A política

No artigo anterior costurei algumas idéias sobre a política brasileira, mas não fui ao fundo da questão. Esse é o assunto deste artigo. E para começar, quero dizer que tempos piores virão.

Primeiro, temos um governo de esquerda que foi sequestrado por um Congresso de direita, com forte presença da extrema direita. Mas o sequestro é pela direita, que está representada no ministério Lula. A extrema direita, fora gritar, espernear e espalhar fake news, está fora.

Segundo, temos um governo de esquerda que está sem projetos de impacto. Atua muito na retaguarda, com o Pé de Meia, ampliação e gratuidade da Farmácia Popular e outros programas. São importantes, mas não empolgam o eleitorado. É preciso algo mais.

Terceiro, com juros nas alturas para deprimir a economia e reduzir a inflação, nosso quarto governo de esquerda deve ter este ano um PIB bem mais baixo que o de 2024. Vai soar como fiasco, para a extrema direita deitar e rolar.

Em compensação, os juros altos devem ou podem (nunca se sabe) trazer um recuo da inflação. Na teoria, devem. Na prática, podem — o que quer dizer que o pode é mais provável que o devem. A teoria econômica não é uma ciência exata.

Os juros altos também têm o poder de derrubar a taxa de emprego e reverter a de desemprego, que fechou 2024 com histórico índice de 6,1%. Neste começo de 2025 já subiu para 6,4%. É um sinal de que os juros já podem ter começado a roer as bases da economia.

Quarto, sem cortar profundamente as despesas, o governo obriga o Banco Central a permanecer em sua escalada altista, não importa se Galípolo seja mais “amigo” de Lula do que Campos Neto. O governo tem reduzido as despesas, como mostra o Relatório do Tesouro Nacional do ano passado. Houve um esforço, mas a montanha é mais alta do que parece aqui embaixo.

Quinto, governos de esquerda são avessos a cortes. Mas, como não podem aumentar impostos porque seria um descalabro perante o eleitorado e uma festa para a oposição, a corda bamba entre um penhasco e outro começa a dobrar perigosamente para baixo.

Fazer os ricos pagarem impostos esbarra no sindicato deles, fortíssimo, representado pelo Congresso Nacional, onde eles têm a faca e o queijo na mão — não para cortar o deles, bem entendido, mas o dos outros.

Nosso quarto governo de esquerda conseguiu algo inimaginável nessa área no ano passado, com a taxação das offshores dos ricos, até então dormindo em berço esplêndido — não aquele do hino pátrio, mas o de lá, das Ilhas Cayman, Jersey e outras mundo afora. Mas é preciso mais.

O que certamente teria grande impacto, neste ano e no próximo, que é o que interessa para a reeleição da esquerda, é a isenção do imposto de renda para os salários até R$ 5 mil. Aí não tem erro. O enrosco está na compensação que tem de ser feita dentro da tabela do IR, taxando mais os salários acima de R$ 50 mil mensais, de modo a não haver prejuízo para a arrecadação.

A Receita Federal deve estar quebrando a cabeça para chegar lá, sem deixar brechas para os manjados estratagemas de sonegação, como ocorreria se as empresas pejotizarem (desculpem o palavrão!), em parte ou no todo, os salários dos seus executivos.

Do outro lado, o sindicato dos ricos em Brasília está a postos.

Aguardemos.

Nelson Merlin é jornalista aposentado e ainda achando que, por linha tortas, tudo ainda pode dar certo.

8/3/2025

 

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