Machadadas!

Numa tarde quente e chuvosa da semana passada, me sentei na poltrona da varanda para apreciar o choro do céu e logo me bateu uma certa nostalgia de um tempo que nem vivi. Imbuída desse sentimento, me levantei para buscar algum livro na estante que viesse ao encontro desse estado de espírito.

Peguei Helena de Machado de Assis, que não lia desde os tempos de escola. Comecei a devorar as páginas amarelecidas pelo passar dos anos e a entrar no livro que conta a história de uma jovem donzela pura e bela que viveu por apenas 17 anos. Morreu por amor e por pudor de ter se deixado levar por uma trama mentirosa que envolvia sua paternidade. (Pensou se essa moda de morrer de vergonha por um malfeito cometido ainda persistisse nos dias atuais? Não ia ter cova pra tanta gente.)

 

Me pus a imaginar como seria viver nessa época, numa dessas casas enormes, arrodeadas por acácias em flor no jardim, cheias de salas, de ante-salas e de alpendres que serviam para levar “dous” dedos de prosa com almas amigas que chegavam “depous” do jantar, servido logo no comecinho da noite.

Muito mais saudável, pensei, do que me sentar no sofá para assistir na sequência a Edição das Seis, o Jornal da Band e o Jornal Nacional para só depois servir o jantar e voltar para o sofá, colaborando assim para o aumento da “borda de catupiry” que insiste em se instalar na região antes conhecida por cintura.

 

Como seria bom receber o padre-mestre Melchior, não necessariamente pela religiosidade, mas pela amizade e pela sua complacência. Estava sempre pronto a emprestar seu ombro para os aflitos e para levar suas sábias palavras aos desorientados. Talvez porque vivesse na reclusão de um monastério, trazia consigo uma visão de fora dos acontecimentos que lhe dava essa capacidade de discernimento e de aconselhamento.

No lugar disso vejo alguns pastores ávidos pelo vil metal, que certamente jogariam no lixo dois dos presentes ofertados pelos três Reis Magos ao rebento, ficando somente com aquele que reluz, envergonhando a comunidade que realmente se dedica a curar almas.

Me dá um misto de revolta e de tristeza quando vejo o pastor goiano Osório José Lopes Júnior, que, mesmo cego, enxerga fortuna vinda pelas mãos de seu rebanho crédulo e inocente, vendendo Títulos do Tesouro Mundial, com a promessa de um retorno trilhardário.

Ou quando tenho notícias de um pastor como Arilton Moura, que age como cafetão da fé, a serviço do Gilmar dos Santos, líder da igreja evangélica Ministério Cristo para Todos (ou dinheiro para todos) de Goiânia, intermediando negociatas vantajosas entre prefeitos com o próprio ministro da Educação Milton Ribeiro, que, por sua vez, obedece ao presidente-mestre da malandragem.

 

À medida em que vou escrevendo sobre essas bandalheiras todas mais quero voltar ao livro que até me inspirou a ir adiante nas mal traçadas linhas que costumo publicar. Em dado momento me empolguei tanto que até pensei que talvez pudesse eu também escrever um romance. Mas já passou!

Meus textos são mais “bigornianos” que machadianos, e quando penso no lugar para o qual mandaria todos os envolvidos nessas falcatruas que prejudicam a população, chego à conclusão de que estou mais para a “escritora maldita” Adelaide Carraro, aquela que se dedicou a escrever histórias baseadas na “verdade nua e crua” e que não poupava palavras, digamos, pouco românticas para expressar seus sentimentos.

 

Mas para manter o nível, só vou mandá-los para o meio do inferno. E que a eternidade os mantenha torrando em fogo alto, porque esses que usam da fé e que colocam Deus acima de todos para engambelar os crédulos, se não receberem aqui a justiça dos homens, que recebam a lá de cima.

No caso, a de lá de baixo

Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 25/3/2022. 

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