Conheço pouquíssimo, pouquissíssimo da Shakira. Quase nada – e no entanto gosto dela, tenho simpatia e admiração por ela.
Motivos não faltam. A moça é linda, alegre, energética, simpática. Muito antes do fenômeno Bad Bunny, Shakira foi superstar em toda a América, inclusive naquele país potência imperial que acha que é a America – e, diacho, ser latina, latino, esse adjetivo que no inglês americano vem acompanhado de uma monstruosa carga racista, e mesmo assim virar superstar é algo para ser aplaudido, respeitado, admirado.
Respeito e admiro a filha de porto-riquenhos J. Lo,, a linda cubana Ana de Armas, a maravilhosa mexicana Selma Hayek, o colombiano Rodrigo García, os mexicanos Alejandro G. Iñárritu, Alfonso Cuarón, os brasileños Walter Salles, Fernando Meirelles, Sonia Braga, Tom Jobim, Sérgio Mendes, Laurindo de Almeida e tantos, tantos, tantos mais “latinos”, “cucarachas”, cujo talento o Império tão cheio de racismo enraigado teve que engolir.
E então respeito e admiro Shakira. Mas não só porque ela obrigou o povo da terra do Tio Sam a reconhecer seu talento. Acho que boa parte da minha simpatia por essa moça fantástica é o fato de que, no auge do auge da fama, jovem, lindíssima, chamou Mercedes Sosa, já velha, imensa não apenas na importância mas também no corpo, para o palco em uma turnê e cantou junto com ela, de forma absolutamente apaixonante, La Maza, a beleza de canção do repertório da argentina descendente de índios, uma das mais belas vozes de nuestra America Latina que tantas vezes parece latrina.
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Os textos se escrevem, e então este texto se escreveu-se todo assim, malgré moi-même. Masd o o que eu queria mesmo dizer é que, neste 1º de maio, véspera do show de Shakira na praia de Copacabana, diante da rapidíssima imagem da garota colombiana passando o som com Maria Bethânia, mostrada no Jornal Nacional, este velhinho aqui percebeu que tinha fica arrepiado.
Meu, arrepiar de emoção é uma coisa séria.
Shakira é uma coisa séria.
Na língua da Shakira, a palavra que designa os mais velhos vem carregada de uma noção de respeito.
É gozado isso. Quando os norte-americanos falam “latino”, eles querem dizer seres inferiores. Não-brancos. Cucarachas.
Em espanhol, os mais velhos são los mayores. A palavra que designa os mais velhos é a mesma usada para os maiores.
A garota Shakira, assim com a língua espanhola, tem respeito pelos mais velhos. Bota no palco, para seus milhões de jovens fãs, mayores como Mercedes Sosa, Maria Bethânia, Caetano Veloso.
Respeitar os mais velhos é um dom abençoado, uma dádiva.
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Alguns minutos depois de perceber que tinha me arrepiado diante da informação que Shakira havia convidado Bethânia para passar o som no palco diante do Copacabana Palace cantando “O que é o que é”, pensei – meu Deus do céu e também da Terra! – em um sujeito que escrevia no Jornal da Tarde ali pelo final dos anos 70, início dos 80.
Como a cabeça da gente voa! Incrível.
Admiradíssimo até hoje pelos meus colegas de JT, que volta e meio fazem elogios rasgados a eles no nosso grupo de zap, Telmo Martino era um colunista, cronista, especializado em remar contra a corrente assim, digamos, esquerdista, anti-ditaduras, pró-América Latina. Tentando, talvez, parecer Nelson Rodrigues, com sua gozação da estagiária de sandálias e pés sujos e do padre de passeata, elr gozava “a turma do poncho-e-conga”. Chamava Elba Ramalho de “gralha do Apolipse” e, sobretudo, sobretudo, sobretudo, chamava Gonzaguinha de “cantor-rancor”.
Como são engraçadas as coisas da vida. Exatamente na mesma época em que Telmo Martino proclamava essas coisas, eu escrevia sobre música no mesmíssimo Jornal da Tarde. E fiz a crítica do primeiro disco de Gonzaguinha – uma imensa babação.
Nunca me esqueci dos apelidos, “gralha do Apocalipse”, “cantor-rancor”.
Estivesse vivo, certamente teria presenteado com apelidos desse tipo Jennifer Lopez, Ana de Armas e, claro, óbvio, Shakira.
Trinta e cinco anos depois da morte tão prematura de Gonzaguinha, Shakira ensaiou com Maria Bethânia “O que é, o que é”, o maravilhoso hino à vida, à alegria de viver.
Em seu último disco, o grande Jorge Drexler, de volta a seu Uruguai depois de décadas vivendo na Espanha, gravou “O que é, o que é”.
Gonzaguinha, compositor extraordinário, vive para sempre.
Na expectativa de ver pela TV o show de Shakira neste sábado no maior e mais belo palco do mundo, este velhinho aqui sente um puta, um gigantesco orgulho de ter sido a vida inteira um poncho-e-conga.
E cada vez me convenço mais de que estava absolutamente certa aquela manchete de jornal pró-Salvador Allende que vi no Chile, em março de 1973, poucos meses antes do golpe militar: “La derecha a todo lo envilece”.
1º/5/2026



