Trinta anos sem Regina

Quando o Antônio morreu, baleado à saída de uma lanchonete na Rua Joaquim Floriano, no Itaim Bibi, por ter tentado apartar uma briga, Regina reagiu ao absurdo e à viuvez como uma leoa. Começou uma campanha pelo desarmamento. A luta dela chegou aos jornais, deixou boas marcas.

Ela era assim. Era um traço forte de sua personalidade. Diante da adversidade, por mais dura que fosse, reagia com força, vigor. Uma leoa.

Quando o Heitor morreu, chorou bastante, embora já estivesse muito distante do primeiro marido, o pai de sua única filha, essa maravilhosa Inês que viveu comigo dos 4 aos, sei lá, 9, 10 anos. – “Você agora é o último que me resta”, ela disse, quando fui abraçá-la assim que soube da notícia.

Quando, exatos 30 anos atrás, soube que Regina estava entre os passageiros do Fokker 100 que havia caído logo depois de decolar de Congonhas rumo ao Santos Dumont, fiquei chocado, quase em absoluto pânico – mas não chorei. Não parei tudo – continuei tocando a vida. Até hoje não me esqueci do momento. Estava a caminho do consultório do meu dentista, o dr. Sérgio. O táxi que descia a Rua do Paraíso do metrô até a Avenida da Aclimação estava com o rádio ligado – e o locutor falava os nomes da lista dos passageiros do avião. Ao ouvir o nome dela, dei um berro de dor – mas, em vez de voltar pra casa, não fazer mais nada a não ser afundar na tristeza, segui em frente. Abri a boca para o dr. Sérgio – e ouvi ele dizer que, caso fosse necessário para a identificação, ele poderia entregar ao IML as radiografias dela.

Em casa, enquanto eu estava fora, Mary deu a notícia para Fernanda – e minha filha começou a chorar copiosamente.

Me lembro sempre de que, à noite, vieram estar comigo meus amigos Elói e Pedro França. Dona Lúcia estava aqui conosco, em viagem a São Paulo. Ficamos horas e horas juntos, Mary, Dona Lúcia, os dois amigos queridos e eu, chocados diante do absurdo.

Na noite seguinte, no mesmo lugar, ficamos horas e horas com Inês e Karsten, acabados de chegar da Alemanha. Mary, então assessora de imprensa do governador Mario Covas, havia mexido pauzinhos para que Inês não fosse incomodada por repórteres ao desembarcar em Cumbica. Creio que aquela foi a única vez que Mary usou o cargo para algum propósito particular.

No enterro, Inês recebeu muito, mas muito conforto de dezenas de amigos de Regina. Percebi o carinho das pessoas, e isso me deu uma satisfação.

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Anoto essas lembranças, e me sinto um tanto imbecil, porque o que importa não são minhas lembranças, e sim o absurdo que foi Regina ter morrido tão jovem, tão forte, tão, diacho, importante. Com tanta coisa para fazer.

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46 anos! Meu Deus do céu, que absurdo morrer aos 46 anos!

Ana Tereza Clemente, que foi editora de Saúde na Marie Claire, e Regina levou para a nova revista que criou, a Mais Vida, lembra: “Um dia antes de ela morrer, sentou-se ao meu lado na redação para discutir uma pauta. Acho que era sobre Claudia Liz. Então, a Rê me disse: ‘Pretendo viver até os 92’. Seria o dobro da idade que ela tinha…”

“Regina Lemos, 46 anos, passou o último dia de sua vida como se fosse outro qualquer. Jornalista, discutiu reportagens na redação, recebeu gente, falou ao telefone. examinou fotos.”

O texto é da Veja, que em 1996 ainda era uma boa revista boa. A primeira edição de novembro daquele ano trouxe na capa fotos de algumas das vítimas do acidente do Fokker da TAM, Regina inclusive. Transcrevo porque acho que vale a pena o registro.

“Queria deixar o trabalho encaminhado antes de viajar para o Rio de Janeiro, onde faria uma reportagem e aproveitaria para encontrar-se com seu namorado, o técnico de som Doudou, um francês alguns anos mais jovem, que conhecera havia um mês. Os dois combinaram passar o Dia de Finados longe dos cemitérios, em meio às árvores e canteiros do Jardim Botânico carioca. ‘Regina disse que desejava homenagear os mortos em um lugar que celebrasse a vida’, lembra o namorado. Celebrar a vida era o que Regina tentava desde 1994, quando seu segundo marido, o publicitário Antônio Carlos Valério. então com 33 anos. encontrou a morte à saída de uma lanchonete, em São Paulo. Valério levou um tiro no peito, à queima- roupa, ao tentar apartar uma briga. O crime. presenciado pela jornalista, não a fez alinhar-se com os defensores da lei de talião. Em vez disso. liderou uma campanha pelo desarmamento da população. ‘Esse tiro não destruiu minha fé em que a espécie humana vale a pena e de que o Brasil tem jeito’, escreveu ela no livro Quarenta: A Idade da Loba, em que reuniu depoimentos de mulheres que cruzaram a linha dos 40 anos. Poucos dias antes de morrer, Regina Lemos recebeu a notícia de que ganharia seu segundo neto. Tudo em sua vida evoluía para que a lembrança da tragédia fosse cancelada e seu sonho, de ‘envelhecer com mais serenidade’, realizado. Mas a morte engana, como um jogador de futebol a morte engana.”

Texto correto, me pareceu hoje. Tem um errinho factual: Antônio foi o terceiro marido, e não o segundo – o segundo fui eu.

Não me lembrava de que ela soube que Inês estava grávida pela segunda vez… Lembrava bem, é claro, que ela chegou a conhecer Maria, a primogênita. Meu, como, lá da nuvem dela, Regina deve estar orgulhosa dos três netos, Maria, Daya e Leo! E da filha, é claro. Que pessoa maravilhosa é a Inês…

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Menos de meio ano antes da tragédia, em maio daquele ano de 1996, o Estadão fez uma entrevista com a socióloga Ruth Cardoso, então primeira-dama do Brasil. Uma das perguntas foi: “Quais os últimos livros que a senhora leu?”

A resposta de Dona Ruth:

“Ainda está na minha mesa de cabeceira O Fim do Emprego. Não achei que tivesse muita novidade nem que propusesse grandes soluções. Gostei bastante de A Idade da Loba. É uma coletânea de entrevistas com mulheres de mais de 40 anos. É um retrato bem claro do que aconteceu com o feminismo. Mostra mulheres que não fazem o estereótipo das feministas, mas, quando olhamos suas vidas, vemos como foram corajosas e independentes. Aprende-se mais na leitura desses depoimentos do que em muitos artigos sobre o assunto.”

Regina se dedicou com entusiasmo ao projeto de escrever A Idade da Loba. Quando, em 1993, a revista Marie Claire brasileira que ela havia criado estava para fazer dois anos, e me convidou para o cargo de redator-chefe, já estava planejando deixar a direção da revista para sua amiga, a diretora de arte Mônica Serino. Queria se dedicar a projetos especiais, e o primeiro deles seria o livro, a ser publicado – como foi – pela Editora Globo. Achou – é o que penso – que eu poderia ser útil para deixar as editoras tranquilas, para ajudar a fazer a transição sem traumas.

Lembro sempre com muita alegria que fui ao lançamento do livro que foi tão importante para ela acompanhado pela Suely e pela Mary. Um dos orgulhos que tenho na vida é ter sido amigo das minhas ex-mulheres.

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Tenho muitas dúvidas sobre este texto. Não sei se gosto dele. Mas não consigo deixar passar essa data em branco.

31/10/2026

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