“Pior que um Bolsonaro não há.”
“Adotarei a máxima que Mario Covas vaticinava: ‘entre dois indesejados, seja pragmático. Escolha aquele que apresente melhor diferença histórica ou comportamental’.”
“A questão é impedir que Flávio Bolsonaro ameace a liberdade que tenho de dizer o que penso.”
Essas considerações são de três brasileiros não petistas, não lulistas, que vão votar em Lula neste domingo, 4 de outubro, porque sabem que é preciso evitar o grande mal, o horror, o pior dos mundos.
A primeira frase é de Betty Vidigal, poeta, contista e jornalista.
A segunda é de Sérgio Kobayashi, jornalista, profissional de marketing institucional e consultor de gestão educativa, que foi auxiliar de Mario Covas tanto na Prefeitura de São Paulo quanto no governo do Estado, e havia anunciado que votaria na chapa Caiado-Kassab, do PSD.
A terceira é Zeca Martins, sociólogo, coordenador do movimento Derrubando Muros, articulista da Folha de S. Paulo. Ele foi citado em um post no Facebook do meu amigo Tibério Canuto Queiroz Portela, veterano militante do PCB.
Como eles, não sou petista, não sou lulista. Como eles, tenho muitas críticas ao PT, a Lula, ao governo Lula 3. Mas tenho a absoluta certeza de que esta eleição, assim como a de 2022, é muito mais que uma escolha entre direita e esquerda. É uma escolha entre escola e clube de tiro. Entre conhecimento, ciência, e ignorância, negacionismo. Entre defesa da natureza, do meio ambiente, da sobrevivência do planeta e o passar o trator. Entre democracia e ditadura.
O que está em jogo é a escolha entre civilização e barbárie.
Esta compilação de textos de não petistas é um apelo às pessoas que até agora decidiram não votar em ninguém para a Presidência da República. (Sérgio Vaz)
Betty Vidigal
Eu não ia votar em Lula no primeiro turno. Até 2022, nunca tinha votado nele, nem no segundo turno. Em 1989, anulei o voto escrevendo Mário Covas na diagonal, apesar de Covas ter apoiado Lula naquele segundo turno.
Em 2002 votei no mentiroso do Serra, porque era do PSDB e o partido tem meu respeito. Mas teria votado em qualquer um contra Lula.
Assim como em 2022 teria votado em qualquer porcaria contra Bolsonaro, por pior que fosse a porcaria, no segundo turno. E votei.
Pior que um Bolsonaro não há.
E até que tem sido bem melhor do que eu imaginava. Lula está fazendo uma boa defesa do Brasil no exterior, e representar o País é a principal função de um presidente. Não é fazer grandes obras.
Se fizer, ótimo, mas esse não é o principal papel.
No primeiro turno, eu tinha votado em Simone, mas, num encontro de mulheres apoiadoras dela, disse-nos que apoiaria Lula no segundo turno, “se” não fosse eleita. Claro que sabia que não seria, e claro que todas sabíamos.
Agora, pela primeira vez na minha vida de eleitora, não há nome de “terceira via” que eu apoie. Eu gostava de Caiado até ver na entrevista da Globo. Fiquei assustada com o autoritarismo dele. Mesmo motivo que me fez desistir de apoiar Zema em vez de Caiado. Outro autoritário. Até o Cury, que achei que não tinha ambição política e se candidava por altruísmo, se revelou autoritário.
Tenho uma rejeição funda a esse traço de personalidade.
Na real, até Lula foi autoritário, dizendo à entrevistadora o que deveria ter perguntado.
Claro, ele queria perguntas que levantassem a bola pra ele… Que permitissem glorificar o governo.
Mas pelo menos sabemos que Lula sabe se dobrar quando é preciso, e frequentemente é preciso.
Ontem decidi que vou votar em Lula já no primeiro turno.
Nunca conversamos sobre política nos almoços de domingo. Não é uma regra de convivência. É que, apesar de sermos todos muito políticos, nunca surge esse assunto. Tem muito mais assunto entre nós. Almoço animado.
Mas uma hora, eu cozinhando, meu filho perguntou em quem eu ia votar.
Ele não estava curioso quanto a presidente, queria saber meu voto para os outros cargos.
Mas foi nessa conversa com ele que concluí que, pela primeira vez, devo votar em Lula já no primeiro turno.
Não vai fazer diferença: de qualquer forma a eleição não se decide nessa etapa. Mas é preciso, acho, achei, fazer uma declaração, um statement de apoio à Democracia.
Com todos os seus defeitos, Lula é um democrata e constantemente demonstra isso.
O outro não é. A famiglia quer “intervenção militar com Bolsonaro presidente”. Pediram isso por 4 anos, e só não conseguiram porque duas das nossas Forças Armadas se recusaram a apoiar esse delírio de poder.
Mesmo assim, os bolsoides não aceitaram o resultado da eleição. Invadiram Brasília para tentar impor sua desvontade.
Enquanto isso, o ídolo deles, covarde, nem pra tomar a frente do ataque…
Se mandou pras terras do tio Sam pra esperar fazerem por ele o servicinho sujo.
Aí voltaria em triunfo, imaginava… Grande bandido golpista.
Por essas e outras concluo que é preciso votar em Lula já no primeiro turno.
Sérgio Kobayashi
CONTRADIÇÃO?
ABSOLUTAMENTE, NÃO!
Há semanas anunciei votar no Caiado, na esperança de que, mesmo liberal e quase rançoso, tinha traquejo para ser a terceira via. Mas está ocorrendo aquilo que eu menos desejava: habituado a “cheirar” pesquisas, percebo que pode ser decidido no primeiro turno. Lamentável não termos sido capazes de sustentar uma alternativa à raivosa polarização entre a “esquerda anacrônica” e a “direita terraplanista”.
