Quando o assunto se trata de formação cultural e poetas, sempre digo que os seres da minha geração foram domesticados com a Cartilha “Caminho Suave”.
Com esse inocente livrinho aprendemos a ler e o mundo se abre aos nossos pés. Faltava apenas um pouco de treino.
No Chile eles tinham o Pablo Neruda, em Portugal o Fernando Pessoa. Aqui nós tínhamos o Pelé. Quando ele estava de boca fechada era um poeta, assim descreveu o jogador Romário. Mas, para mim, o maior alicerce cultural foram os para-choques dos caminhões.
Meu pai tinha um amigo que frequentemente nos convidava para ir à cidade de Monte Alto. Era um porre, longe pra caramba, nunca chegava. Lá eles mantinham a tradição de fazer aqueles tapetes de flores em Corpus Christi. Uma trabalheira danada que eu, garoto, não entendia. Segue o mesmo princípio de arrumar a cama: bobagem, a noite você irá desmanchar tudo novamente. É como enxugar gelo.
Eu nunca havia pensado em andar com mais nada pendurado no corpo a não ser o que já veio de fábrica. Porém, foi por conta dessas viagens que eu quis ter meu primeiro relógio. Justamente para saber quanto do meu tempo foi perdido nesse trajeto e que sem dúvida, a melhor parte eram os para-choques.
Era ali que a gente treinava a leitura e interpretava grandes obras em uma frase.
Sinceramente, eu não viajava para conhecer novos lugares. Se não fosse praia, pouco me importava se o lugar de fato existia. Eu ia mesmo para afiar minha leitura nos para-choques.
Era uma cultura popular, rivalizando com a literatura de cordel.
Das frases infantis até as mais cabeludas, que aos 6 ou 7 anos você não sabia interpretar e inevitavelmente perguntava o significado aos outros passageiros.
Muitas vezes deixando o constrangimento no ar ao explicar o contexto daquele mini poema.
Frases religiosas ou inocentes como: “Dirigido por mim, mas guiado por Deus” ou
“Feliz foi Adão, não tinha sogra nem caminhão”, aos poucos iam tornando-se mais apimentadas com o passar dos quilômetros.
Lembro ainda daquelas: “Vale mais um na mão do que dois no soutien” ou “Minha namorada é maior do que eu, mas deitado é tudo igual” ou ainda as mais classudas como “Enquanto eu tiver língua e dedo, mulher nenhuma me põe medo”. Chega a lembrar o poeta Joaquim Osório Duque-Estrada.
Com o veículo em alta velocidade, pedir uma explicação do que certas frases significavam era colocar em risco os ocupantes do habitáculo.
Eu memorizava tudo por precaução, afinal nunca se sabe se no futuro a gente acabará escrevendo lindos contos infantis como este.
Hoje tudo mudou e eu entendo, as crianças são tratadas com mais ternura e delicadeza.
Criam uma aura de fantasia em torno delas, talvez para compensar os verdadeiros maus tratos que serão submetidas no futuro.
A mãe atual suspende os porres de leite materno em uma semana. No meu tempo mamava até os 17 anos em pé. Logo depois fazíamos 18 e podia seguir livremente com os destilados.
Perguntei a um amigo se ele bebia destilado, ele respondeu que bebia deste e do outro lado também. Curto e grosso!
Atualmente socam a criança na creche com 6 meses, afinal só a mãe trabalha na casa.
O papai está procurando o emprego dos sonhos faz três décadas. Falta de sorte, parece que a equação fazer pouco e ganhar muito está cada vez mais difícil de resolver. Culpa deste país, desse governo, sei lá… menos eu.
Aí vêm os exemplos: Tenho um amigo que foi morar na Jamaica sem nada, hoje ganha 12 dólares por hora para enrolar baseados para turistas. Vive bronzeado, em 3 meses já comprou uma canoa e pretende um dia voltar nela para o Brasil. Acreditou, vendo o mapa, que é só descida. E eu aqui…fuck!!
