Alhos e bugalhos

Comparar alhos com bugalhos é coisa que se aprende no colégio a não fazer. Mas virou moda fazer. O tratamento dado pela Folha à mais nova pesquisa do DataFolha sobre a quantas anda o governo Lula, três meses após a posse, é um exemplo chocante. 

É óbvio que o Brasil de 2023 não tem nada a ver com o Brasil de 2003, quando Lula assumiu seu primeiro mandato. Mas o analista da Folha debruçado sobre o último DataFolha não quer nem saber. Para ele, os números do instituto que eu vi nascer quando trabalhei na Folha nos anos 70 do século passado (sou velho, quase caquético, mas ainda não perdi a razão) mostram que o Lula-3 estaria começando mal porque seus números de aprovação/reprovação estão muito abaixo dos de Lula-1. 

Não sou lulista, votei nele contra a ultradireita golpista, miliciana, anarquista, misógina, homofóbica, racista, reacionária, destruidora e pré-medieval. Sou comunista pré-Marx, confesso. Sou admirador dos socialistas utópicos que o precederam e alguns que foram contemporâneos dele. Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Blanc, Owen, Thomas More e muitos outros. 

E já que estou falando da turma, devo dizer que o que os distingue é o tipo de romantismo de cada um deles. Os utópicos achavam, em geral, que a burguesia ia acabar cedendo à propriedade social dos meios de produção. Marx, Engels, Rosa Luxemburgo achavam, ao contrário, que o proletariado faria a revolução acontecer da forma mais radical, tomando o poder na bala. Seria uma reedição germânica da carnificina vista no fim do século 18 na França revolucionária. 

Acabou que o negócio foi acontecer onde nunca imaginaram. Na Rússia dos czares, onde não havia proletariado, mas milhões de camponeses alienados ignorantes e um Exército faminto. Não havia sequer capitalismo por lá. A coisa enveredou por uma ditadura feroz que empilhou milhões de mortos durante sete décadas e só terminou quando a economia quebrou e o sistema entrou em parafuso. 

Eu preferia que os utópicos vencessem, mas perdi. Ou, perdemos. Também, achar que a burguesia ia aderir, vejam só, seria um conto de fadas demais da conta se acontecesse. 

No entanto, fico com o princípio essencial de que a propriedade dos meios de produção não pode ser individual, mas coletiva. O trabalho não vive sem o capital e vice-versa. O resto é escravidão ou catação de coquinho no meio do mato. 

Defendo que os lucros sobre o capital investido nos meios de produção devem ser repartidos igualmente entre o dono do capital e o dono do trabalho. Nada mais justo: um põe o dinheiro necessário para a coisa acontecer e o outro põe o trabalho necessário para a coisa aparecer. Igualdade sim, fraternidade e liberdade a gente vê depois. 

Como chegar lá? Pela lei. Sou legalista até os ossos. O que implica negociações exaustivas em série e, no fim, mais negociações para ajustar e reajustar a implantação do novo sistema.

Mas voltando para a vaca fria, penso o contrário do analista da Folha: o governo Lula começa muito bem na numerologia da avaliação popular, num país que está rachado entre o obscurantismo anárquico da ultradireita e, do outro lado, uma luz de modernidade, justiça social e esperança em dias melhores. 

Em 2003, o racha dividia o país entre PT e PSDB, partidos do mesmo espectro ideológico, mas politicamente diversos. Um PSDB muito desgastado após oito anos de mandatos em meio a graves crises econômicas mundo afora. Um PT procurando alianças com a direita para governar, mas ainda puro-sangue. 

E o que temos hoje? Um PL de ultradireita em busca de poder pelo poder, contra um PT de esquerda centrista lambendo feridas de outrora. 

Mas com plano de governo — uma novidade para ele mesmo e para o presidencialismo de coalizão. Fora o de FHC e o de Collor (este em muito menor grau), nunca tivemos governos com plano de governo desde a redemocratização. 

Agora, temos. Alvíssaras! 

Nelson Merlin é jornalista da velha guarda. 

1º/4/2023

 

Um comentário para “Alhos e bugalhos”

  1. Volto a dizer quando se come uma coisa estragada fora do prazo de validade o corpo fica doente os órgãos não funcionam bem. Pois é o brasileiro degustando lula vencida e o Brasil com diareia.

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