Os mais novinhos provavelmente não irão se lembrar da famosa propaganda da Parmalat que marcou época nos anos 90. Os “mamíferos”: bebês fantasiados de bichinhos tomavam leite ao som da musiquinha que ficava martelando na cabeça das pessoas noite e dia. Difícil esquecer o gambá perguntando, no final, ao gatinho: “Tomou?”
Claro que estava se referindo ao leite, mas o “tomou” depois acabou na boca dos marmanjos pra zombar de quem tinha levado a pior em alguma situação. (E, evidentemente, não queria dizer “tomou leite”.)
Quando explodiu nas redes sociais a fake news de que Flávio Bolsonaro queria destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil, e vimos sua cara de desespero ao desmentir a informação, me lembrei logo do “tomou?” dos bichinhos.
Não que eu defenda a fake news, muito pelo contrário. Sei dos perigos que uma notícia falsa pode acarretar, mas, nesse caso, o “tomou?” é no sentido de “sentiu na pele agora o estrago que uma notícia falsa pode causar?”. Ele e sua família que usaram e abusaram – ainda usam e abusam – desse golpe baixo; já fizeram muito estrago com falsas informações.
Só pra citar um exemplo: até hoje tem gente com medo de virar jacaré se tomar a vacina contra a Covid. Tem até aqueles que acreditam que a vacina vem com um chip chinês que é injetado no braço, transformando as pessoas em robôs a serviço do comunismo.
Essas e muitas outras informações falsas sobre a vacina da Covid foram amplamente divulgadas via WhatsApp. Resultado: quem tomou – no bom sentido – se livrou dos males maiores que a doença provoca, e quem não tomou, “tomou” no sentido figurado.
Voltando a Nossa Senhora Aparecida, o medo de Flávio ficar mal na fita com os católicos fez com que apelasse ao ministro supremamente evangélico para que se apagassem todas as publicações a respeito. Conseguiu por um determinado tempo – só que isso não impediu que falas anteriores e verdadeiras viessem à tona. Flávio já havia dito, em uma dessas Marchas para Jesus, que, se ganhasse as eleições entregaria o Brasil a Jesus Cristo. (Parece que agora ele quer dividir com Trump também.)
Nessa ele tomou. E voltou a tomar nesta semana com novas revelações sobre seu caráter nem um pouco duvidoso: viagens de jatinho, relógio Rolex e TV de 75 polegadas de presente, além de relatos de orgias com meninas que, definitivamente, não estão na tríade Deus, Pátria e Família que ele tanto defende da boca pra fora. (E consta que, desta vez, as news não são fakes).
E, chegando na reta final das eleições, cada candidato quer vender seu peixe à sua maneira, passando por cima dos escândalos em que está metido e tentando ganhar a confiança dos eleitores com promessas – na maioria vãs e que nunca se concretizam – para melhorar a vida da população.
Numa dessas, o presidente Lula pisou na casca de banana lá em Belém, soltando uma declaração de uma sutileza paquidérmica sobre um assunto que tem de ser tratado com seriedade: o câncer de próstata. Disse que o homem não gosta de tomar toque, ao contrário das mulheres, que recebem toque desde pequenas.
A fala foi levada para o lado negativo pelos opositores e deixou a bola quicando para o lindinho Nikolas Ferreira chutar e publicar uma postagem caindo de pau (ops) na declaração. Lula se defendeu argumentando que quis dizer que o homem é menos corajoso que a mulher no que se refere a exames preventivos e coisa e tal, mas ainda assim repercutiu mal e a direita nadou de braçada nessa onda.
Hora ruim para uma escorregada. Um candidato que está disputando votos a tapa precisa medir suas palavras pra não correr o risco de levar uma estocada profunda do adversário. (Ui!).
E se esse episódio tiver causado algum dano à sua candidatura, também cabe a pergunta:
Tomou?
Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 2/10/2026.