Sou um sonhador, sou um pássaro e preciso voar alto, não vou me resignar a profissões e salários. Para fazer isso prefiro ficar em casa com a camisa 10 do Riquelme vendo séries.
O fato é que gastar 8 das 24 horas do dia trabalhando para alguns indivíduos é impensável. Ninguém quer ficar acorrentado a um emprego.
O bom é trabalhar com representação.
O cara representa que está trabalhando e a mulher paga todas as contas no final do mês. Hoje é assim que funciona.
Agora querem dar salário para esposas que sofrem assédio do marido. Se eles já não aceitavam o fim do relacionamento, imagina agora que ela tem a grana!!
Verdade seja dita, tem aqueles que enquanto a esposa trabalha cuidam bravamente das crianças e da casa. Esses são chamados de mães de terno. Porém, tem aqueles chupins molengas que mal preparam um miojo para a prole e correm apressados para tv para acompanhar o VT do Bragantino x São Bento.
Se queimar uma lâmpada, ele pede ajuda para esposa comprar e trocar. Têm medo de levar um choque. Até para achar palavra em dicionário ou amarrar os tênis ele absorve a patroa.
Hoje pensando nas esposas, a Calçados Pimpolho desenvolveu uma linha com fechamento por velcro para adultos. Nada mal hein meninas.
Eu sempre me pergunto qual o motivo que leva uma mulher a casar hoje em dia.
Os caras são uns bananas. Moram na casa dos pais até serem retirados a força do seu casulo. Vivem cansados, indispostos, com renite, gripe e alguns nem suportam cheiro de mulher. Tem nojinho.
Cansei de voltar em casa de clientes recém-casados, para instalar um vídeo game e uma tv em outro quarto, pois o maridão da casa passava a madrugada inteira brincando com esse treco ao invés de brincar com esposa no quarto ao lado. Parece difícil de entender, mas é a realidade moderna.
Ainda me recordo do dia do meu casamento, quando fui retirado daquele porta-malas e subi uma escadaria encapuzado. Assim que retiraram o capuz, dei de cara com algumas testemunhas e umas 120 canetas Bic para eu assinar alguns papéis.
O exagero era para não correr o risco de alguma falhar. Certeza de que hoje ela se arrepende de ter contratado esses capangas. Estaria livre de mim e desses textos. Poderia ter colocado nas mãos de Deus, fazendo roleta russa, deixando apenas uma caneta sobre a mesa. hehe
No meu tempo de escola não tinha bullying, tinha porradaria mesmo. Voltar para casa com o uniforme rasgado era marca de guerra. No dia seguinte estávamos todos juntos rindo e jogando dedobol com tampinhas de refrigerantes no intervalo. Nem sei por que brigávamos tanto.
Recordo de um antigo colega, que seu melhor amigo e inseparável era um cara que ele fraturou a mão dando um soco nele na adolescência.
Veja como o tempo lapida e conserta tudo. Exceto a mão, que ele sentia dores horríveis quando surfava no inverno.
O bolso da camisa branca com o brasão da escola era o primeiro a voltar desgrudado. As mães costuravam aquele bolso umas 10 vezes por ano. Minha mãe, muito criativa, cogitou em prender com parafuso e uma contraporca.
Ainda no tema comportamento, pelo que vejo nas reportagens esta cada vez mais comum algumas pessoas abrirem uma creche, não com o intuito de cuidar das crianças, mas para transformá-las em sparring das funcionárias.
A dona Ismênia da merenda é conhecida como mão de marreta na escolinha. Lembra o Maguila, onde ela põe a mão não nasce mais cabelo. O pai do Vitinho que o diga.
Outro dia assisti um vídeo onde uma funcionária empilha uns livros e soca na cabeça de um garotinho de aproximadamente 2 ou 3 aninhos. Me remoí no sofá, lembrei do Bruce Lee quando enfiava a mão dentro do peito do cara e lhe arrancava o coração.
Fico imaginando a reação da mãe da criança assistindo a um vídeo desses que passam na tv. Sabe que uma mãe furiosa é pior que uma caixa de dinamites. Uma temporada que eu andava aprontando mais do que o suportável, criei um slogan: Não faça de sua mãe uma arma!
