“Os Trumps parecem uma família boazinha perto do clã Bolsonaro”. Esse foi o título de reportagem da Der Stern, a grande revista semanal de informações da Alemanha, publicada na edição lançada dias antes do primeiro turno da eleição presidencial.
Sobre Flávio Bolsonaro, a revista alemã afirma: “O senador de 45 anos é a personificação do establishment. Ele nunca mostrou nada politicamente, além do sobrenome. Ele é o filho de Jair e, por isso, virou senador. Ele nunca fez nada por conta própria.”
Achei que transcrever o que diz a reportagem da Stern – usando texto do site da emissora Deutsche Welle no Brasil – é bem apropriado para iniciar uma série de compilações de reportagens e artigos mostrando como é um terrível perigo real e imediato a possível eleição de Flávio Bolsonaro no dia 25 de outubro. Fiz diversas compilações assim entre o primeiro e o segundo turnos em 2022, depois de, no primeiro, ter votado em Simone Tebet.
É preciso lembrar, reafirmar: esta eleição, assim como a de 2022, é muito mais que uma escolha entre direita e esquerda. É uma escolha entre escola e clube de tiro. Entre conhecimento, ciência, e ignorância, negacionismo. Entre defesa da natureza, do meio ambiente, da sobrevivência do planeta e o passar o trator. Entre democracia e ditadura.
O que está em jogo é a escolha entre civilização e barbárie.
Como escreveu Míriam Leitão em sua coluna no Globo na terça-feira, 6/10, “o perigo extremo e concreto da eleição do candidato do PL é nova tentativa de golpe de Estado. Flávio segue as mesmas idéias do pai e já disse que é preciso que haja uma intervenção nas instituições.”
A íntegra do artigo vai logo abaixo do texto da DW sobre a reportagem demolidora da revista Stern. (Sérgio Vaz)
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Trumps são “bonzinhos” perto de Bolsonaros, diz revista
DW, 1º/10/2026
(https://www.dw.com/pt-br/trumps-s%C3%A3o-bonzinhos-perto-de-bolsonaros-diz-revista-alem%C3%A3/a-79503289)
A relação da família Bolsonaro com a política brasileira é destaque de uma reportagem na revista alemã Der Stern publicada nesta semana, antes do primeiro turno das eleições presidenciais que têm Flávio (PL), filho de Jair, e o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como principais concorrentes.
“Os Trumps parecem uma família boazinha do subúrbio perto do clã Bolsonaro”, é o título da matéria, que aborda o grande número de membros da família do ex-presidente que resolveram fazer carreira na política.
“Neste 4 de outubro, um total de 18 Bolsonaros vão se candidatar nas eleições brasileiras, entre eles oito pessoas do núcleo da família”, diz o texto, apontando as candidaturas de Michelle Bolsonaro para o Senado; do irmão de Jair, Renato, para deputado federal; de primos e, claro, dos filhos: Flávio (para presidente), Carlos (Senado) e Jair Renan (deputado federal). Eduardo, deputado federal cassado, foi condenado à prisão por tentar coagir a Justiça e vive foragido nos Estados Unidos, mantendo contato com aliados do presidente Trump.
“Não existe nenhum Bolsonaro que não está na política. A não ser a filha Laura, de 15 anos. Sobre o nascimento de uma menina após quatro filhos homens, Jair Bolsonaro, conhecido pela postura machista, disse uma vez: ‘Da quinta vez, eu fraquejei, e nasceu uma menina'”, acrescenta a Stern.
A revista alemã também lembra que outros dez candidatos nas eleições deste ano levam o nome de Bolsonaro, mesmo sem relações de parentesco, para tentar ter mais visibilidade. “Entrar na política brasileira é altamente lucrativo. Isso ocorre, por um lado, por causa dos altos salários, mas mais ainda por causa do dinheiro que os políticos podem colocar no bolso durante os mandatos. Não é incomum que eles virem milionários enquanto estão no cargo”, afirma a revista.
“Na política brasileira há um citado que diz: ‘todos os políticos são ladrões’. Soa como puro cinismo contra a política. No entanto, é bem próximo da verdade”, diz a matéria.
Uma dinastia do tamanho do clã Bolsonaro não tem precedentes na política mundial, acrescenta ainda a Stern. A publicação compara a presença da família do ex-presidente com outras linhagens, como os ultradireitistas Le Pen, na França, e os republicanos Bush, nos Estados Unidos.
No entanto, diz a socióloga Débora Messenberg Guimarães, da Universidade de Brasília, ouvida para a matéria, essas dinastias existem apenas em “amplitude regional e em menor número”. “Oito membros de uma família se candidatarem para uma eleição de uma só vez é um possivelmente um recorde mundial”, aponta Messenberg, citada no texto.
A revista alemã também destaca a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado e a prisão domiciliar do ex-presidente, além das investigações sobre corrupção que rondam Flávio Bolsonaro e as suspeitas de ligações com crime organizado do candidato do PL e de outros membros do clã, o que rendeu a alcunha de “Familícia” aos Bolsonaro.
