Trate bem uma garota, mesmo sendo um jaburu

(Do baú de textos)

Planeja-se a criação de um espaço na Estação da Luz para o culto da língua portuguesa. É uma ideia dez. Um negócio da hora, mamma mia. Mas, pergunta-se: no que toca aos paulistanos, o que é mesmo essa língua?

Há quem nos acuse de usar uma linguagem mais ou menos cifrada, o paulistanês. Os cariocas já reclamaram que ela está contaminando até os programas da TV Globo, como o Caldeirão do paulistano Huck.

Não temos culpa se chamar uma menina de mina é mais agradável do que tratá-la por cachorra, como os funkeiros fazem.

Em São Paulo, uma garota será tratada com mais delicadeza, mesmo que seja um caixote-de-feira, como dizem os caminhoneiros, uma tubanga, no falar dos skatistas, um jaburu, um dragão, um canhão, pela definição de várias tribos da cidade. Enfim, uma mulher feia.

E não é por ser considerada gíria que a linguagem das tribos não têm valor. O professor Dino Preti, que em termos de língua portuguesa é o cara, tem até livro escrito sobre o tema. Ele diz que cada pessoa se vale da linguagem que tem. “O que interessa é comunicar.”

Não vai aqui nenhuma crocodilagem, traição na língua dos jiu-jitseiros, mas é por isso que às vezes nem os próprios paulistanos se entendem. Você está na sua cristaleira, seu jipe todo cheio de acessórios, parado em uma estrada, e de repente chega um cara numa carniça, uma bicicleta ruim, e diz: “Me roubaram o dromedário”.

Dromedário, na língua dos bikers, é uma mochila com garrafa de água e canudo comprido, para beber sem precisar parar. Também, qualquer clubber pode estar avonts num latão, à vontade em um ônibus, e subitamente subir um puro suco, uma mina de corpo bonito. E se ele jogar um veco, um chaveco, uma cantada em cima da moça e ela considerar papo de elefante, conversa chata? E chamar um coxinha, um policial?

Um pianista, pessoa que trabalha na pia, na fala dos garçons, pode pegar carona com um cachorro louco, um motociclista que dirige perigosamente. Precisa ser bem Alice, como os gays chamam uma pessoa boba. O que acontece? O motoqueiro vira estatística, na linguagem dos aeronautas. Provoca um acidente. O pianista acaba no cemitério, e os coveiros têm que fechar o boneco, enterrar o morto.

E o paulistano? Não começa uma frase sem dizer então. Outro verbete é imagina, resposta delicada a alguém que diz obrigado . Ou não por isso, quando cansa de dizer imagina. E… A primeira coisa que os nativos de São Paulo aprendem a dizer: “Orra meu”.

Este texto foi originalmente publicado no blog Vivendo e Escrevendo, em 23/8/2026. 

 

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *