O Brasil precisa de paz

A banalização da violência chegou à esfera política com o brutal e sem sentido assassinato de Marcelo Arruda, quando comemorava seu aniversário com uma festa tendo como tema Lula e o PT.

Era questão de dias – ou talvez de horas – para nos depararmos com um crime por motivação política em uma disputa eleitoral radicalizada. Atônita, a nação se vê diante do risco de viver a eleição mais violenta de sua história.

O episódio reflete uma mudança mais de fundo. O Brasil está se transformando em um país selvagem, com índices alarmantes em diversos campos. O país registrou 47.503 homicídios ao longo do último ano, equivalente a 130 assassinatos por dia, segundo dados divulgados no último dia 28 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esses números colocam o Brasil entre os dez países mais violentos do planeta. E 30 cidades brasileiras têm taxas acima de 100 mortes por 100 mil habitantes, o que faz com que o índice nesses municípios seja maior que o de qualquer país no mundo.

O desatino geral não poupa classes sociais ou região. Em um fato recente, por exemplo, um procurador foi denunciado por tentativa de feminicídio de uma procuradora-geral no Vale do Ribeira, São Paulo. A vereadora Marielle Franco foi morta de forma cruel no Rio de Janeiro. Um indigenista da Funai foi assassinado na companhia de um jornalista inglês na Amazônia. Mulheres são estupradas em hospital, crianças morrem por balas perdidas, pessoas são agredidas, espancadas ou assassinadas pela cor da sua pele ou por sua orientação sexual.

Como se tudo isso fosse pouco, agora perdem a vida por causa de sua preferência partidária ou por sua ideologia.

Onde está aquele Brasil no qual esquerda, centro e direita divergiam entre si, mas não ultrapassavam a fronteira do aceitável?

Independentemente do credo político ou religioso de cada um de nós, somos um mesmo povo e isso nos conformou como uma nação. Sempre fizemos das eleições uma festa cívica que agora foi transformada em palco de guerra política fratricida.  Quantos outros tombarão? Hoje foi um militante do PT, amanhã pode ser qualquer um de nós.

A política, instrumento pela qual o Brasil transitou pacificamente de uma ditadura para a democracia, deixou de ser a forma civilizada e superior de resolvermos nossos conflitos para ser a continuidade da guerra por outros meios. Cabe à antropologia investigar essa mudança na sociedade, na qual, parafraseando João Guimarães Rosa, viver tornou-se bastante perigoso.

A violência esgarça não apenas nosso tecido social, mas também o arcabouço institucional do país. Em última instância, ameaça nossa democracia. No limite, pode comprometer valores que nos são caros e conquistados com muitas lutas, como a liberdade de expressão e o livre exercício do voto.

A gravidade do momento vai além do assassinato de Marcelo Arruda. A maior autoridade eleitoral do país, o presidente do TSE, ministro Edson Fachin, alertou recentemente que a eleição brasileira pode ser palco de um episódio mais dramático do que a invasão do Capitólio por seguidores de Donald Trump.

Urge deter a marcha da insensatez. Antes que seja tarde. O restabelecimento de um clima pacífico passou a ser prioridade nacional. Paz é o que querem os brasileiros.

As forças políticas e suas lideranças devem ser chamadas à responsabilidade, principalmente Jair Bolsonaro e Lula, pelo papel que exercem em seus campos. Especialmente o presidente da República, por sua função institucional e por ser a principal autoridade do país. Os dois líderes nas pesquisas para as eleições deste ano não podem ser fator de instabilidade política ou de acirramento da radicalização.

Bolsonaro semeia a intolerância, ao reduzir a disputa eleitoral a uma batalha entre o bem e o mal. Enxerga um “inimigo interno” – conceito muito presente no período da ditadura militar – a ser extirpado da vida política nacional a qualquer preço, inclusive por meio de uma “guerra eleitoral assimétrica”. Contribui ainda para a potencialização da violência sua pregação em favor do armamento indiscriminado e sua campanha, sem evidências, para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro – uma referência mundial.

Na política, as bases são sempre mais radicais do que as lideranças. Se estas radicalizam, seus seguidores sentem-se autorizados a ir além. Certamente esse sentimento está por detrás de atos dos últimos episódios, inclusive no assassinato de Marcelo Arruda. Em tempos de redes sociais, qualquer declaração infeliz de uma liderança é mais gasolina na fogueira.

Chamá-los à responsabilidade é o primeiro passo para o restabelecimento de um clima de paz. A premissa vale para todos os presidenciáveis. Vale para Bolsonaro, vale para Lula. Um dia antes do triste episódio de Foz de Iguaçu, o candidato do PT enalteceu um vereador de seu partido, Manoel Eduardo Marinho, preso em 2018 por ter provocado traumatismo craniano em um empresário, quando o empurrou em frente de uma sede do PT, após o agredido ter xingado lideranças petistas.

O combate à violência não é uma tarefa exclusiva do mundo político e jurídico. A sociedade civil tem muito a fazer. E, em especial, a educação tem muito a contribuir no sentido de formar pessoas menos agressivas. O estabelecimento de uma cultura de paz nas escolas contribuirá para que ninguém perca sua vida por razões políticas e ideológicas. Educação é a chave de tudo. Ela pode contribuir – e muito – para os brasileiros se reconciliarem e para resgatar o caráter nobre da política como o melhor instrumento encontrado pela humanidade para dirimir seus conflitos.

Fora isso, é a barbárie.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 13/97/2022. 

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