O fato é que vivemos em um país enorme, com dimensões que ultrapassam a normalidade, talvez por isso o descontrole em tudo.
É como se tivéssemos vários países dentro do nosso, tamanha variedade de hábitos e culturas.
Desses “pseudos” países, infelizmente não temos nenhuma Suíça, Finlândia ou Noruega.
Pela violência estamos mais para Mexico ou Colômbia, mas até nisso levamos de 7 a 1. Os bandidos daqui foram os pioneiros em montar uma facção em uma ilha. Isso mesmo, a ilha de Santo Amaro, vulgo Guarujá. Eu não entendo como planejaram isso.
Um lugar onde você está literalmente ilhado, não tem escapatória exceto fretar o navio “Utopia of the Seas”, único com capacidade para acomodar toda bandidagem que vive lá.
Já faz alguns anos que se você estacionar o carro para entrar no mar, eles estouram seu para brisa com um martelo para roubar uma maçã deixada no console. Tá feia a coisa viu.
Poxa, eu te dava a maçã, era só pedir, não precisava me dar um prejú de 3 mil reais.
Mas aí não tem graça. Quebrar seu carro é mais gostoso que a maçã. Cada cabeça uma sentença! Pena que não é de morte.
Em escolhas brilhantes, me lembra o túnel que uma antiga prefeita fez em SP que desemboca em um semáforo. Essa engenharia você não encontra em qualquer lugar. Tem que procurar.
A parte do turismo também deixa saudades. Saudades de casa.
Não me recordo de ter feito uma viagem doméstica em que eu não voltasse estressado e arrependido. Normalmente eu volto e preciso uns dias para me reestabelecer física e psicologicamente.
Por falta de atrações, em uma viagem para Foz do Iguaçu, fui ver aquele monte de água caindo e quase ser dragado pela queda d’agua sobre nossa lancha. Reclamei com o piloto e ele me disse “não tem erro, você está de colete”. Quanta inconsequência, aquele coletinho seria destruído na hora, suponho que eu estaria junto ao Titanic agora. Já em terra firme, outra aventura, visitei um borboletário e a entrada era cobrada, acredite.
Escapei de visitar o mecanismo da usina de Itaipu. Perguntei ao monitor quanto eu receberia se fizesse o passeio. Ele não entendeu a piada, afinal para ver engrenagens eu abro a tampa do meu relógio.
Cada programa de elefante que eu já fiz!
Em algumas regiões é rotineiro os alunos ficarem sem aulas por medo de bala perdida porque gangs rivais estão fazendo xixi um no poste do outro. Ou ainda porque os professores recebem salários miseráveis.
Sempre digo que não existe bala perdida, alguém acaba encontrando. Deveria chamar bala que encontrou outro alvo.
Em outras cidades, onde o volume de recursos é menor eles dão um jeito de fazer crescer criativamente. O que dizer de um secretário que colocava cândida no leite das crianças. Aposto que nenhum Ph.D. em economia já havia pensado nisso.
Justo Cândida!
Nunca vi um treco tão barato ter tamanho poder de destruição. Deveriam desenvolver algo para usar em guerras.
Um soldado joga cândida no outro, os que saírem com a farda mais estropiada perdem a guerra. Seria econômico, sem mortes e com o poder de estrago de um míssil russo.
Aqui em casa a cândida já fez mais uma vítima. Meu pijama novo. Ah… eu e os pijamas. Saudades de quando eu dormia com o calção amarelo da saudosa Twin surfshop e a camiseta do campeonato Wagner Tony no píer em Mongaguá. What ensemble!
Como lido mal com frustrações, inconformado, fiquei matutando como tirar aquela mancha do pijama. Após muito pensar e usando de minha criatividade, conclui que o único jeito de retirar mancha de cândida é com tesoura mesmo.
Êita Brasilzão! Só me resta mesmo é viver com a obsessão em culpar a cegonha que me derrubou aqui na metade do caminho.
Durma com um barulho desse!
7/10/2026