Outro aspecto abordado é o papel de outsiders e antissistema de Flávio, que a Stern compara com outros políticos ultradireitistas como Donald Trump nos EUA e Javier Milei na Argentina. “Mas, no caso de Flávio Bolsonaro, isso é especialmente grotesco. O senador de 45 anos é a personificação do establishment. Ele nunca mostrou nada politicamente, além do sobrenome. Ele é o filho de Jair e, por isso, virou senador. Ele nunca fez nada por conta própria”, ressalta a revista.
“Lula conseguiu ir de trabalhador de fábrica a presidente. Flávio, de filho de presidente a pretendente à presidência”, diz ainda a Stern.
Por fim, a matéria ainda analisa a predileção da família Bolsonaro por Flávio em detrimento de Michelle, que, segundo o texto, teria mais chances na corrida eleitoral, mas ficou em segundo plano – por causa da postura sexista da família, conclui o texto.
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O risco extremo da democracia
Por Míriam Leitão, O Globo, 6/10/2026.
(https://oglobo.globo.com/blogs/miriam-leitao/coluna/2026/10/o-risco-extremo-da-democracia.ghtml)
Para o Brasil, não há cenários fáceis à frente. Se o presidente Lula for eleito, pode enfrentar crises de governabilidade, a menos que tenha a capacidade de formar uma coalizão diante da direita fortalecida no Congresso. Se o eleito for Flávio Bolsonaro, ele terá nas mãos mais instrumentos para realizar o projeto autoritário do pai: bancadas robustas na Câmara e no Senado, o Supremo Tribunal Federal enfraquecido e o apoio do governo Donald Trump. A ciência política sabe que é no segundo mandato que o projeto autocrata dobra a aposta. Veja-se o caso de Donald Trump. O risco não é de o filho repetir o pai, é de superá-lo.
Só o então PMDB, no começo da redemocratização, teve bancadas maiores do que a que o PL terá na próxima legislatura. Mas o MDB, não tinha candidato competitivo à presidência, e o PL tem Flávio chegando com chances reais de ganhar o pleito no segundo turno. Portanto, será um partido ainda mais forte. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tinha o projeto de ter apenas uma boa bancada para ficar com a parte maior dos fundos partidário e eleitoral. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi eleito por outro partido, o PSL, que usou como carona. Depois é que foi para o PL. O partido nunca teve um projeto ideológico. Preferia ser capaz de se adaptar às circunstâncias.
Se for eleito, Lula enfrentará uma oposição com a força que jamais enfrentou. Uma bancada de 121 deputados e 28 senadores apenas do PL. Para manter a governabilidade e aprovar seus projetos, Lula teria que atrair o centrão e negociar com os parlamentares com os quais seja possível algum diálogo.
A vitória de Lula no segundo turno de 2022 veio com o voto de eleitores progressistas que não se identificavam como petistas, e do movimento de personalidades que fizeram parte dos governos do PSDB, que o consideraram a barreira contra o risco de golpe. Tanto havia perigo de um ataque às instituições, que houve o atentado em 8 de janeiro. Esse grupo depois foi desprezado. O presidente não fez movimentos ao centro. E parte dos eleitores que se identificam com esse grupo pode ter simplesmente deixado de votar. Esse é o cálculo que alguns especialistas fazem para explicar o fato de Lula ter tido três milhões de votos a menos em 2026 do que em 2022.
Lula terá que fazer um caminho muito longo para ser reeleito em 25 de outubro, dado que chegou em segundo lugar, dois pontos percentuais atrás de Flávio Bolsonaro. Terá que recuperar os votos perdidos, terá que convencer uma parte do eleitorado que optou pelos outros candidatos, e trazer de volta às urnas quem simplesmente se absteve por falta de interesse em qualquer um dos postulantes. Como ele fará isso não está claro. Ontem, em entrevista ao Estúdio i de Andréia Sadi, o presidente do PT, Edinho Silva, admitiu a ausência de material de campanha no primeiro turno e disse que será resolvido. Mas não explicitou nenhum outro movimento de mudança na campanha. Ele disse que faltou o confronto entre os candidatos no primeiro turno, que desta vez Flávio Bolsonaro não poderá fugir disso, e anunciou a ida de Lula aos debates.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entrevistado no mesmo programa, afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro vai participar ativamente do mandato de Flávio Bolsonaro. Falou que o senador “aprendeu” com o pai e seguirá as mesmas diretrizes sobre como montar equipe e de que maneira governar. Em outras palavras, um governo de Flávio seria exercido por Jair, que sempre mostrou mão de ferro para comandar o clã. Mesmo preso, foi de Jair Bolsonaro a escolha de Flávio Bolsonaro para disputar a presidência. O perigo extremo e concreto da eleição do candidato do PL é nova tentativa de golpe de Estado. Flávio segue as mesmas ideias do pai e já disse que é preciso que haja uma intervenção nas instituições.
Lula precisa mudar radicalmente a campanha para ter alguma chance de vitória. Desde a redemocratização, nenhum candidato que ficou em segundo lugar na disputa para a presidência ganhou a eleição. Caso eleito, Lula terá uma outra batalha para montar a coalizão. Flávio Bolsonaro, se eleito, terá provavelmente o seu chefe de campanha, Rogério Marinho, na presidência do Senado e uma tropa de choque para realizar o projeto antidemocrático da extrema direita.
8/10/2026

