Havia lógica, e até alguma sofisticação política, na estratégia de Flávio Bolsonaro de se apresentar como a face mais moderada do bolsonarismo. Num país que permanece dividido praticamente ao meio, como reiteram sucessivas pesquisas de opinião, o centro de gravidade da disputa eleitoral deslocou-se para os eleitores independentes. Esse contingente, menos ideológico e mais pragmático, tornou-se o fiel da balança. Não se trata de um público entusiasmado, mas de um eleitorado que decide com base em percepções de estabilidade, previsibilidade e rejeição ao radicalismo. Em 2018, migrou para Bolsonaro; em 2022, para Lula. Agora, observa atentamente os dois principais contendores. Continue lendo “As duas faces de Flávio”
O Brasil falha onde tudo começa
É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras. A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa. Continue lendo “O Brasil falha onde tudo começa”
Bigtechs ganham, democracia perde
No dia 5 de dezembro, quando foi ungido pelo pai, Flávio Bolsonaro fixou o anúncio de sua candidatura no alto de seu perfil no X. De lá para cá, sua campanha está correndo solta nas redes sociais. O presidente Lula não fica para trás. Em público, fala à vontade sobre sua disposição de disputar o quarto mandato, com replique das mensagens. Assim como os demais atos de campanha, a propaganda eleitoral na internet só é oficialmente autorizada a partir de 16 de agosto. Mas os pré-candidatos em todo o país pouco se importam com a lei. Sem fiscalização, fazem lives e impulsionam conteúdos. Uma festa com fartos lucros para os bilionários das bigtechs. Continue lendo “Bigtechs ganham, democracia perde”
O voto passa pelo bolso
Lula e sua equipe queimam a pestana para entender por que o bom desempenho dos indicadores da economia, com inflação sob controle e emprego em alta, não se traduz na aprovação do governo. Tampouco produziu, até aqui, uma situação confortável para a disputa presidencial. Ao contrário, a curva de desaprovação cresce e o favoritismo se estreita, indicando um cenário mais competitivo do que o esperado. Continue lendo “O voto passa pelo bolso”
O outsider da vez
O Maranhão é “uma bosta” que precisa de intervenção federal, o “sistema político brasileiro é podre”. Defesa de prisão perpétua e pena de morte legal ou oficiosa (executada por policiais) e até da produção de bomba atômica. Com ideias e falas absurdas, que rendem engajamento nas redes sociais, Renan Santos, do novíssimo partido Missão, é o outsider da vez. Imagina se tornar competitivo com discurso antissistema, lançando farpas para todos os lados e infernizando a vida dos favoritos na disputa presidencial. Filmou-se jogando sal grosso em frente da casa em que Lula morou na infância, em Caetés (PE), e promete “acabar com a raça” de Flávio Bolsonaro – “O traíra tem de morrer”. Continue lendo “O outsider da vez”
O STF perde sua autoridade
No dia 12 de fevereiro, os ministros do Supremo Tribunal Federal realizaram uma reunião fechada para discutir como retirar a Corte do epicentro da crise do Banco Master. Nos diálogos, divulgados pelo Poder360, ficou registrada uma frase da ministra Cármen Lúcia: “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”. A observação encontra respaldo na pesquisa AtlasIntel/Estadão: 60% dos brasileiros não confiam no STF. Continue lendo “O STF perde sua autoridade”
Pega pra capar
Alguém notou no noticiário geral ou econômico que a inflação oficial de 12 meses caiu em fevereiro para 3,81%? Nessa época costumava estar muito acima do teto de 4,5%. Deveria ser manchete nos jornalões e na tevê e não foi. Por quê? Continue lendo “Pega pra capar”
Temporada de troca-troca
Mais de 20 parlamentares mudaram de sigla na primeira semana da janela de transferência partidária iniciada no dia 5 deste mês e que se estende até 3 de abril. Em 2022, a troca de camisa começou com 12 e alcançou 83 parlamentares, 16% dos 513 deputados. O movimento frenético, análogo às negociações de compra e venda de atletas dentro do calendário de transferências do futebol europeu, aponta o desprezo dos políticos com um dos pilares da estrutura da democracia representativa: os partidos. Continue lendo “Temporada de troca-troca”
O grande ausente
Pela primeira vez desde a redemocratização brasileira, uma eleição presidencial se aproxima sem a presença clara de um candidato identificado com o campo do centro-democrático. Ao longo das últimas décadas, mesmo quando esse espaço parecia eleitoralmente frágil, ele sempre encontrou alguma forma de se expressar na disputa. Agora, o cenário é distinto: o centro político, entendido como um campo comprometido com a democracia liberal, com reformas graduais e com a conciliação social, encontra-se sem um porta-voz nítido. Continue lendo “O grande ausente”
O Agente Laranja dá uma força a Lula
Na sexta-feira 13, o Itamaraty rejeitou todas as contrapropostas dos Estados Unidos às sugestões feitas pelo Brasil para ações colaborativas no combate às facções criminosas. No mesmo dia, o conselheiro de Donald Trump, Darren Beattie, que omitiu e mentiu sobre os motivos de sua visita ao Brasil, teve seu visto suspenso. Ainda que a série de nãos brasileiros arrisque a “química” entre Trump e Lula, ela pode provocar uma onda favorável ao petista em meio ao baixo-astral dos últimos tempos. Continue lendo “O Agente Laranja dá uma força a Lula”
Mídia
Fazia tempo que não se via a grande mídia tão alinhada com a extrema direita como agora. Com a rara exceção da Última Hora de Samuel Wainer, de centro-esquerda, nos anos 50 e começo dos 60 do século passado, a imprensa brasileira sempre foi de direita. Mas raramente, só em 1964, de extrema direita. Continue lendo “Mídia”
Favoritismo de Lula em xeque
Autor do livro A mão e Lula: o que elege um presidente, o cientista político Carlos Alberto Almeida é uma voz respeitada por expoentes da esquerda, como o próprio Lula. É de sua autoria a sentença com poder de provocar pesadelos no presidente e em sua equipe: Lula “é favorito para perder”. Continue lendo “Favoritismo de Lula em xeque”
Está tudo muito esquisito
Maior fraude financeira da história do país, o caso Master agudizou na semana passada. Junto com a prisão preventiva do dono do banco liquidado, Daniel Vorcaro, e da suspensão do sigilo dos dados de seus celulares, ambas por ordem do novo relator do caso no STF, ministro André Mendonça, confirmou-se a extensa rede criminosa do ex-banqueiro, com gente graúda de todas as matizes políticas e em todas as esferas de poder. Continue lendo “Está tudo muito esquisito”
Irã, um novo atoleiro americano?
Não há dúvidas quanto ao caráter ditatorial do regime iraniano. Nas últimas décadas, milhares de manifestantes foram mortos pela repressão da teocracia instalada após a Revolução de 1979. Mulheres foram perseguidas por desafiar o código de vestimenta imposto pelo Estado. Algumas chegaram a ser condenadas à morte por apedrejamento, pena que em certos casos só não se consumou graças à pressão internacional. Outras morreram sob custódia policial após serem presas por não usarem corretamente o véu. Também é incontestável que o aiatolá Ali Khamenei consolidou um regime autoritário e intolerante. Continue lendo “Irã, um novo atoleiro americano?”
Às meninas mortas
Os céus se abriram ontem para receber as meninas mortas.
Fazia frio na terra. Continue lendo “Às meninas mortas”
