Ou Lula ou o horror (2)

“A democracia correrá riscos em um possível governo Flávio Bolsonaro. Isso não é opinião. É o resultado da análise dos fatos, matéria-prima do jornalismo.”

Essa afirmação abre o artigo desta terça-feira, 13/10, de uma das mais respeitadas jornalistas de economia do país, Miriam Leitão, em O Globo.

Mariliz Pereira Jorge, colunista da Folha de S. Paulo, sintetizou em uma frase de três linhas a verdade cristalina:

“Que fique bem claro: a oposição ao bolsonarismo não se chama esquerda, chama-se sanidade, lucidez, evolução, discernimento, inteligência, bom senso, humanidade.”

O jurista Miguel Reali Jr., uma pessoa que não pode, de forma alguma, ser chamado de petista ou lulista – é bom lembrar que ele foi um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Roussef – declarou na quarta-feira, 7/10, apoio à reeleição de Lula. Ele publicou no Instagram uma declaração com o título “Cuidado com o precipício”:

“Cada eleitor de Flávio deve ficar ciente de que ao escolhê-lo está a admitir a anistia, ou seja, referendando a invasão das sedes dos três Poderes e a tentativa de anulação pela força da eleição fidedigna de 2022. Votar em Flávio é, portanto, legitimar o golpe, dando sinal de aprovação à tentativa de assunção ao poder pela força e de desamor à democracia”

E ainda:

“Se é certo que o PT e o próprio Lula revelam o desgaste do tempo e permeia a sociedade um cansaço com o discurso petista, todavia, uma coisa é segura: com os governos petistas não se instala a apologia ou a tentativa do golpe militar, se preserva nossa independência e não se promove um estado policialesco. Nada justifica que, ao se pretender mudar o rumo, tome-se o caminho do precipício. Dentro de quinze dias resolve-se o destino do Brasil e desejo ardentemente que não vivamos sob o signo da violência”, diz.

Em seu blog no Metrópoles, Ricardo Noblat escreveu:

“A escolha de um governante é o reflexo mais nítido dos valores de uma sociedade. Se formos capazes de conduzir à Presidência da República uma figura pública com o histórico de Flávio Bolsonaro — formalmente investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no caso ‘Dark Horse’ sob suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e corrupção, além de carregar um histórico de notórias ligações com milicianos —, essa decisão não poderá ser mascarada como um deslize. Em uma era hiperconectada, o argumento da ignorância perdeu a validade. Detalhes sobre repasses financeiros e movimentações sob a lupa da Polícia Federal são de amplo conhecimento público. Portanto, um eventual triunfo eleitoral desse projeto político não decorrerá de imprevidência, engano ou falta de informação. Será, sim, um endosso consciente e deliberado. A responsabilidade final não recairá apenas sobre quem governa, mas sobre a própria coletividade que escolheu o autoengano, provando que uma nação acaba tendo o governo que tolera e merece.”

A íntegra do belo artigo de Míriam Leitão vai logo abaixo.

Até a véspera do segundo turno,  ainda espero fazer outras compilações de bons textos, boas declarações, mostrando o que tenho repetido sempre:

Esta eleição é muito mais que uma escolha entre direita e esquerda. É uma escolha entre escola e clube de tiro. Entre conhecimento, ciência, e ignorância, negacionismo. Entre defesa da natureza, do meio ambiente, da sobrevivência do planeta e o passar o trator. Entre democracia e ditadura. Entre civilização e barbárie. (Sérgio Vaz)

 

Não é opinião, são os fatos

Por Míriam Leitão, O Globo, 13/10/2026.

A democracia correrá riscos em um possível governo Flávio Bolsonaro. Isso não é opinião. É o resultado da análise dos fatos, matéria-prima do jornalismo. O pai dele quando esteve no governo tentou dar um golpe de Estado. A família Bolsonaro tem diversas brigas internas, mas total concordância sobre alguns pontos: acham que a ditadura militar foi boa, admiram o Coronel Brilhante Ustra e seus métodos de tortura e morte de adversários políticos, elogiam o Ato Institucional número 5, aprovam as decisões e palavras do ex-presidente Jair Bolsonaro e negam que durante aquele governo tenha havido conspiração para um golpe, que terminou com a quebra física dos prédios dos Três Poderes.