Adotarei, portanto, a máxima que Mario Covas vaticinava: “entre dois indesejados, seja pragmático. Escolha aquele que apresente melhor diferença histórica ou comportamental”. Foram as razões para, com ele, subir no palanque do Lula em 1989 e no da Marta Suplicy, em 2000.
Então, face a demência e a idolatria pelo atraso — caminho obscuro para a derrocada da democracia agora em 2026 —, minha opção será o Lula, pois existe a cristalina diferença apregoada pelo Covas. Lula, mesmo pecando com o seu narcisismo (acha que nunca erra), tem a favor a sua verve nas questões sociais. Três bons exemplos: 1) instado por Betinho, adotou a erradicação da fome; 2) manteve o “Bolsa Escola”, criado por Ruth Cardoso; 3) desonerou os baixos salários do famigerado Imposto de Renda. E, de lambuja, mostra-se adepto a temas que tranquilizam as mulheres e famílias.
Mas… mudanças de choque acontecerão no seu novo mandato? Não acredito! Será mera continuidade daquilo que vem fazendo. Razão suficiente para eu manter a minha posição de sempre crítico ao PT e a esquizofrênicos militantes. Porém fico conformado pois, para fazer jus à sua biografia, Lula será instado a preservar o diálogo solidário entre todos, sem distinção de credos, etnias e classes econômicas. Ou seja, a democracia que construímos e prezamos será conservada pelas décadas e séculos que virão.
Falei
Ah, para ilustrar adaptei risível charge que circula nas redes. Grato ao criativo chargista !
Tibério Canuto Queiroz Portela
Para os amigos e antigos companheiros que estão pensando anular o voto transcrevo aqui o excelente artigo de Zeca Martins, coordenador do movimento Derrubando Muros, que sintetiza muito bem a diferença entre Lula e o Bolsonarismo, apesar de ter uma visão extremamente crítica ao governo Lula, como é o meu caso também. Defini meu voto como defensivo. É o que Zeca propõe em seu artigo:
Zeca Martins
Para não perder o direito de não gostar
– Meu voto não absolve o governo Lula, que de fato é muito ruim, com desempenho desastroso
– A questão é impedir que Flávio Bolsonaro ameace a liberdade que tenho de dizer o que penso
Considero muito ruim o governo Lula (PT). Na política, na ciência e tecnologia e na segurança pública, o desempenho é desastroso. Na educação e na saúde, medíocre. No conjunto, ruim. E com suspeitas que continuam a exigir respostas. A proximidade da eleição não absolve esse governo.
Há, porém, uma circunstância decisiva: posso combatê-lo. Posso escrever o que penso, atacar suas escolhas, levantar da cadeira para dizer isso na cara de qualquer ministro. Minha família não precisa entrar no cálculo das consequências. Quem aprendeu do jeito mais difícil o preço de enfrentar uma ditadura sabe o tamanho dessa diferença.
É desse lugar que escrevo. Faltam poucos dias para as eleições. Considero mais provável a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), em 4 de outubro ou no segundo turno. Um sujeito com moral de miliciano, disposto a sabotar a democracia, seguindo a tradição da família. Confundir esse risco com mais uma alternância de governo exige uma distração que nenhum democrata tem o direito de cultivar.
O grupo Derrubando Muros tem o privilégio de acesso aos principais institutos de pesquisas eleitorais. Conhecemos nuances e correlações que escapam aos leigos. Isso ajuda a saber antes. Mas nenhuma sutileza estatística é condição necessária para reconhecer o intolerável quando ele se apresenta. Nem nos dispensa de fazê-lo. Nem de reagir diante disso.
Em 2022, votei em Lula no segundo turno. Nunca havia votado no PT, assim como a maioria dos que fizeram aquela escolha comigo. Foi uma decisão de risco político e reputacional, diante de uma ameaça maior. Não pedi reconhecimento, não negociei contrapartidas, não condicionei o voto. Votei para impedir o pior.
Quatro anos de gestão não melhoraram minha avaliação do governo. A do PT, menos ainda. O precipício, o apego à democracia, este cresceu. E eu me pergunto o que farei com minha coleção de críticas corretas se outro da dinastia familiar dos Bolsonaros ocupar a Presidência da República também por minha omissão. Vou apresentar meu muxoxo como prova de coerência?
Há tempo para exigir mudança, confrontar e fazer oposição. Há também a hora de separar o que nos desagrada do que pode destruir nossa vida em comum. Família, amigos, valores, democracia: não ponho nada disso na mesa de apostas para preservar o conforto de uma posição.
Um governo ruim pode ser enfrentado e substituído. A destruição das instituições que permitem enfrentá-lo cobra outro preço. É aí que passa a fronteira. Para enxergá-la, não preciso gostar de Lula, absolver o PT ou recolher uma única crítica. Preciso distinguir um desempenho medíocre de uma ameaça ao direito de combatê-lo.
Levo semanas amadurecendo essa posição. É pessoal, desconfortável e clara. Considero uma obrigação torná-la pública. Quero continuar podendo fazer oposição de cabeça erguida, sem hesitação, sem ter de escolher entre a palavra e a segurança dos meus.
Não escolho as circunstâncias em que preciso decidir. Mas respondo pelo que permito por omissão. Prefiro continuar fazendo oposição a um governo ruim a ser impedido de enfrentar o próximo. Meu voto não absolve o governo atual. É uma escolha para impedir que Flávio Bolsonaro chegue ao poder e ameace a liberdade que tenho de dizer o que penso.
1º/10/2026


Parabéns, muito bom!!!