton assevera – que é mais do que dizer – em Lucky, o mais belo filme do ano, garantem os meus olhos, coração e alma, se o velho Harry Dean não me convencesse de que a alma, ao contrário do realismo, não é uma coisa, logo não existe. Qual escola de Frankfurt, qual caneco, se posso também eu asseverar, este filme existe e é uma coisa. Continue lendo “Um branco par de cuecas”

A bolha petista estourou

Um em cada quatro brasileiros sobrevive abaixo da linha da pobreza, 13,4 milhões desse contingente de mais de 52 milhões na miséria absoluta. Os números da Síntese de Indicadores Sociais 2017 do IBGE são assustadores, situam o Brasil para lá do quinto mundo. E destroem o cerne do discurso petista: ao contrário do que propagam, a pobreza se agudizou. Continue lendo “A bolha petista estourou”

Dirceu, Gambetta e Lula

No meu tempo de colégio – é isso mesmo, leitor, e pode dizer: ”mas isso foi há muuuuito tempo” –, o ensino de História era levado a sério. Dizem que nós éramos obrigados a decorar datas e outros detalhes sem muita importância, do que discordo veementemente. As datas nos ajudavam a situar os personagens históricos em seu tempo, o que é muito útil, digam o que quiserem.  Continue lendo “Dirceu, Gambetta e Lula”

Na prática a teoria é outra

“De tal maneira que, depois de feito, desencontrado eu mesmo me contesto. Se trago as mãos distantes do meu peito é que há distância entre intenção e gesto.” O verso do poeta Chico Buarque no seu “Fado Tropical” serve para ilustrar o desencontro tucano no tocante à reforma previdenciária. Continue lendo “Na prática a teoria é outra”

Deambulação maniqueia: o visível e o invisível

Há o visível e há o invisível. Temo que se queixem de algum exagero conceptual nestas crónicas. Ora, eu prefiro ser rude e apontar com o dedo a ser acusado de conluio com qualquer dos falecidos filósofos franceses dos últimos anos. Com um dedo aponto para Greta Garbo, com outro para Marilyn Monroe. Continue lendo “Deambulação maniqueia: o visível e o invisível”