O brigadeiro Carlos Baptista Júnior, que comandou a Aeronáutica na administração de Jair Bolsonaro, publicou um livro contando o que houve no governo. Sobre a reunião do dia 5 de julho de 2022, aquela na qual o general Heleno defendeu que era preciso virar a mesa antes das eleições, o brigadeiro diz: “Mais do que declarações isoladas, aquele encontro revelou algo que começava a se tornar cada vez mais preocupante: a naturalização, dentro de determinados círculos de poder, da ideia de que o resultado eleitoral poderia deixar de ser aceito caso contrariasse as expectativas do governo”.

O brigadeiro prestou depoimento como testemunha na ação penal do golpe. No livro “Eu disse não. Uma trincheira antigolpista”, o ex-comandante da Aeronáutica relatou muitos fatos, alguns já conhecidos, mas pelo ângulo de quem comandava uma das Forças. O difícil quando se fala das ações de Jair Bolsonaro contra a democracia é escolher de quais fatos tratar. São muitos.

Quando Flávio Bolsonaro falou em usar o crescimento da direita no Congresso para mudar a Constituição, muita gente se assustou no Brasil. Todos os presidentes apresentaram propostas de emenda constitucional. Não era disso que ele falava, porque completou a frase informando que iria mudar a Constituição “para redemocratizar o país”.

“A Constituição não é perfeita. Ela própria o confessa”, disse Ulysses Guimarães, na promulgação da Carta, ao falar da possibilidade de emenda constitucional. Fernando Henrique, ao assumir, propôs uma PEC para acabar com o monopólio estatal na telefonia e no petróleo. Assim, ele privatizou as telefônicas e concedeu áreas de exploração de petróleo. Jair Bolsonaro, ao assumir, propôs uma PEC para a Reforma da Previdência. Lula em 2023 aprovou a PEC da Reforma Tributária. Ninguém achou que fosse golpe de Estado. O que pega desta vez é que Flávio falou em mudar a Constituição para “redemocratizar o país”. O que não se pode mudar na Constituição? Exatamente isso: as cláusulas pétreas que sustentam a democracia em vigor no país.

Em julho de 2025, quando ainda não tinha sido lançado pelo PL à presidência, Flávio Bolsonaro disse em uma entrevista à Folha de S. Paulo que um candidato ao cargo só receberia apoio do seu grupo político se manifestasse compromisso com anistia a seu pai e a outros condenados, e que garantisse essa anistia mesmo que o Supremo Tribunal Federal fosse contra. E foi mais específico: “a gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre Poderes. Tudo o que ninguém quer”.

O STF está fragilizado em parte pelos seus próprios erros. Mas quando Flávio disse isso — ou quando fala agora em “redemocratizar” o país — ele não estava se referindo à prerrogativa do Senado de julgar o impeachment de algum ministro do Supremo. Ele estava falando exatamente em mexer no que é inalterável na Constituição: os pilares da democracia.

O país pode escolher ignorar todo o histórico familiar e levá-lo ao Planalto. Só que os fatos até aqui permitem dizer que haverá o mesmo clima de tensão constante sobre o Estado Democrático de Direito que houve no governo de Jair Bolsonaro, agravado pelo fato de que seria uma administração mais capaz de formar maiorias no Congresso, e as instituições teriam menos defesa, pela crise interna do STF.

A democracia não é um ponto de programa de governo. É a única base de todos os governos desde 1985, os bons e os ruins. O único regime que garante a alternância de poder, o sistema de freios e contrapesos e os direitos individuais. Na última vez que suprimiu a democracia, o país atravessou 21 anos de enorme sofrimento cívico. Nada disso é opinião. São os fatos.

13/10/2026

Ou Lula ou horror (1)

Dava para pegar no ar o entusiasmo das pessoas

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