Vi o telequete da Band ontem à noite. Vi que o rato arreganhava os dentes para o gato e, na sequência, fingia que não era com ele e saia assobiando nas costas do gato. O teatrinho foi recorrente. O gato, apesar de muito escolado, deixou-se abalar pela estratégia, que, dizem os marqueteiros do rato, foi desenhada pelo moleque de quinta série que atende pelo nome de Pablo-não-sei-do-quê.
Sem voz de comando, os apresentadores da Band, impassíveis, deixaram a palhaçada rolar. Só acordaram no final, pela voz feminina de quem perdeu a paciência, arregaçou as mangas e botou ordem no bordel. Nota 10, ainda que tardia, para a jornalista Adriana Araújo. Só faltou mandar o rato, possível presidente da República, ir para o fundo e sentar na cadeirinha. O rato pôs então a viola no saco. Até ali, ficara mais de uma hora andando feito encosto de macumba atrás do gato, fazendo micagens para o público enquanto este falava.
Mas o gato também tinha que reclamar do encosto. Não sei por quê, nada fez. Tive a impressão de que o gato cansou ou já estava cansado, o que é péssimo em fim de campanha.
Do outro lado do ringue sobrava energia, não para apresentar programas ou idéias de governo, isto jamais, porque não existem, mas para babar pela boca e pelos olhos suas “virtudes” mais sinistras: o cinismo, o vício da mentira deslavada, a falsidade de corpo inteiro, do olhar sinuoso ao passo dos pés, facilmente observável já que não parava um instante sequer de perambular pelo palco como papagaio de pirata do gato.
Entre uma aparição e outra do encosto, o gato conseguiu acertar umas dez pancadas no rato. A maior delas, já no final, foi propor a abertura total dos sigilos bancário e fiscal dos dois candidatos. O rato sentiu o golpe, balbuciou que não tinha nada a esconder mas não fechou negócio. O gato insistiu, e o rato malandro escafedeu-se. Não sem antes entregar o leite: num ato falho, disse ao gato que aquilo não ia adiantar nada porque ele — o gato — já teria passado seu dinheiro para as contas de terceiros.
É como ele — o rato — fazia com o faz-tudo Queiroz. Como se sabe, no esquema das rachadinhas em seu gabinete na Alerj quem recolhia e ficava com a grana dos fantasmas era o Queiroz, que depois pagava as contas do rato com dinheiro vivo na boca do caixa. O rato fingia que não sabia de nada.
Não sou eu quem digo. Quem diz e mostra são os vídeos gravados pelo sistema de segurança da agência bancária preferida, a da CEF na própria Alerj. Tudo em casa…
Quem diz também é o ex-deputado federal e ex-candidato à presidência da República Ciro Gomes, que antes de se bandear para o bolsonarismo no Ceará desafiava seguidamente a familícia a processá-lo por acusá-la de peculato em segundo grau. O primeiro grau era o do desvio de verbas públicas nas rachadinhas. O segundo era o de recolher em postos de gasolina os recibos de terceiros deixados lá. Reunia, assim, comprovantes de gasolina para dar a volta ao mundo.
Ao que consta, o ratinho aprendeu o peculato de gabinete com papai capitão, que chegou a reclamar, em áudio gravado por ele, de fantasmas que não queriam repassar o “combinado”: só 90%, em vez de 95%. No áudio, o capitão achava isso um escândalo!
Não consigo entender por que o gato escaldado Luiz Inácio Lula da Silva deixou passar batido o verdadeiro nome do rato, que começou o telequete perguntando se o gato conhecia Roberta Lutz-sei-lá-o-quê. Bem que o gato poderia ter completado sua resposta perguntando ao rato por que razão ele era conhecido no Rio de Janeiro, depois no Brasil inteiro e mundo afora, como o Flávio Rachadinha.
Enfim, para futuros debates eleitorais, nos próximos biênios e quadriênios, se houver, recomendo que a Band mande antes desratizar o palco.
Nelson Merlin é jornalista aposentado e ainda atento às putarias da política nacional, que serão intensas na próxima legislatura.
19/10/2026
