Ideb: o duplo desafio da educação

O Brasil pagou um preço caro por ter sido um dos países no qual as escolas ficaram fechadas por mais tempo durante a pandemia. Segundo dados do Ideb-2021, divulgados na última sexta-feira, a onda pandêmica interrompeu avanços na educação ocorridos nos últimos dez anos e houve queda da média das proficiências em todos os ciclos. Como já imaginávamos, os mais afetados foram nossos alunos de seis a sete anos, que deveriam estar alfabetizados nos dois primeiros anos do ensino fundamental.

Desde quando diversos estados do Brasil adotaram programas de Alfabetização na Idade Certa, a aprendizagem na etapa inicial vinha dando saltos importantes. Essa marcha foi interrompida e há uma evidência científica para explicá-la. Como durante a maior parte dos dois primeiros anos da pandemia o ensino se deu de forma virtual, isso prejudicou sensivelmente nossas crianças de seis e sete anos, pois é muito difícil a alfabetização nessa etapa da vida por meio do ensino à distância.

A pior reação diante desse desastre seria a acomodação dos gestores educacionais e dar essa perda como irreversível. Ainda há tempo para recuperar o terreno perdido, desde que essa seja a prioridade das prioridades e haja um esforço nacional – idealmente liderado pelo Ministério da Educação – no qual União, estados e municípios somem forças. Como defendeu Claudia Costin, diretora do centro de políticas educacionais da FGV, isto implicará em mais investimento na educação, especificamente voltado para a recuperação da alfabetização de nossas crianças prejudicadas pela pandemia.

Certamente a pandemia afetou os entes federativos e os alunos do ensino básico de forma desigual. Estados que demoraram mais ao retorno das aulas presenciais e que não tomaram todas as medidas necessárias para mitigar o impacto na formação de nossos alunos durante o período em que as escolas ficaram fechadas devem ter sido os mais afetados. Boa parte deles contribuíram diretamente para a alta abstenção na prova do SAEB, um dos pilares do Ideb. Esses estados e municípios deveriam agora ser mais apoiados fortemente pelo MEC, que não tem exercido seu papel de liderança.

Não é o caso de São Paulo, um dos primeiros estados, ao lado de Minas Gerais e Pernambuco, a retornarem ao ensino presencial. Também fomos impactados pela pandemia, mas conseguimos, por meio de medidas tomadas, mitigar seus impactos. Como reflexo disso, no nosso estado foram mantidos os níveis de proficiência em todos os ciclos, e alcançamos o melhor desempenho de nossa participação na história do Ideb nos anos finais do ensino fundamental. No ensino médio subimos mais uma posição no ranking da educação, ocupando agora a terceira posição no Ideb. Essa também foi a posição do Estado nos anos iniciais do ensino fundamental.

Além de priorizar a recuperação da alfabetização de nossas crianças de seis e sete anos, temos outro grande desafio: dar continuidade às reformas educacionais de terceira geração, baseadas no tripé Alfabetização na idade Certa, Novo Ensino Médio e Ensino Integrai. São esses programas que estão alterando o chão da escola, gerando uma nova mentalidade, um currículo atrativo e adaptado aos interesses dos alunos.

Essas medidas já vinham fazendo a diferença antes da pandemia e também impactaram positivamente no Ideb 2021. Levantamento do Instituto Sonho Grande mostra que as escolas do modelo integral saíram melhor de que as regulares no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Os alunos do ensino médio das escolas de tempo integral tiveram uma aprendizagem 50% a mais do que os de uma jornada de quatro ou cinco horas.

A ONG Sonho Grande forneceu outro dado extremamente alentador. O resultado das escolas integrais foi superior apesar de ter um número maior de alunos vulneráveis, pois 41% dessas escolas estão concentradas em alunos de níveis sócioeconômico mais baixos.  Sentimos isso em São Paulo. O ensino integral adquiriu maior capilaridade nas áreas de vulnerabilidade social, sendo, portanto, um fator de promoção da equidade. Só através da educação de qualidade o Brasil deixará para trás a herança perversa da desigualdade, que vem desde os tempos da escravidão.

O ensino integral não representa apenas o aumento da carga diária de aulas para sete ou nove horas. É muito mais do que isso. É a adoção de um modelo educacional não baseado na memorização ou na repetição de conhecimento e sim no desenvolvimento de habilidades e competências, no sentido de dotar nossos alunos de senso crítico, resiliência, autonomia, capacidade de liderança, saber trabalhar em grupo e de ser protagonista na construção de sua futura carreira profissional.

Coordenação descentralizada, inclusive financeira para a escola ter autonomia na aplicação de recursos por meio do programa Dinheiro Direto na Escola, e um ensino que ofereça aos alunos itinerários para sua formação profissional, são também elementos chaves para o sucesso do ensino integral. Mais do que a oferta de forte conteúdo acadêmico, esse modelo de escola leva nossos jovens a definir seu projeto de vida.

Massificar a escola de tempo integral depende, como disse a presidente do Instituto Sonho Grande, Ana Paula Pereira, da vontade política dos governantes. Em São Paulo isto ocorre com a decisão do governador Rodrigo Garcia em definir como sua prioridade a universalização da escola integral em todo o ensino médio. Esse é um caminho sem volta.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 21/9/2022.

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